Last Updated on 28 de agosto de 2022 by Wine Fun
Ribera del Duero ocupa um lugar de destaque na produção de vinhos na Espanha. E isso se aplica tanto no quesito quantidade produzida, quanto na qualidade. Mas nem sempre foi assim. Até a década 1970, o cenário da região era curioso. De um lado, abrigava uma das mais prestigiadas vinícolas da Espanha e do mundo: a icônica Vega Sicília.
Por outro lado, a região não era regulada por uma Denominação de Origem e, apesar de contar com uma grande área plantada de uvas viníferas, produzia apenas o chamado bulk wine, vinhos genéricos, produzidos por cooperativas, sem identificação de origem e que eram rotulados como Vino ou Vino de Pais, ou de Mesa como eram chamados antes da atual legislação entrar em vigor.

Uma longa tradição
Historicamente a região sempre foi considerada uma área de grande potencial para produzir bons vinhos. Monges beneditinos e cistercienses estabeleceram monastérios na região durante a Idade Média e fomentaram a prática da viticultura.
Os monges se foram, mas a prática ficou. Ao longo do tempo, proliferou na área a prática de construir adegas subterrâneas para fermentar e armazenar os vinhos. Essas adegas possuem em média 12 metros de profundidade e até hoje são usadas. Visitar essas adegas seculares é um passeio obrigatório na região, especialmente nos arredores da Província de Soria, que abriga ótimas bodegas, como a Aalto e o Dominio de Atauta.
A atenção para a qualidade, naquela época, se traduziu num conjunto de leis intitulada Ordenazas de Castilla y León no século XV, quando os vinhos produzidos por lá eram exportados para todo o, então poderoso, império espanhol dos séculos XVII e XVIII.
Vega Sicilia, um caso a parte
Em 1864, Don Eloy Lecanda y Chaves, adquiriu mudas de Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot e plantou na sua propriedade chamada de Vega Sicilia, localizada na Ribera del Duero. A grande inovação foi misturar as uvas francesas de Bordeaux com as indígenas da região. O vinho rapidamente obteve reconhecimento internacional. Até hoje os rótulos “Unico” e “Valbueña” frequentam qualquer lista que se elabore sobre os grandes vinhos da Espanha.

Mas o sucesso da Bodega Vega Sicília não foi capaz de fomentar o desenvolvimento de outros vinhos de qualidade na região. Não cabe aqui aprofundar esse ponto, mas até hoje esse produtor mantém um estilo à parte, como se estivesse “acima da denominação”. E enquanto Vega Sicilia brilhava no mundo, a região de Ribera del Duero (RdD) era apenas um mero produtor de uvas para produção de vinhos básicos.
Década de 1980 – o boom de vinhos de qualidade
Nessa ocasião, um pequeno grupo de produtores, ao qual se atribui a liderança de Alejandro Fernández, do Grupo Pesquera, surpreendeu o mundo com um novo estilo de vinhos de RdD.
Até então os vinhos de RdD que o mundo conhecia eram um blend de castas bordalesas e indígenas da área. Usando variedades produzidas nos entornos da cidade de Pesquera de Duero, o novo vinho era geralmente varietal e produzido com a Tinto Fino (Tempranillo). Uma boa estratégia comercial nos Estados Unidos, aliada a boas avaliações do crítico Robert Parker funcionaram como “cartão de visitas”. O sucesso foi imediato.

Enquanto o Vega Sicilia continuou “tocando sua vida”, um conjunto de produtores de uvas e pequenas bodegas se uniram e, em 1982, organizaram um conjunto de regulamentações que culminou na criação da DO Ribera del Duero.
Vinhedos foram replantados, seguindo uma nova regulamentação e investimentos foram feitos para aperfeiçoar o processo de vinificação. Para isso contaram com a onda de investimentos favoráveis que a Espanha recebeu com a adesão à Comunidade Europeia. Um número resume o tamanho dessa transformação. Em 1982 a DO RdD contava com apenas sete bodegas. Hoje são aproximadamente 270!!! E o salto de qualidade foi proporcional.
Os vinhos de Ribera del Duero
A variedade Tempranillo reina absoluta em RdD. A DO exige um mínimo de 75% dessa casta, mas grande parte dos produtores usam 100%. Tintos representam 99% da produção e os vinhos “rosados” completam o resto. Recentemente foi autorizada a produção de brancos, usando a uva Albillo Mayor, mas o volume ainda é insignificante. No dia em que essa coluna foi escrita não foi encontrado nenhum branco dessa região a venda no Brasil, numa rápida e despretensiosa consulta feita na internet.
A área plantada acompanha as encostas do Rio Duero (que em Portugal é chamado de Douro, o mesmo do Vinho do Porto) por 115 km de leste a oeste, com largura média de 35 km. A altitude onde os vinhedos estão plantados encontram-se entre as maiores da Europa, com pico de 945 metros. Essa elevada altitude propicia uvas com boa acidez, apesar do clima continental extremo, com verões quentes e secos
Os grandes vinhos de RdD caracterizam-se por serem encorpados, com boa fruta madura, taninos marcantes, mas de fina textura, com várias camadas de aromas e sabores.
Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal
Belo artigo, Renato! Wine & Co traz um Albillo incrível, talvez a grande referência para a variedade, o Dominio del Aguila e a World Wine traz dois das Bodegas Marañones. Não sei se há mais, mas suponho que haverá cada vez mais…. Abraço