Frank Cornelissen foi um dos pioneiros da fase contemporânea dos vinhos do Etna e hoje figura entre os mais respeitados produtores de vinho da região, se não de toda a Itália. Apesar de grande parte de sua produção estar centrada em seus vinhos de entrada (a linha Susucaru), o que realmente chama a atenção são seus vinhos de Contrada, onde fica evidente a diferença entre os vários terroirs do Etna.
Dentro da linha de vinhos de Contrada (são 14 no total, incluindo um branco), tive a oportunidade, na última Wine Paris, de degustar uma sequência de seis deles, incluindo seu vinho mais icônico, Magma. De forma geral, a vinificação segue os mesmos princípios. Com uvas de cultivo orgânico, após colheita manual e uso de cerca de 15% de cachos inteiros nas últimas safras, fermentação com uso exclusivo de leveduras indígenas em tanques de epóxi, onde os vinhos ficam cerca de 18 meses, seguido por mais 18 meses em garrafa antes do lançamento
Munjebel CR (Campo Re) 2022
As uvas provêm de vinhas velhas (mais de 70 anos) situadas em um vinhedo a cerca de 730 metros de altitude, na comuna de Randazzo, com orientação norte. Assim como os demais, um monovarietal de Nerello Mascalese. Para Cornelissen, esta Contrada receberia uma “classificação” de Premier Cru. Coloração rubi de média concentração, com olfativo intenso marcado por aromas de frutas vermelhas e negras, com toque defumado. Alta acidez e corpo médio, com fruta não tão abundante (em comparação com os demais), sem abrir mão da profundidade e de taninos bem presentes.
Munjebel MC (Monte Colla) 2022
Aqui, uma exceção. Os solos deste vinhedo não são puramente vulcânicos, mas apresentam alta proporção de componentes argilo-calcários. Vinhas também acima de 70 anos, em altitude entre 750 e 780 metros e com orientação sul-sudoeste. Mais intenso, amplo e encorpado, apresentou mais fruta negra e taninos mais acentuados. Certamente deve ganhar muito com alguns anos de garrafa.
Munjebel CD (Calderara Sottana) 2022
Dentre as Contrade do Etna, Calderara Sottana é uma das maiores e mais representativas. Altitude de 610 metros, com vinhas de 40 anos e orientação norte. Chamou a atenção a maior presença de notas defumadas e de solo queimado do que no anterior, porém com mais delicadeza e precisão.
Munjebel CS (Chiusa Spagnolo) 2022
Este vinhedo, plantado em pé-franco em 1925, em altitude de 620 metros e orientação norte, inaugura o grupo de parcelas que Cornelissen considera Grands Crus. De um lado, trouxe mais potência e taninos mais intensos, porém, de textura mais fina e de alta qualidade. Para quem gosta de traçar um paralelo entre Nerello Mascalese e Nebbiolo, este vinho é um excelente exemplo.
Munjebel VA (Vigne Alte) 2022
Se a referência do anterior foi o Piemonte, aqui um vinho de expressão mais borgonhesa. São vinhas velhas (mais de 90 anos, em média), provenientes de parcelas em diferentes áreas do Etna, mais especificamente em Bronte (Contrada Tartaraci, 1.000 metros) e em Solicchiata (Barbabecchi – 910 m e Rampante Soprana – 870 m). Muito mais elegante e vertical, com fruta vermelha mais discreta e um toque mentolado. Com taninos finos e mais precisos, pode ser melhor descrito como um vinho de montanha do que como um vinho de vulcão.
Magma 2021
Ao comparar este vinho com os demais, eu ouso discordar da “classificação” de Cornelissen. Mesmo sendo de outra safra e contando com mais um ano de garrafa, mostrou um significativo salto qualitativo em relação aos demais. Uvas provenientes de um vinhedo de pé-franco, plantado em 1910, a 910 metros de altitude, com face norte/nordeste. Daqueles vinhos que provam por que o Etna pode dar origem a tintos que se colocam entre os grandes vinhos italianos. Com olfativo intenso e complexo, trouxe um palato que uniu profundidade e elegância. Alta acidez e taninos finos e elegantes compõem um conjunto harmônico com fruta fresca, textura aveludada e final longo. Seu único problema: custa cerca de € 500 na Europa.