Nas últimas semanas, uma parte significativa do Brasil foi literalmente coberta por uma névoa cinzenta, em boa parte decorrente de queimadas. Nascido e morando há muitos anos em São Paulo, não me recordo de ter uma sensação assim, com esta camada de fumaça e névoa tão evidente. O quanto disso se deveu à já “tradicional” inversão térmica de inverno e o quanto às queimadas é difícil dizer, mas certamente não fez bem à saúde de ninguém.
E quando falo ninguém, não estou me referindo somente às pessoas. Também animais e plantas sofrem com as queimadas, inclusive as videiras. Além disso, a fumaça gerada por queimadas não é uma exclusividade brasileira, já que, por conta do aquecimento global, parece ser um fenômeno cada dia mais comum ao redor do mundo. Rapidamente me vem à cabeça queimadas de grande porte ocorridas recentemente em países como Austrália, Estados Unidos, Chile e Portugal. Por coincidência ou não, todos grandes produtores de vinho.
Incêndios florestais e o vinho
Até por conta da recorrência das incêndios florestais em diversas regiões, sobretudo na Austrália e na costa oeste dos Estados Unidos, não falta pesquisa sobre o impacto deles sobre e as videiras e, consequentemente, sobre a qualidade dos vinhos. Somente na California estima-se que o custo decorrente dos forest fires sobre a agricultura, incluindo a indústria vitivinícola, tenha sido na casa de US$ 3,4 bilhões. Mas as perdas não são somente financeiras. Um estudo do Australian Wine Research Institute publicado em 2003 buscou entender o impacto da fumaça sobre os vinhos.
No caso, os australianos tinham que resolver um dilema. De um lado, havia quem garantisse que, desde que as uvas não tivessem aromas ou sabores de fumaça, não havia qualquer risco para a qualidade dos vinhos. De outro, diversos produtores reportando que, mesmo com uvas aparentemente saudáveis, os vinhos elaborados eram quase imbebíveis, por conta dos sabores e odores de queimado.
A solução do mistério veio através da análise química das uvas e dos vinhos. Os incêndios florestais resultam na liberação de centenas de substâncias químicas, muitas delas tóxicas. Dentre elas, duas merecem destaque: o guaiacol (também chamado de “gosto de fumaça”) e o siringol (o “cheiro da fumaça”). Quando analisadas nas uvas, estes compostos estavam combinados com outras moléculas, formando glicosídeos. Porém, na adega, como resultado do processo de fermentação, estes links se rompiam e os aromas e sabores de fumaça acabavam deteriorando sensivelmente a qualidade do vinho.
Os vinhos da safra 2024
Embora esteja distante do volume de vinhos produzido nos Estados Unidos, Austrália, Chile ou Portugal, o Brasil é também um importante produtor, entre os 20 maiores do mundo. Boa parte dos vinhedos se concentra no Rio Grande do Sul, porém de forma crescente estados como São Paulo, Minas Gerais e Goiás ganham espaço. E, infelizmente, estas áreas foram muito castigadas pelas queimadas.
Grande parte dos vinhos produzidos nesta área usa o método de dupla poda, com colheita das uvas no inverno. Portanto, saber quando ocorreu a colheita em 2024 pode ser extremamente relevante para avaliar os vinhos destas regiões. Nossa torcida que não haja impacto deste desolador cenário de queimada sobre a qualidade dos vinhos brasileiros. Já basta o efeito negativo sobre o meio ambiente, a qualidade do ar e nossa saúde.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal