Orientação dos vinhedos: saiba como ela pode afetar o estilo dos vinhos

Last Updated on 2 de setembro de 2024 by Wine Fun

Para entender melhor os aromas e sabores de um vinho, vale a pena gastar algum tempo para conhecer mais sobre a origem de suas uvas e os processos usados na vinificação. Na parte que diz respeito às uvas, são vários fatores, muitos deles referentes às condições naturais da área de plantio dos vinhedos. Entre eles, há o tipo de solo, latitude, altitude, proximidade de corpos d’água e, obviamente, a orientação dos vinhedos.

Mas por que a orientação dos vinhedos é tão importante? Embora todos os demais fatores mencionados acima afetem o perfil das uvas, a orientação é um fator vital e, mais importante, algumas vezes passível de controle pelo viticultor. Sobretudo em regiões mais montanhosas, o produtor pode ter a possibilidade de “jogar” com esta variável, com importante implicação sobre o estilo de vinho produzido.

Encostas versus vinhedos planos

Antes de mais nada, vale a pena lembrar que o impacto da orientação depende muito da inclinação dos vinhedos. Pense incialmente em um vinhedo em uma colina bem inclinada. Se ele estiver voltado para o Sol, receberá abundante exposição solar. Caso esteja do outro lado da colina, ocorre o contrário, ele receberá bem menos luz e calor.

Já para vinhedos em áreas planas, o impacto da exposição é muito menor. Se no caso anterior a própria colina “fazia sombra” para uma de suas faces, isso não ocorre em um vinhedo em uma área plana. Obviamente a incidência de luz solar pode variar, porém de forma muito menos pronunciada. Nestes casos, a orientação é um fator que impacta muito menos do que no caso de vinhedos localizados em áreas com maiores inclinações.

Qual o impacto da orientação sobre os vinhos?

Como qualquer fruta, a uva precisa da energia do sol para produzir açúcares. As videiras produzem açúcares (principalmente glicose e frutose) por meio da fotossíntese, processo no qual as folhas convertem a luz solar em energia. Este açúcar é então transportado para os cachos de uvas. A exposição solar, porém, não afeta somente o nível de açúcar das uvas. Ela influencia também o desenvolvimento de compostos fenólicos, como taninos, antocianinas e flavonóides.

Deste modo, a incidência de luz solar é um fator determinante no desenvolvimento das uvas, sobretudo sobre seu grau de maturação. Não é à toa que existe uma faixa ideal de latitude para a produção de vinhos de qualidade (geralmente entre as latitudes 30 e 50). Em latitudes mais baixas, a o impacto do Sol pode ser excessivo, levando a um amadurecimento exagerado, com o inverso ocorrendo em latitudes mais altas, mais próximas dos polos.

Nesta faixa “ideal” de produção, o impacto da orientação pode ser significativo. Pense em um vinhedo na França, país que dá origem a alguns dos melhores vinhos do mundo. Vinhedos com exposição sul recebem uma quantidade maior de luz solar que aqueles de orientação norte. Deste modo, as uvas atingem um ponto maior de maturação, geralmente dando origem a vinhos mais intensos e complexos.  

Qual a orientação ideal?

Em boa parte do Hemisfério Norte existe a percepção de que vinhedos de face sul têm uma vantagem sobre os demais. No entanto, por conta do aquecimento global e de outras variáveis, isso não é hoje necessariamente verdadeiro.  Tendo a França novamente como exemplo, a orientação sul pode ser uma vantagem importante em algumas regiões, como no norte do Loire.

Porém, em regiões mais quentes, como Languedoc, isso pode ser até uma desvantagem, pois o perfil de maturação excessiva das uvas pode ser um obstáculo para a elaboração de vinhos mais frescos e elegantes. O mesmo ocorre em outros países europeus, em áreas como o Douro e a Sicília, onde vinhedos de menor exposição solar (face norte) ganharam muito espaço nos últimos anos, sobretudo para a elaboração de vinhos brancos.

Pesa também a localização do vinhedo. Para vinhedos localizados no Hemisfério Sul, o raciocínio é exatamente o inverso. Neste caso, são os vinhedos com orientação norte aqueles com maior incidência de luz do sol, gerando uvas com maior potencial de maturação. Já as áreas de orientação sul têm menor incidência de luz solar, algo que qualquer pessoa que busca comprar ou alugar casas no Sul ou Sudeste do Brasil já sabe.

Leste e oeste

Se a diferença entre vinhedos de orientação norte e sul é enorme, existe também assimetria entre as faces leste e oeste? A resposta é sim, e isso pode afetar de forma significativa os vinhos elaborados a partir destes vinhedos. Ao contrário da dicotomia entre sul e norte, porém, o impacto não varia de acordo com o Hemisfério, por conta de um fator simples. Independentemente de onde você estiver no planeta, o Sol sempre irá nascer a leste e se pôr a oeste.

Portanto, vinhedos com orientação leste tem maior impacto do Sol da manhã, e isso tem importantes implicações sobre a maturação das uvas. Por conta da maior proteção contra o Sol da tarde e consequentes maiores temperaturas, o desenvolvimento destas uvas tende a ser mais gradual, com acidez mais alta e melhor preservação dos componentes aromáticos. Já as uvas provenientes de vinhedos de face oeste, ao contrário, tendem a mostrar maior concentração de açúcares e menor acidez. Deste modo, é normal esperar vinhos de estilos distintos para vinhedos de exposição leste ou oeste.

Diversas orientações

Não existem, porém, somente vinhedos de orientação norte, sul, leste ou oeste. O mais comum são vinhedos que combinam orientações intermediárias, como sudeste, nordeste, sudoeste e noroeste. Muitas vezes, pela própria complexidade da geografia local, há vinhedos que apresentam orientações bastante distintas. Um exemplo é colina de Corton, na Borgonha, que possui cerca de 270 graus plantados com vinhedos, com orientações variando entre oeste, sudoeste, sul, sudeste e leste.

Em muitas das principais regiões produtoras da Europa, os vinhedos mais valorizados tendem a mostrar exposição entre sul e leste, passando pelo sudeste. Um exemplo é a Côte d’Or na Borgonha, com praticamente todos os vinhedos Grand Cru (à exceção de Corton) mostrando uma combinação entre estas orientações.

Sem a mesma homogeneidade de orientação da Côte d’Or, a região de Barolo é um exemplo de múltiplas orientações. Até hoje boa parte de seus vinhedos de maior reputação tem orientação sul, onde a uva principal é quase sempre a Nebbiolo. Já outras orientações têm proporção maior de outras variedades, com Dolcetto e Barbera, além de uvas brancas. Porém, isso tem mudado gradualmente por conta do aquecimento global.

Flexibilidade e estilo do vinho

O exemplo da região de Barolo mostra que regiões que apresentam múltiplas orientações podem ganhar mais flexibilidade em novos cenários. Assim como o aquecimento global tem tido um impacto significativo sobre vinhos a o redor do mundo, pesa também a mudança no estilo dos consumidores. Como conciliar a preferência cada dia maior por vinhos brancos, rosés ou mesmo tintos mais frescos com maiores temperaturas e menos chuvas, decorrentes do aquecimento global?

A mudança de orientação dos vinhedos pode representar uma saída. Em muitas regiões europeias, as encostas de face nordeste, norte ou noroeste foram por muito tempo desprezadas. Por conta dos novos gostos dos consumidores e do aquecimento global, elas podem representar uma alternativa interessante para a elaboração de vinhos com maior acidez, tensão e frescor.

Independentemente desta maior flexibilidade, mesmo para áreas onde há menores variações de orientação, conhecer este aspecto dos vinhedos é fundamental. Se você prefere vinhos mais frutados, alcoólicos e encorpados, os vinhedos de orientação sul (no Hemisfério Norte) ou norte (Hemisfério Sul) podem ser “o seu número”. Já quem prefere vinhos com mais acidez e tensão, vale o inverso, obviamente levando em consideração todos os demais fatores naturais ou decorrentes da ação humana que afetam o estilo do vinho.

Fontes: The Science of Wine, Jamie Goode; WinePair; Understanding Wines: Explaining Styles and Quality, WSET

Imagem: Arquivo pessoal

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