Uma das notícias desta semana no mundo do vinho foi a decisão da Rússia de alterar as regras para a rotulagem de vinhos espumantes no país. Mais do que uma decisão polêmica, o que também chamou a atenção foi a forma na qual o assunto foi noticiado pela mídia, inclusive no Brasil. Ficou a percepção de que a Rússia teria se apropriado do nome Champagne.
Mas o que realmente aconteceu? Quem tem a razão nesta polêmica? A decisão russa representa uma afronta ao conceito de denominação de origem? Ou será que o conselho regulador e os produtores da região Champagne exageraram no tom das críticas? Nada como entender bem o que aconteceu para chegar a uma conclusão mais baseada em fatos que em emoções.
Alteração nos contra-rótulos
A polêmica toda teve origem em um decreto assinado pelo presidente russo, Vladimir Putin, que altera a nomenclatura que consta nos contra-rótulos de vinhos espumantes. Para os vinhos espumantes produzidos na Rússia, o termo Shampanskoye (uma tradução para a palavra francesa Champagne usada na Rússia a cerca de 100 anos) passou a ser permitido.
Para os vinhos espumantes estrangeiros (sejam eles originários de denominações de origem como Champagne, Cava ou Prosecco, por exemplo) a expressão a ser usada nos contra-rótulos é a tradução russa de “vinhos espumantes”. A nova legislação não envolve qualquer mudança no rótulo dos vinhos importados, que seguirão usando de forma exclusiva o nome de suas denominações de origem.
Duas decisões em uma
A melhor forma de avaliar a decisão russa é dividi-la em duas partes. De um lado, o uso do termo Shampanskoye permitido para os vinhos espumantes russos e, de outro, as alterações propostas para os contra-rótulos dos vinhos espumantes estrangeiros. Do ponto de vista do respeito ao conceito de denominações de origem, a nova legislação russa deve ser lamentada.
Apesar de não ser signatária do acordo de Lisboa, que regula o uso de indicações geográficas, a Rússia vinha respeitando um acordo informal com o conselho regulador da região Champagne (CIVC). Apesar do termo Champagne ter sido integralmente preservado (não pode ser usado na Rússia por qualquer vinho que não tenha origem nesta região francesa), o mesmo não ocorre com sua tradução em russo. Isso poderia ser evitado e certamente justifica a reação negativa dos representantes e produtores da Champagne.
Por outro lado, o conselho regulador da Champagne reagiu negativamente à obrigação do uso da expressão “vinho espumante” nos contra-rótulos de seus vinhos exportados para a Rússia. No entanto, esta obrigação vale também para espumantes de outras denominações de origem e parece até razoável, já que Champagne, Cava e Prosecco são, de fato, vinhos espumantes. Podem ser elaborados em regiões distintas, mas certamente representam um estilo de vinificação, assim como são, por exemplo, vinhos fortificados, vinhos brancos ou vinhos tintos.
Muito barulho por nada
Apesar de algumas manchetes mais sensacionalistas, a percepção é que o barulho foi maior que o necessário. Se a decisão de alguns produtores da Champagne foi a de inicialmente de suspender suas vendas para a Rússia (atualmente ranqueada como 13º maior importador de Champagne em termos de volume), a decisão já foi revertida pela maioria dos produtores.
Vale lembrar que a região da Champagne é conhecida pela feroz defesa de sua denominação de origem. Além de disputas com diversas regiões ou países do mundo que usam ou usaram o tempo Champagne em seus espumantes, também regiões que sequer produzem espumantes foram alvo de ações na Justiça. A mais marcante talvez seja o pequeno vilarejo suíço de Champagne, que não pode usar este nome em seus vinhos, apesar de uma tradição na vinicultura de pelo menos 350 anos. Discussões à parte, uma coisa é certa: a Champagne está sempre pronta para uma boa disputa, seja ele justificada ou não.
Fontes: The Washington Post; Wine Spectator