Há menos de 30 anos, a China deixou de ser um país pobre e desigual para se tornar a segunda maior economia do mundo. Sua economia evoluiu e hoje ocupa um lugar de destaque em setores industriais de alta complexidade. E no mundo do vinho a transformação também foi radical. Principalmente no consumo, onde a demanda chinesa mudou o posicionamento das peças no tabuleiro do jogo no mercado global. Mas será que a China também ocupará um lugar de destaque na produção de vinhos nos próximos anos?
Os mais apressados responderiam imediatamente que sim. Afinal, onde o dragão chinês resolveu competir, foi uma mera questão de tempo para que líderes fossem desbancados. Mas, talvez, a resposta a essa questão nesse caso específico não seja tão simples assim. Esse é o tema dessa coluna. Ela foi baseada no webinar da Wine Scholar Guild, que aconteceu no dia 23/05/2021 em seção privada e online direcionada aos membros. Nesse evento, a Master of Wine chinesa Fongyee Walker levantou pontos de discussão interessantíssimos que tentaremos resumir aqui.
Especificamente, a discussão se dará em torno dos desafios colocados para a produção de vinhos de qualidade, e em larga escala, na China. O objetivo será mostrar que não serão simples os obstáculos a serem enfrentados pelo dragão chinês. Mesmo que ele esteja acostumado a ser protagonista onde quer que se aventure a competir, a disputa nesse front será duríssima.
Qual o tamanho da viticultura na China
Uma análise apressada pelo gráfico abaixo, que tem como fonte dados da OIV, poderia sugerir que a China já é um dos maiores produtores de uva no mundo.

Porém, é sempre bom lembrar que os dados da China precisam sempre serem olhados com atenção, E no gráfico acima estão misturadas as produções de uvas viníferas e de mesa. Aliás, as uvas de mesas são extremante valorizadas na China e possuem um preço ao consumidor acima da média mundial.
A competição na China enfrentada pelos produtores de vinhos de qualidade, portanto, começa bem antes do vinho ser engarrafado. Com uma rentabilidade maior para produzir uvas de mesa, sem contar a liquidez de um produto destinado ao consumo imediato e sem custo de processamento, o desafio da produção de uvas viníferas já começa cedo e é enorme.
Estima-se que da produção total na China, a Vitis vinifera representa apenas 10% . A figura 2 demonstra a distribuição do mix entre uvas viníferas e uvas de mesa cultivadas na China, sempre com base em dados da OIV.

Ou seja, procede a informação de que a China produz uma grande quantidade de uva. Porém, a parcela dedicada a produção de vinho é relativamente pequena. A participação de Vitis vinifera de 10% na China chega a ser inferior à do Brasil, que alcança cerca de 25-30%.
Produzir uva vinífera na China não é trivial
É comum olhar o mapa da China, constatar que boa parte do território está dentro das latitudes ideais para a produção de uva vinífera (entre 45° e 30° do hemisfério norte) e automaticamente inferir que o país reúne as condições climáticas ideais para a vitivinicultura. Ledo engano.
A Vitis vinifera surgiu na bacia mediterrânea. E é uma planta heliófila (precisa de muita luz solar). O clima de boa parte da região vinícola chinesa é continental, e marcada por extremos. Ao contrário do inverno no clima mediterrâneo, o inverno é seco, rigoroso e a chuva acontece no período mais inadequado para o adequado amadurecimento fenólico. E estes são apenas alguns poucos exemplos dos desafios encontrados.
Alguns poderiam argumentar que os chineses já superaram, com tecnologia, desafios infinitamente maiores que esses. E é verdade. Mas há um custo para isso. Em termos econômicos e financeiros. E os chineses já mostraram ao mundo que sabem fazer conta. E, mais que isso, que sua agricultura tem prioridades: a produção de alimentos.
Custo de oportunidade
Importante dizer que não se questiona aqui a capacidade da China produzir vinhos. E de produzir bons vinhos. Mas sim, o ponto de discussão é a viabilidade e escala dessa produção. O custo de oportunidade é muito elevado.
A recente explosão de consumo de vinhos na China tem como marco o famoso “brinde” que o Primeiro-Ministro Li Peng fez, em 1996, no Congresso do Partido Comunista Chinês ao anunciar o plano de crescimento econômico dos próximos anos. Nesse evento o brinde, para saudar o desejado futuro próspero foi feito com uma taça de vinho tinto.
E por que a autoridade chinesa escolheu o vinho para brindar e não a tradicional bebida do país elaborada com cereais? Talvez porque quisesse privilegiar o consumo de cereais para alimentar sua população. Talvez porque enxergasse no vinho um símbolo de modernidade. Talvez … talvez …. Mas o fato é que o vinho, a partir daí, passou a ser identificado com a nova era de prosperidade na China e viu a demanda explodir no país.
No consumo a China já é uma potência
Na crise econômica que varreu o mundo em 2008, a maior região de vinhos de qualidade no mundo, Bordeaux, encontrou no mercado chinês uma “tábua de salvação”.
A representatividade do mercado chinês em Bordeaux impressiona. Em 2017, segundo dados extraídos do livro “Thirsty Dragon, China’s Lust for Bordeaux and the Threat to the World’s Best Wines” de autoria de Suzanne Mustacich, editora da Wine Spectator, Bordeaux produziu 645 milhões de garrafas, das quais a China absorveu 84 milhões (13%). Em termos de valor, a China representou 10%. Se incluirmos Hong Kong onde, sabidamente boa parte do volume se destina à China, esses percentuais cresceriam ainda mais.
Qual será o papel da China no mercado global do vinho
Essa questão tem uma parte fácil de ser respondida e outra mais difícil. Definitivamente, a China já é um grande consumidor de vinhos. Não só dos vinhos de luxo, mas também os de menor valor. Essa tendência parece ter vindo para ficar.
Já com relação a produção local, a resposta é um pouco mais difícil. As condições climáticas não são ideais. O país, apesar da extensão territorial, tem notória limitação de área para produção agrícola. Não à toa é o maior importador mundial de commodities agrícolas. Mas, por outro lado, tem um mercado pujante, amplo acesso a tecnologia e o histórico de superar desafios e contrariar a crença de quem duvida de seu potencial.
A China nas últimas décadas foi pródiga em desbancar crenças e o status quo de setores estabelecidos. A conferir como isso se dará no mundo do vinho.
Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal