Roussanne: uma das expressões brancas do Rhône

Você conhece a variedade Roussanne? Ela é uma das castas brancas mais nobres do Vale do Rhône, especialmente associada às denominações de origem clássicas do norte da região. Embora esteja autorizada em diversos AOCs franceses, é sobretudo em Hermitage, Crozes-Hermitage e Saint-Péray — além de Châteauneuf-du-Pape no sul — que a variedade construiu sua identidade.

Durante décadas, a Roussanne desempenhou um papel secundário em relação à Marsanne, sua parceira tradicional de corte. No entanto, a partir dos anos 1990, a casta passou por um processo claro de redescoberta, impulsionado por trabalhos de seleção clonal, pela valorização dos vinhos brancos do Rhône e pela percepção crescente de sua qualidade.

História e redescoberta

Originária do norte do Vale do Rhône, a Roussanne sempre esteve integrada às denominações clássicas da região. Seu uso está formalmente previsto nos cahiers des charges históricos de Hermitage, Crozes-Hermitage e Saint-Péray, além de figurar entre as castas autorizadas em Châteauneuf-du-Pape.

Apesar dessa presença regulamentar antiga, sua área plantada permaneceu limitada até o final do século XX. Os dados oficiais mostram uma expansão significativa: de pouco mais de 70 hectares na década de 1950 para pouco menos de 2.200 hectares em 2018. Esse crescimento coincide com a implementação de programas de seleção clonal, a criação de conservatórios varietais no Rhône e a maior valorização dos vinhos brancos estruturados e de guarda.

Nome, origem e parentescos

O nome Roussanne está diretamente associado a uma de suas características morfológicas mais marcantes. Suas bagas adquirem uma coloração acastanhada-avermelhada (roux) quando atingem plena maturação. Trata-se de uma casta branca, mas cujas cascas mudam visivelmente de tonalidade no final do ciclo vegetativo

A Roussanne apresenta perfil genético mapeado, e estudos indicam uma forte proximidade genética com a Marsanne, compartilhando metade dos alelos analisados em múltiplos marcadores nucleares. Isso sugere uma relação de primeiro grau (parentesco direto, como irmãos completos), ainda que a filiação exata não esteja formalmente estabelecida. Deste modo, além de parceiras de corte, Marsanne e Roussanne possivelmente apresentam uma ligação genética.

Principais características

A Roussanne é considerada uma casta exigente no vinhedo. Apresenta vigor médio, sarmentos longos e produtividade irregular. Os cachos são pequenos a médios, com bagas pequenas, que tendem a uma coloração avermelhada quando maduras. A casca é relativamente fina, o que a torna sensível às doenças. Entre suas principais fragilidades estão o oídio, a podridão cinzenta, ácaros e tripes. Por isso, adapta-se melhor a solos pobres, pedregosos e bem drenados, especialmente em encostas expostas. A maturação é de meia-estação, com duração de cerca de três semanas e meia após a Chasselas.

Os vinhos e o papel nos cortes

Tradicionalmente, a Roussanne é utilizada em corte com a Marsanne nos grandes brancos do norte do Rhône. Enquanto a Marsanne aporta volume, textura e estrutura, a Roussanne contribui com maior acidez, expressão aromática, tensão e capacidade de envelhecimento. Nos cortes, a Roussanne acrescenta notas de damasco, mel, flores brancas, ervas secas e, com a evolução, nuances de chá, de frutos secos e de amêndoas. É, portanto, a principal fonte das características aromáticas e da elegância dos grandes blends brancos do Rhône.

Embora menos comum, também existem exemplos de vinhos monovarietais de Roussanne. Um dos casos mais conhecidos é o do Château de Beaucastel, em Châteauneuf-du-Pape, que produz um 100% Roussanne em edições muito limitadas, demonstrando o potencial da casta como protagonista. Outro uso desta variedade é como parceira minoritária em vinhos tintos do Rhône Norte, como Hermitage e Crozes-Hermitage (máximo de 15%) ou Saint-Joseph (até 10%).

Área plantada e nomes alternativos

Embora de origem francesa e profundamente associada ao Vale do Rhône, a Roussanne é hoje uma variedade de presença internacional, ainda que fortemente concentrada na França. A área plantada no seu país de origem cresceu expressivamente a partir dos anos 1990, passando de pouco mais de 70 hectares em 1958 para cerca de 2.179 hectares em 2018, confirmando a redescoberta recente da casta no contexto da viticultura francesa moderna. Além do Rhône, há também vinhedos comerciais nas regiões da Savoia, do Languedoc e do Roussillon.

Fora da França, a Roussanne apresenta uma presença mais modesta, porém relevante. Nos Estados Unidos, sobretudo na Califórnia, estima-se que a área seja de cerca de 167 hectares em 2015. Há também registros de plantios em diferentes regiões vitivinícolas do Novo Mundo, como África do Sul, Argentina e e Austrália. Há registros em outros países europeus, como a Itália e a Bulgária.

Devido à sua pequena dispersão geográfica, a Roussanne apresenta poucos nomes alternativos. Segundo o catálogo da Universidade da Califórnia – Davis, a uva também é conhecida como: Barbin, Bergeron, Courtoisie, Fromental, Fromental jaune, Fromenteau, Greffon, Greffou, Martin Cot, Picotin blanc, Plant de Seyssel, Rabellot, Rabelot, Ramoulette, Rebellot, Rousanne, Rousanne blanc e Roussane.

Fontes – Roussanne B – Plantgrape, IFV / INRAE; Roussanne – Foundation Plant Services Grape Registry, University of California Davis; Thèse sur la diversité génétique de la vigne, Thierry Lacombe, INRA Montpellier SupAgro; Cahier des charges de l’AOC Hermitage, INAO; Cahier des charges de l’AOC Crozes-Hermitage, INAO; Cahier des charges de l’AOC Saint-Péray, INAO; Cahier des charges de l’AOC Châteauneuf-du-Pape, INAO; Roussanne – cépage du Rhône, Inter Rhône; Roussanne – cépage autorisé, Syndicat AOC Vacqueyras.

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