Os biótipos da Nebbiolo: fatos, características e mal-entendidos

Poucos duvidam da opinião de que a Nebbiolo é uma das uvas mais simbólicas do mundo. Mas isso não tem a ver com quantidade. Ela conta com uma área reduzida de vinhedos, já que, em escala global, sua área plantada corresponde a cerca de 5% daquela da Pinot Noir. Além disso, seu plantio se concentra praticamente em uma única área geográfica, o noroeste da Itália, que responde por quase 95% dos vinhedos de Nebbiolo no mundo.

Todavia, quando o assunto é qualidade, esta uva italiana ganha uma posição de destaque. Por conta disso, repetindo o que ocorre com todas as variedades de alta qualidade, ela desperta atenção e análise mais detalhada dos viticultores. Com o objetivo de elaborar vinhos de alta gama, eles buscam identificar diferentes biótipos ou clones que melhor se adaptam às suas condições de terroir.

No caso da Nebbiolo, historicamente houve a distinção em três biótipos diferentes: Rosè, Lampia e Michet. Na percepção dos produtores, cada um deles traz diferenças importantes aos vinhos. Ainda reproduzida em muitos materiais disseminados no mundo do vinho, porém, esta segmentação em três biótipos se provou cientificamente incorreta. Vamos entender por que, analisando uma a uma.

Rosè

A produtividade dos vinhedos era um fator fundamental na viticultura do passado. Isso explica por que a Rosè chegou a ter uma participação relevante nos vinhedos da região de Langhe no passado.  Além disso, era considerada o biótipo mais perfumado e delicado, com taninos mais leves. Porém, dois fatores acabaram minando sua posição. De um lado, a percepção de que dava origens a vinhos com menor poder de evolução. De outro, a sua coloração mais clara, que a levou a ser preterida na busca de vinhos com maior concentração de cor. A partir dos anos 1970, por conta disso, seu plantio caiu na região de Langhe.

Porém, uma descoberta científica, divulgada em 2000, acabou de vez com as pretensões da Rosè nos vinhedos do Piemonte. Um estudo publicado pelo Istituto di San Michele all’Adige (atual CREA) confirmou que a Rosè é geneticamente distinta da Nebbiolo. Ou seja, não é um biótipo, mas sim uma variedade diferente. Existe uma relação genética direta, mas não se sabe se a Rosè é descendente ou progenitora da Nebbiolo. Vale lembrar que, por ser uma variedade diferente, ela não pode ser utilizada na elaboração de alguns dos vinhos mais valorizados da região, como Barolo ou Barbaresco.

Lampia

É o biótipo atualmente mais amplamente plantado em Barolo e Barbaresco. Com vigor e rendimento equilibrados, se adapta bem a diferentes perfis de solo, uma qualidade essencial em denominações de origem como Barolo. Ela tem um ciclo fenológico bastante longo, com brotação precoce e colheita tardia, geralmente em outubro. Os vinhos elaborados com a Lampia mostram grande tipicidade, com aromas de frutas vermelhas, rosa e alcatrão. Aporta elevada acidez, além de taninos firmes e elegantes, considerados mais finos que aqueles trazidos pela Michet. De forma geral, este biotipo é aquele mais próximo ao que se entende como típico da Nebbiolo.

Michet

Seus cachos e grãos menores resultam em rendimentos mais baixos, o que no passado serviu de obstáculo para sua disseminação nos vinhedos do noroeste da Itália. Por outro lado, sua maior concentração e seus taninos mais intensos atraíram diversos produtores, sobretudo aqueles buscando Barolos com mais estrutura e maior potencial de guarda. De forma geral, é usada como parte do blend, juntamente com a Lampia.

A origem da Michet é um capítulo à parte. Estudos mostraram que ela é resultado de uma infecção viral que atingiu a Lampia. Por conta da ação do vírus, a Michet desenvolveu alterações morfológicas distintas, resultando nas diferenças descritas acima. Avanços nas técnicas de seleção clonal e eliminação de vírus, porém, permitiram a propagação de clones de Michet livres de vírus. Assim, viticultores podem cultivar este biótipo com suas características desejáveis, sem potenciais efeitos prejudiciais da infecção viral original.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Whole-genome sequencing and SNV genotyping of ‘Nebbiolo’ (Vitis vinifera L.) clones, Gambino et al (2017); Jancis RobinsonRegistro Nazionale delle Varietà di Vite; Barolo & Barbaresco Academy Study Book

Imagem: Arquivo pessoal

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