A safra 2024 foi completamente diferente daquela de 2023 no Chile. E muito disso tem a ver com El Niño, fenômeno climático no qual há um aquecimento da temperatura da superfície da água do Pacífico oriental. Durante 2023, El Niño causou um aumento nas temperaturas no Pacífico entre 1 e 1,5 graus, o que resultou em um inverno ameno em parte significativa do Chile. Esse aumento na temperatura do oceano levou a uma maior cobertura de nuvens, menos luz solar direta e um inverno mais ameno e chuvoso.
Por conta disso, houve um lento amadurecimento das uvas na maioria das regiões vinícolas do Chile, com atraso na colheita em boa parte do país. Porém, por conta na enorme extensão norte-sul do Chile, isso não ocorreu para sua totalidade. Assim, a safra de 2024 no país andino pode dividida em duas: uma para as regiões ao norte e outra para as áreas central e sul.
Safra quente e seca no norte
No norte do Chile, que inclui regiões como Copiapó, Huasco, Limarí e Elqui, o cenário foi completamente distinto do centro-sul. De uma certa forma, lembra um pouco o que acontece no Brasil, quando este fenômeno climático é intenso. Como podemos muito bem verificar este ano, ele cria enormes diferenças entre temperaturas médias e quantidade de chuvas entre o Sul e o Sudeste do Brasil.
No norte do Chile, por conta do impacto direto do El Niño, houve um inverno seco e verão muito quente, acelerando a maturação das uvas. O resultado foi uma colheita precoce em cerca de 20 dias, com importante impacto sobre a maturação fenólica das uvas. Para quem aprecia os vinhos brancos verticais e de alta acidez destas regiões, 2024 talvez não seja uma safra tão favorável.
Centro sul do Chile com clima mais ameno
Já nas regiões central e sul do Chile, que respondem pela grande maioria da produção chilena de vinho, o cenário foi o inverso. A estação foi caracterizada por um inverno com altas temperaturas e chuvas significativas. A primavera fria e úmida resultou em menos frutas nas videiras, além de crescimento e amadurecimento mais lento. O verão continuou com baixas temperaturas, prolongando ainda mais o ciclo de maturação das uvas.
A colheita de variedades de maturação precoce ocorreu duas a três semanas antes do normal, e os rendimentos das variedades de maturação tardia sofreram o impacto da primavera fria. Em contraste com o padrão visto em safras anteriores, as uvas alcançaram um equilíbrio excelente, com níveis alcoólicos moderados e bom frescor.
Obviamente estas condições climáticas mais chuvosas e frias tiveram maior impacto sobre as regiões mais ao sul, como Bio-Bio, Cautin e Osorno, justamente aquelas consideradas “no limite” para a elaboração de vinhos de alta gama. A primavera fria e o atraso no desenvolvimento dos frutos, combinados com fortes chuvas em março, resultaram em uma estação úmida e fria. Isso produziu uvas com níveis alcoólicos mais baixos e alta acidez.
Safra a ser lembrada
Eduardo Jordan, enólogo da Miguel Torres Chile, resumiu bem a safra 2024. “Esta foi uma das colheitas mais longas que conheci. Começamos a vindima em 2 de fevereiro em Limarí e fomos colhendo até 9 de maio com a Carmenère na região de Maule.” Quando questionado sobre suas perspectivas a respeito dos vinhos do centro sul do país, Jordan foi enfático. “Foi uma safra realmente espetacular. Tivemos excelente qualidade, com alta acidez natural, álcool mais baixo, taninos finos e muito frescor. Acho que foi uma das maiores safras do nosso tempo.”
Outros enólogos pensam na mesma linha. “Foi um ano excelente”, resume Gabriel Mustakis, da Viña San Pedro. “Os vinhos são muito expressivos no seu carácter frutado, com taninos elegantes, boa concentração e frescor.” Marco De Martino, da De Martino Wines, ressalta a desenvolvimento fenólico mais longo “Em Maipo, estávamos pelo menos duas semanas atrasados. Isso permitiu maturação dos taninos, mas açúcares muito baixos e álcool potencial de apenas 11%. Não tivemos que esperar pelo teor de açúcar desde que me lembro!”
Fontes: The Drinks Business; Todo Vinos Chile; Wines of Chile
Imagem: Monica Volpin via Pixabay