Novo mundo comprovando seu potencial de guarda

Last Updated on 26 de dezembro de 2022 by Wine Fun

Muitos apreciadores de grandes vinhos consideram os exemplares do “Novo Mundo” como de consumo rápido e que se perdem com o passar do tempo. Honestamente, acredito que esta não possa ser considerada uma verdade única.

O mercado do vinho, como muitos outro,s segue modismos, normalmente gerados por novas tecnologias ou por necessidade dos consumidores em vivenciar algo novo, diferente.

Mudança de estilo

Tomemos como exemplo a tendência atual de produzir vinhos mais leves e fáceis de beber. Pois bem, em minha opinião, eles se aproximam muito do estilo dos vinhos elaborados antes dos anos 80. Com uma pequena diferença: o comprador não precisa esperar muito tempo para que estejam em condições ideais de consumo.

Eles substituem hoje os aclamados fruit bombs, até pouco anos atrás cultuados como exemplos do que deveria ser um bom vinho. Destacados pelo volume de fruta, complexos, pela passagem intensa em barricas de carvalho, encorpados e alcoólicos, mostrando toda sua virilidade e potência.

Só no Novo Mundo?

Mas porque rotular apenas os vinhos do “Novo Mundo” com este perfil? Todos os críticos e consumidores também notaram a mudança nos cortes de Bordeaux, nos Brunellos di Montalcino, nos Douro, e nos Priorat, apenas para citar alguns exemplos do “Velho Mundo”. Em outras palavras, vamos parar de rotular os vinhos pelo seu país de origem, e sim pela época em eles foram produzidos, ou mesmo pelas diferenças climáticas de suas safras.

O tema desta crônica surgiu participando de uma degustação vertical que tive o prazer de presenciar recentemente, comemorando os 150 anos da vinícola Errazuriz, ocasião que nos foram oferecidas quatro safras do ícone chileno Don Maximiano.

Don Maximiano ao longo do tempo

Meu favorito foi o 1983, um vinho encantador, elegante com um perfil senhoril e que ganhou complexidade com sua longa guarda. Varietal 100% Cabernet Sauvignon, com 12% de álcool. A seguir provei a safra 1990, já apresentando um pouco mais de trabalho de vinificação e de contacto com madeira, um pouco mais pesado que o anterior, mas ainda elegante. Varietal 100% Cabernet Sauvignon, com 12,5% de álcool.

O próximo na lista foi o da safra 2007, um bom exemplo do que chamamos de fruit bomb, com tudo um pouco a mais, destacando seu peso em boca e excesso de frutas e madeira no nariz, mesmo assim agradou pelo equilíbrio em seu tripé álcool, tanino e acidez. Corte com predominância de Cabernet Sauvignon e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot, 14,5% de álcool.

A prova foi encerrada com um exemplar da safra 2017, ainda muito fechado em seu olfativo por conta da juventude, mas muito harmonioso e equilibrado na boca, apesar de ter 14% de álcool. Um vinho mais vertical e seco. Corte com predominância de Cabernet Sauvignon e pequenas porcentagens de Malbec, Carmenére, Petit Verdot e Cabernet Franc, com 14% de álcool.

Papo com o enólogo

No bate papo com Francisco Beting, enólogo responsável pela elaboração desta linha de vinhos, ficou claro a tendência atual em gerar vinhos com o mesmo perfil elegante dos exemplares pré Parker. Por um lado, utilizar a melhor tecnologia disponível, e por outro, enfrentar novos fatores climáticos, como o aquecimento global e as já usuais variações de clima de cada safra.

Mas termino deixando uma pergunta no ar: quanto tempo isto vai durar?  Como será o mercado daqui a 20 anos? O público consumidor vai voltar a pedir vinhos no estilo fruit bomb? Ou tomarão exemplares ainda mais leves, quem sabe refrescados por pedras de gelo? Só o tempo dirá. Mas uma coisa para mim é certa: produtores sérios, como a Errazuriz, por exemplo, sempre focados em qualidade, continuarão a elaborar bons vinhos, seja lá qual seja a nova tendência. Saúde!

Ex-diretor da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) por dois mandatos, onde também ministrava aulas sobre técnicas de degustação. Editor de vinhos da revista Go Where por 10 anos, publisher da revista Free Time por 3 anos. Já foi jurado de concursos internacionais como CatadorConcours Mondial de Bruxelles. Colaborador e degustador de diversas revistas de vinho, como Vinho Magazine, Vinho & Cia e outras. Editor do blog Tommasi no Vinho.

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Foto: Walter Tommasi, arquivo pessoal

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