Se boa parte do mundo do vinho tem sido duramente afetada pelos efeitos da COVID-19, talvez seja na África do Sul onde o impacto foi maior. Não bastasse a queda nas vendas de vinho em bares e restaurantes e a redução do fluxo turístico e nas exportações, na África do Sul o governo também teve um papel extra. Desde março de 2020, o governo do premiê Cyril Ramaphosa introduziu por três vezes a proibição de consumo e transporte de vinhos.
No total, já são 19 semanas de proibição acumulada desde março de 2020. Isso resultou em uma perda de mais de 8 bilhões de rands (cerca de R$ 2,9 bilhões) em vendas diretas. Há risco também de fechamento de vinícolas e quebra de viticultores, ameaçando 27 mil empregos. Além disso, com a safra de 2021 começando esta semana, a indústria agora tem mais de 640 milhões de litros de estoque, dos quais 300 milhões não foram vendidos.
Reação da indústria
Por conta desta situação dramática, a Vinpro, que representa os interesses da indústria vitivinícola, com cerca de 2.700 associados, está entrando com ação na Suprema Corte do país para tentar reverter a proibição. O objetivo é que a decisão de proibir ou não o consumo e transporte passe para a esfera das províncias. Isso contrasta com a situação atual, na qual o governo federal decide. A ação começa a ser julgada já agora em fevereiro.
Caso a ação seja bem-sucedida, caberia ao governo da província de Western Cape (que concentra a grande maioria da indústria vitivinícola do país) decidir sobre os rumos. O governo federal suporta que a proibição de venda de álcool (incluindo vinho) acaba reduzindo a pressão sobre hospitais, já lotados por conta da COVID-19.
Dados versus postura do governo
Para a Vinpro, esta situação já não é justificada, divulgando dados que indicam uma tendência de queda de contaminações e internações. E mesmo em uma comparação internacional os dados parecem dar suporte à solicitação dos produtores de vinho. A África do Sul já teve cerca de 44 mil fatalidades decorrentes da COVID-19, mas a nível per capita isso é relativamente baixo em uma comparação internacional.
A título de comparação, o índice de 76 mortes por 100 mil habitantes acumulado até o final de janeiro de 2021 fica bastante abaixo de outros grandes produtores de vinho, como Itália (146), Estados Unidos (133), Espanha (125), Portugal (121), França (114), Argentina (108) e Chile (99).
Fonte: Winemag; The New York Times
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