O vinho e seu papel na Revolução Francesa

Last Updated on 7 de março de 2021 by Wine Fun

A Revolução Francesa, que começou em 1789, é vista como um dos grandes eventos da história mundial. Até hoje os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade são universais, dando origem a muitos dos princípios que regem (ou ao menos deveriam reger), nossa sociedade. Em todo o mundo, opressores e ditadores entenderam que há um limite para os abusos que a população pode tolerar.

O movimento que derrubou o Velho Regime na França e mudou o mundo teve diversas causas. E uma delas foi a revolta da população francesa com o aumento dos impostos, que ocorreu na segunda metade do século XVIII. Para sustentar os crescentes gastos da corte e pagar os enormes custos da Guerra dos Sete Anos, contra a Inglaterra, a monarquia francesa aumentou de forma agressiva os impostos. E, com nobres e clero praticamente isentos, quem pagava a conta era o restante da população.

Impostos no centro dos problemas

As questões em torno da tributação, deste modo, estavam no centro das origens da Revolução Francesa. De fato, um dos primeiros atos da recém-formada Assembleia Nacional foi abolir, em teoria, todos os impostos existentes porque eram “ilegais em sua criação, extensão e prorrogação”. E uma das mercadorias mais tributadas no final do Velho Regime era o vinho.

Houve uma rápida elevação da tributação sobre o vinho no período pré-revolucionário, e ela atingia patamares altíssimos. Somando todos os impostos, incluindo a taxação cobrada quando os vinhos entravam nas grandes cidades, o preço de barril de vinho comum era basicamente triplicado.

Tributação e consumo de vinho

A tributação sobre o vinho ocorria em diversas formas, mas uma das principais era chamada octrois. Praticamente todas as mercadorias que entravam em uma cidade eram taxadas localmente (boa parte dos recursos ia para o governo municipal), em postos de arrecadação nas várias entradas ou portões das cidades. No caso da Paris de 1789, cerca de 55% do octrois arrecadado se referia a bebidas alcóolicas, mais que todas as outras mercadorias somadas.

E, falando em vinho, não apenas o imposto era elevado. Apesar da pesada tributação, o consumo de vinho na França era bastante significativo. Embora existissem outros tipos de bebidas alcoólicas na época, o vinho era de longe a mais consumida. Estimativas indicam que o consumo anual por homem adulto em Paris, na véspera da Revolução, era de cerca de 300 litros de vinho, contra 20 litros de cerveja e seis de cidra.

Para colocar este número em perspectiva, atualmente o consumo médio de vinho por maiores de 18 anos na França é de cerca de 50 litros por ano. Isso coloca a França em segundo lugar neste ranking, somente atrás de Portugal.

Queda da Bastilha e das estações de arrecadação

Um dos símbolos da Revolução Francesa é a Queda da Bastilha, a prisão usada pela monarquia, até hoje comemorada em 14 de julho. Mas a destruição deste símbolo dos abusos do Velho Regime não foi o único evento daquele conturbado mês de julho de 1789. Também os postos de arrecadação, que tanta revolta traziam para a população, foram atacados. Os maiores e mais espetaculares ataques às barreiras alfandegárias ocorreram entre 11 e 14 de julho em Paris, nos dias e horas antes mesmo do ataque à Bastilha.

Na noite de 11 de julho, uma grande multidão atacou a Barriére Blanche, no noroeste de Paris. Os saques, incêndios e roubos continuaram em muitas barreiras alfandegárias ao redor da capital nos dias 12, 13 e 14 de julho. De acordo com um historiador, “Pode-se dizer que, durante três dias, Paris foi cercada por uma parede de chamas”. E eram os postos de arrecadação (que ficavam nas entradas da muralha que circundava a capital francesa) que queimavam.  Isso foi também registrado em diversas outras cidades em todo o país.

As pessoas gritavam “não queremos mais as barreiras – não queremos os impostos”. Tanto que na manhã de 14 de julho de 1789 na Barriére de Neuilly, no oeste de Paris, alguém havia escrito “finalmente vamos beber vinho às 3 sous, por muito tempo estamos pagando 12″. Se a diferença no preço do vinho estava exagerada ou não, pouco importa. A Revolução havia sido bem sucedida em baixar a tributação sobre o vinho.

Mais do que um imposto

Mas a questão referente ao vinho não era apenas uma questão de tributação. Talvez, mais importante dentro da retórica da Revolução, as ideias de igualdade e justiça eram usadas para pedir a abolição ou reforma dos impostos indiretos sobre o vinho. Para muitos, a liberdade de beber vinho a um preço moderado estava ligada à liberdade recém-encontrada.

Porém, foi necessária alguma acomodação. À medida que a Revolução continuou ao longo da década de 1790, tornou-se evidente que a ausência de impostos municipais sobre o vinho não poderia ser sustentada. Cidades em toda a França não conseguiram equilibrar seus orçamentos e estavam com déficits cada vez maiores a cada ano. A partir de 1798, Paris reestabeleceu a tributação, embora em patamares muito menores, logo seguida por outras cidades.

Impacto positivo

Porém, não há como negar que a Revolução tenha trazido um impacto positivo. Além da tributação ser menor, os novos impostos foram consensuais, em uma decisão tomada por uma nova nação representativa, em vez de serem impostos por um monarca absoluto.

Estes impostos foram aceitos com base no “contrato social”, obrigatório para todos na sociedade, “porque todos se beneficiaram igualmente da proteção oferecida pelo Estado”. Em resumo: liberdade, fraternidade igualdade e… uma boa taça de vinho.

Fonte: Liberty, Equality and Taxation: Wine in the French Revolution, Noelle Plack

Imagem: WikiImages via Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *