Quando a filoxera bate à porta: Ilhas Canárias, o fantasma moderno e os vinhedos da Antiguidade

Em agosto de 2025, uma notícia correu o mundo do vinho: a filoxera foi encontrada nas Ilhas Canárias. Até então, o arquipélago era celebrado como um dos últimos redutos “pré-filoxéricos”, com vinhas de pé-franco, sem enxertia, sobrevivendo em solos vulcânicos e protegidas por sua condição insular. A chegada da praga em Tenerife lembra que o inimigo não é do passado, mas uma ameaça viva e contemporânea.

E aqui se abre um ponto fascinante para quem olha o vinho pela lente da história: se hoje a filoxera aterroriza viticultores, ela não tem lugar algum na arqueologia do Mediterrâneo antigo.

A filoxera: um intruso tardio  

Nativa da América do Norte, a Daktulosphaira vitifoliae só cruzou o Atlântico no século XIX. Sua primeira grande devastação na Europa ocorreu na França, na década de 1860. Dali espalhou-se como incêndio, matando vinhedos do Douro à Toscana, até que a enxertia em porta-enxertos americanos oferecesse a salvação.

Essa cronologia é decisiva para o estudo de pragas botânicas da viticultura do mundo moderno, pois no mundo grego e romano, a filoxera simplesmente não existia. Não aparece nos tratados agronômicos de Columela, Plínio ou Teofrasto, que descrevem outros males da videira, mas jamais algo semelhante a um inseto radicícola mortal. E tampouco há vestígios arqueológicos compatíveis com ela em raízes ou sementes estudadas em sítios antigos.

Infelizmente em Tenerife, as autoridades confirmaram focos de filoxera em Valle de Guerra, Tacoronte e La Matanza de Acentejo, com prospecções, eliminação de plantas e restrições ao movimento de material vegetal para conter a praga. Até meados de agosto, os focos estavam circunscritos, com amostragens extensivas. Por ser tão recente (nesse mês de publicação do artigo), o setor produtivo pede prudência para evitar impactos indevidos na vindima e na imagem dos vinhos canários.  

A confirmação encerra um capítulo histórico: as Canárias eram citadas como território pré‑filoxérico, com vinhas antigas de pé-franco (vinhas não enxertadas), em parte preservadas por barreiras regulatórias e particularidades edafoclimáticas. Agora, a prioridade é o controle e a preservação do patrimônio vitícola insular.

Por que isso importa historicamente? Porque demonstra que a filoxera permanece uma praga moderna e em curso, com dinâmica de introdução recente em arquipélagos antes ilesos — e que não compõe o repertório patológico do mundo antigo.  

O que a Antiguidade realmente enfrentava

Se não havia filoxera, o que devastava vinhas antigas?  De acordo com as ricas literaturas de Columela e Plínio, o Velho, que nos deixaram verdadeiros tratados sobre botânica, vinhas e vinhos no auge do Império Greco Romano e também sobre a vasta bibliografia e pesquisa que a arqueobotânica estiveram e estão debruçadas, vinhedos do Mediterrâneo passaram por grandes pragas da época, que hoje, são domadas e até benéficas.

As podridões: complexos de fungos como Botrytis cinerea e/ou outros agentes de “podridão ácida” têm as descrições antigas de uvas “apodrecidas” ou “corrompidas” e se ajustam a síndromes fúngicas-bacterianas, ainda que os autores não nomeiem agentes. A botrytis está presente no Velho Mundo desde antes do período clássico, porém, provar botrytis específica em resíduos arqueológicos é difícil sem biomarcadores inequívocos. Ou seja, se existiu a podridão nobre como descreve Columela sobre as características muito similares à que conhecemos hoje, naquela época, os vinhedos e ou a safra, estavam condenados.

Insetos generalistas: lagartas, cigarras, vespas e formigas aparecem nas narrativas como pragas de folhas e cachos, capazes de arruinar colheitas. Mencionados genericamente por autores antigos como dano a folhas e cachos; o efeito mais visível é perda de área foliar e ferimentos que favorecem podridões. Novamente, a identificação taxonômica fina é rara nos textos.

Estresses abióticos: ventos quentes, secas, chuvas inoportunas, solos pobres eram inimigos recorrentes e salinização foi amplamente atestada e discutida por agrônomos antigos como causas de queda de produção e qualidade, verificadas arqueologicamente por contextos de terraços, cisternas, drenagens e escolhas de porta de encosta (ainda sem enxertia).

Aqui a arqueologia ajuda, mas de forma indireta. 

Nas infraestruturas de produção, sítios arqueológicos contendo os lagares escavados na rocha, prensas, tanques, dolia e ânforas mapeiam a escala e continuidade da vitivinicultura, mas não dizem, por si, qual praga atuou.

A arqueobotânicade sementes, tem uma coleção catalogada em quantidades, morfometria, carbonização/mineralização e DNA antigo (aDNA) que permitem rastrear variedades, linhagens e manejo (ex., seleção de uvas para vinho). Em contextos excepcionais, pode-se buscar biomarcadores de microrganismos. Exemplos: estudos de aDNA em sementes medievais/romanas na Europa e no Neguev (tardia Antiguidade) mostram continuidade varietal e rotas de difusão, não pragas específicas.  

E por fim, dentro dos estudos de arqueobotânica moderna, a química de resíduos em ânforas identifica a vinificação e armazenamento (tartaratos, resinas, etc.), mas, em regra, não discrimina o agente patogênico que afetou o vinhedo. (Atribuições diretas de patógenos exigem marcadores moleculares raros em cerâmicas.)  

Na Antiguidade, as “doenças da vinha” são atestadas textualmente e inferidas por contextos (colheitas, técnicas de conservação, infraestrutura), porém a identificação taxonômica de uma praga específica é incomum. Já a filoxera é excluída por cronologia, biogeografia e ausência total nos textos compatíveis com sua biologia.

O tripé que nunca pertenceu à Antiguidade

Curiosamente, as três pragas que moldaram o vinho moderno — oídio, míldio e filoxera — são todas americanas e só chegaram à Europa a partir de meados do século XIX.  Na Antiguidade, portanto, não faziam parte do repertório vitícola. O tripé devastador que conhecemos hoje é, em termos históricos, um capítulo recente.

Assim, quando olhamos para a crise que hoje ameaça as vinhas de Tenerife, precisamos lembrar: a filoxera é um fantasma moderno, não um inimigo da Antiguidade. No tempo dos romanos e gregos, as vinhas sofriam com podridões e insetos locais, com a ira do clima e dos deuses — mas não com a praga americana. Chegar de forma científica a essa conclusão é fundamental para descartar qualquer risco de proliferação dessa praga a partir do resgate de cepas antigas.

Atualmente, os cientistas que estudam a recuperação genética de antigas autóctones, de antigas cepas, enxergam essa ciência como uma das vias importantes para o enfrentamento das mudanças climáticas e luta contra o baixo desempenho que algumas cepas atuais em locais específicos, principalmente na Europa, vêm travando contra o clima cada ano mais hostil.  

A arqueologia pode nos mostrar o esplendor dos lagares de Pompeia, as ânforas que levaram vinho até os confins do Império, as sementes que guardam memórias varietais. Mas não nos mostrará filoxera. Essa, infelizmente, é herança da globalização do século XIX, e sua sombra ainda se projeta sobre nós — como a recente descoberta nas Ilhas Canárias tão bem evidencia.  

Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.

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Fontes: Cadena SER; Decanter; Projeto Gutenberg; ArchaeoPress; Roman and Late Antique Wine Production in the Eastern Mediterranean; Ancient Wine Making

Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal

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