Soave: vinhos brancos em uma região vinícola cheia de contrastes

A região e os vinhos de Soave, de uma certa forma, representam muito bem a trajetória da vinicultura italiana nas últimas décadas. De um lado, combina vinhos de produção em escala industrial com verdadeiras pérolas, vinhos brancos de espetacular custo-benefício. De outro, a evolução das denominações de origem locais evidencia o cabo de guerra entre os produtores que focam em volume com aqueles que colocam a qualidade em primeiro lugar.

Já que o nome Soave pode ser associado a vinhos tão discrepantes, é fundamental conhecer bem a região. Entender bem quais são as denominações de origem, suas características e regras de produção é fundamental. São três denominações, com um total de cinco tipologias diferentes, que embora dividam grande parte de sua história, tomaram rumos distintos, com claro impacto sobre o perfil e qualidade dos vinhos produzidos.

Longa história

Desde a época romana, a região de Soave era um pagus, ou seja, um distrito vitivinícola conhecido pela boa posição e cultivo de videiras. Além dos precursores do Amarone e Recioto, também os vinhos brancos gozavam de alto prestígio. O rei gótico Teodorico, em algumas epístolas datadas de 503 d.C., recomendava aos produtores veroneses não esquecessem os vinhos obtidos a partir de uvas brancas que “brilham como bebida leitosa, de pureza clara… de franqueza jovial e doçura incrível”.

Há evidências do ano 680 que indicam o uso da Pergola Veronese (conhecida no Brasil como latada), forma tradicional de condução de vinhedos nesta área. A região manteve sua vocação vinícola durante toda a Idade Média, como evidenciado por uma placa de parede do Palazzo di Justizia di Soave, datada de 1375. Já as primeiras informações sobre a área plantada são de 1816, quando os vinhedos foram mapeados após a invasão das tropas de Napoleão.

O embrião das denominações de origem locais foi lançado em 1924, com as primeiras medidas de proteção para a defesa dos vinhos da região. A seguir veio o nascimento do Consorzio per la Difesa del Vino Tipico Soave. Após estudos aprofundados dos seus vinhedos, Soave obteve, em outubro de 1931, o reconhecimento da primeira área delimitada para a produção do Vino Tipico Soave.

Denominação de origem ampla

Com base na legislação de 1931, em 1968 se deu a delimitação da zona histórica da Soave DOC, incluindo vinhedos nos municípios de Soave e Monteforte d’Alpone. No entanto, áreas em municípios vizinhos, com características de terroir diferentes, acabaram sendo incorporadas. São eles: San Martino Buon Albergo, Mezzane di Sotto, Roncà, Montecchia di Crosara, San Giovanni Ilarione, San Bonifacio, Cazzano di Tramigna, Colognola ai Colli, Caldiero, Illasi e Lavagno.

Foi por conta desta expansão da área original que surgiu a segunda tipologia em Soave, ainda dentro da mesma denominação de origem. Surgia Soave Classico, que inclui apenas as parcelas mapeadas em 1931, geralmente situadas em colinas e com solos de origem vulcânica. Em 1998 houve a aprovação de uma nova subzona, chamada de Soave Colli Scaligeri, que incluiu áreas em colinas adjacentes ao Soave Classico.

As áreas de produção de Soave

Portanto, dentro da denominação Soave DOC, existem três tipologias distintas para vinhos tranquilos. A mais genérica é a que usa o nome da denominação, com área mais ampla, regras mais flexíveis e sem homogeneidade de terroir. Isso resulta, em geral, na elaboraçãode vinhos mais simples. Já Soave Colli Scaligeri e, sobretudo, Soave Classico, contam com regras mas rígidas, terroir diferenciado e foco maior em qualidade. As regras permitem também a elaboração de espumantes, conhecidos como Soave Spumante.

Denominações de origem adicionais

Também em 1968 houve a criação da denominação de origem Soave Superiore DOC. Com área equivalente à Soave DOC, a diferença fica nas regras de produção, mais estritas. O rendimento máximo por hectare deve ser de 10 toneladas, contra 14 e 15 para, respectivamente, Soave e Soave Classico. Na mesma comparação, o extrato seco deve ser de 19 gramas por litro, contra 15 e 16. Já o teor alcoólico mínimo é de 11%, contra 9,5% e 10%. Além disso, caso as uvas provenham da área equivalente ao Soave Classico, o produtor pode optar por usar Soave Superiore Classico no rótulo.

Dentro desta denominação de origem há também a possibilidade de engarrafar os vinhos como Soave Superiore Riserva. Para tal, devem envelhecer por um mínimo de dois anos, com pelo menos três meses em garrafas. No caso do Soave Superiore, o envelhecimento mínimo total é de seis meses. Em 2001, esta denominação de origem passou de DOC para DOCG, o patamar mais alto da pirâmide de qualidade das denominações italianas.

Outra DOCG, obtida em 1998, é Recioto di Soave. O que muda aqui é o tipo de vinho. Ela contempla somente vinhos brancos doces, obtidos através do uso do sistema de apassimento das uvas. Foi a primeira DOCG da região italiana do Vêneto, antes mesmo que esta honraria fosse concedida a outra denominação de origem bem mais famosa (Amarone, em 2009) que usa método similar de produção, só que para uvas tintas.

Localização e terroir

A área de produção dos vinhos Soave se situa a leste de Verona, no nordeste da Itália, mais especificamente na porção centro-oeste da região das montanhas de Lessini, numa posição próxima ao Vale do Pó. Os solos são, em boa parte, de origem vulcânica.  Por conta de importantes afloramentos basálticos calcários que o diferenciam das outras áreas históricas vizinhas, como Bardolino e Valpolicella, são bastante férteis. Além dos solos basálticos (em marrom escuro no mapa abaixo), considerados os melhores da região, existem outros tipos, como aluviais ou aqueles com maior concentração de calcário.

Os solos de Soave

Do ponto de vista climático, a zona de Soave é favorecida por um clima ameno e temperado. A precipitação anual fica entre os 700 e os 1000 mm, concentrada principalmente na primavera e no outono. O clima é tipicamente temperado-úmido, com verões quentes. A altitude das vinhas varia entre 35 metros acima do mar e 380 metros, nas colinas mais altas, com declive variável e com exposição principalmente leste, sul e oeste.

Uvas, vinhedos e produção

A Garganega é a variedade protagonista na região. Ela pode ser vinificada como monovarietal (boa parte dos casos) ou como corte, desde que contenham ao menos 70% desta uva, conhecida na Sicília como Greccanico. Trebbiano di Soave e Chardonnay podem ter um máximo de 30% enquanto uvas com presença local como Pinot Blanc, Trebbiano Toscano e outras podem somar um máximo de 5%.

A área total regulamentada da denominação Soave DOC é de cerca de 6.500 hectares, com uma produção anual na faixa de 44 milhões de garrafas. Considerando somente o Soave Classico, são aproximadamente 1.700 hectares de vinhedos, respondendo por cerca de 25% dos vinhos produzidos. Por sua vez, as denominações de origem Soave Superiore (400 mil garrafas ao ano) e Recioto di Soave (137 mil) mostraram em 2021 produção bem menor e mais exclusiva.

A partir de 2019, a denominação de origem Soave introduziu o conceito de Unità Geografiche Aggiuntive (UGA), que corresponde às MGA já existentes em outras regiões italianas, como Barolo e Barbaresco. Estas referências geográficas correspondem ao nome de um município, aldeia ou zona administrativa, e caracterizam-se por um importante valor histórico-cultural e uma vocação vitivinícola, uma vez que gozam de história e características que as distinguem. São atualmente 33 UGAS: Castelcerino, Fittà, Tremenalto, Corte del Durio, Costalunga, Menini, Castellaro, Brognoligo, Costeggiola, Campagnola, Sengialta, Colombara, Foscarino, Carbonare, Rugate, Coste, Monte Grande, Pressoni, Costalta, Casarsa, Pigno, Ponsara, Froscà, Volpare, Tenda, Croce, Zoppega, Ca’ del Vento, Broia, Paradiso, Monte di Colognola, Duello e Roncà-Monte Calvarina.

Vinhos e produtores

Por muito tempo, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, os vinhos de Soave foram mais associados a quantidade do que qualidade. Chegou a ser o vinho branco italiano mais popular nos Estados Unidos, em uma época na qual a produção era controlada por cooperativas. Em meados dos anos 1990, por exemplo, 80% dos vinhos provinham da cooperativa local, a Cantina di Soave.

Gradualmente este cenário foi mudando, com produtores independentes que focam mais na qualidade que quantidade, ganhando espaço. Muitos dos vinhos mais interessantes da região se concentram nas tipologias Soave Classico e Soave Superiore Classico, dependendo do estilo. Por exemplo, quem prefere vinhos mais verticais e frescos encontra nos Soave Classico excelentes opções. Já quem tem maior apego a brancos mais encorpados, ótimas opções são Soave Superiore e Soave Superiore Riserva.

Para quem foca em vinhos de maior qualidade, não faltam produtores locais que buscam quebrar a associação entre Soave e vinhos industriais. Alguns exemplos são Pieropan, Anselmi (que abandonou o Consorzio e engarrafa seus vinhos como IGT), Inama, Cá-Rugate, Coffele, Gini, Suavia, Le Batistelle, Corte Giacobbe, Guerrieri-Rizzardi e La Cappucina.

Fontes: Consorzio di Tutela Soave; A Enciclopédia do Vinho, Hugh Johnson; Enciclopedia of Wine, Larrouse; Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson, Jancis Robinson; Quattro Calici; Qualigeo; Decanter

Imagem e mapas: Consorzio di Tutela Soave

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