Tabela de safras: como analisar, limitações e vantagens

Como diversas práticas e definições do mundo do vinho, o uso de tabelas de safras é sujeito a muita controvérsia. Por um lado, há quem acredite que o seu uso é quase obrigatório, pois bons vinhos são aqueles feitos com uvas da melhor qualidade e/ou com boa capacidade de evoluir. Assim, saber quais são as melhores safras pode fazer a diferença na hora de abrir a garrafa certa ou errada.

De outro lado, há aqueles que apontem as tabelas de safras como generalizações grosseiras, sem levar em conta as especificidades de cada vinho. Além disso, há um número crescente de consumidores que tem preferência por vinhos de consumo rápido, portanto não há necessidade de entender qual o potencial de evolução de uma garrafa vazia. Neste sentido, tabelas de safras serviriam apenas para uma parcela muito pequena de consumidores.

Nem oito nem oitenta

A resposta talvez fique no meio do caminho. Há quase um consenso de que as tabelas de realmente são muito genéricas, principalmente aquelas que abrangem uma área geográfica grande. Por exemplo, já vi tabelas de safras que analisam os vinhos da Austrália como um todo, que incluiria regiões distantes cerca de 4 mil quilômetros e sujeitas a condições climáticas completamente distintas. O ideal é tentar obter um foco maior, ou seja, analisar melhor as condições de cada microregião.

Neste sentido, mais do que usar tabelas com números e classificações, o melhor mesmo seria olhar de perto os relatórios de safra de cada região, e isso inclui também a percepção do produtor. Estas análises mais detalhadas acabam sendo mais ricas e, desta forma, muito mais relevantes. Por outro lado, é sempre importante lembrar que pode existir um elemento de viés. Dificilmente uma região ou produtor terá a franqueza de, caso realmente a safra tenha sido muito ruim, deixar isso claro, pelo óbvio impacto que isso pode ter em suas vendas.

Papel do enólogo

Outra questão que acaba reduzindo a importância da análise das safras é a capacidade de intervenção que o enólogo possui. Sim, sabemos que existe um sem número de técnicas, mecanismos, equipamentos ou procedimentos que permitem a “correção” das uvas que chegam para a vinificação. Faltou acidez porque a safra foi quente? Tem jeito. Faltou estrutura porque foi fria ou chuvosa? Há sempre solução. Assim, vinhos mais sujeitos a intervenção tendem a ser menos dependentes das condições de safra, o que acaba reduzindo a necessidade de tabelas de safras.

Mas agora duas perguntas: toda vez que você toma um vinho, recebe um e-mail de importadora ou loja, muitas vezes com boas promoções, você tem tempo para fazer esta análise detalhada? Ou você está contente em tomar um vinho “Frankenstein” onde pouco importa a qualidade da uva? Para a maioria dos consumidores, a resposta é não. Portanto, talvez algo mais simples, porém menos preciso, pode ser uma solução razoável.

Qualidade da uva

Estas indagações levam a dois pontos distintos para análise. Em primeiro lugar, uma crescente parcela dos consumidores está buscando vinhos de menor intervenção, seja com qual definição for usada: vinhos naturais, biodinâmicos, orgânicos, baixa intervenção, sustentáveis, etc. Por definição (embora já existam produtores “surfando esta onda” sem a postura necessária), isso implica em menor intervenção, em deixar que o vinho reflita melhor as condições da sua principal matéria-prima, a uva.

E a qualidade da uva depende de vários fatores, entre eles a safra. Portanto, é natural que estes vinhos reflitam de forma muito mais intensa as variações de safras, já que os enólogos se recusam a usar parcial ou inteiramente o arsenal de técnicas disponíveis para “corrigir” a ação da natureza. Vinhos puros e que reflitam o solo, a variedade, as condições do vinhedo são, por definição, mais sujeitos a variação ano a ano.

E não podemos afirmar que vinhos naturais sejam apenas para consumo rápido, sem a necessidade de olhar para o seu potencial de evolução. Em diversas ocasiões degustei vinhos dentro desta definição que ganharam muito com o tempo, que atingiram o seu ápice somente depois de muitos anos. E nestas circunstâncias entender melhor as safras é fundamental.

Variações de safra

Outro ponto diz respeito a quais vinhos mostram maior variabilidade, além, como citado acima, dos vinhos de baixa intervenção. As safras mudam muito e desempenham um papel mais importante em regiões com climas mais variáveis, como, por exemplo, regiões mais frias da Europa (norte da França, Alemanha, norte da Itália e Espanha). Algumas das principais regiões vinícolas do mundo, como Champagne, Bordeaux, Borgonha, Piemonte, Veneto, Rioja, Rias Baixas, todas as regiões da Alemanha, e mesmo algumas do Novo Mundo, como na Ilha Sul da Nova Zelândia, no sul do Chile e Argentina, entram nesta definição.

Isso não significa, porém, que as outras regiões não mereçam uma análise de safras, até porque a temperatura não é a única variável que conta, o regime de chuvas, umidade e possibilidade de desastres naturais também contam muito.

Como usar as tabelas de safra

Uma outra questão importante é saber como utilizar as tabelas se safras. Já ficou claro que elas têm muitas limitações, sobretudo por sua generalidade e falta de foco. Além disso, muitas vezes podem representar também o estilo de vinhos preferido pelo crítico que pontuou a safra

Tabelas de safras, sem dúvida alguma, afetam de forma significativa o valor dos vinhos. Naquelas safras consideradas excepcionais, um determinado vinho costuma custar bem mais caro que o mesmo vinho em uma safra ruim ou na média. E isso é algo que tem que ser levado em consideração. Muitas vezes existem excelentes oportunidades que podem ser descobertas analisando mais de perto os relatórios de safra ou mesmo a descrição fornecida pelo produtor.

Levando todas estas informações em conta, podemos concluir que as tabelas de safra, apesar de uma série de deficiências, podem ser um bom indicador. Nada a ser seguido a ferro e fogo, mas apenas mais uma ferramenta para orientar o consumidor.

Minha experiência pessoal me ensinou que, usadas com parcimônia, bom senso e dentro de um conjunto maior de ferramentas, podem trazer informações de grande valia, tanto para ajudar a identificar a melhor janela de consumo como para trazer uma referência na hora de comprar um vinho mais evoluído.

2 Replies to “Tabela de safras: como analisar, limitações e vantagens”

  1. Belo post. Me animou a comentar. Então, segura o “textão” !

    A vitis vinífera é oriunda da bacia mediterrânea. Não significa que só gera bons frutos em vinhedos localizados nas regiões da bacia mediterrânea, longe disso, afinal só para ficar em dois exemplos, a Borgonha e Bordeaux não estão nessa região e mesmo assim produzem os melhores vinhos do mundo. Afinal o clima é apenas uma das variáveis da complexa equação que é o Terroir.

    A origem da vitis vinífera, no entanto, é importante para definir o tipo de clima que ela se adapta melhor . E esse clima, o mediterrâneo, se caracteriza pelos seguintes aspectos: invernos amenos (para padrões do hemisfério norte, ou seja, com mínimas de 10° C) e chuvosos. Os verões, por outro lado, são quentes e secos e com elevada insolação. Não é a toa que a Serra Gaúcha, que tem verões com elevada pluviometria, só consegue produzir tintos com uma razoável qualidade, especialmente de Cabernet Sauvignon, em safras de anos secos.

    Não é a toa que a tabela de safras é mais relevante em regiões de clima diferente do padrão da bacia mediterrânea. Por isso que as safras de um Chateneuf-du-Pape apresenta menos variação em termos de qualidade, do que Bordeaux e Borgonha.

    Aliás, é interessante avaliar como a Borgonha e Bordeaux lidam com relação ao impacto da variação do clima em seus vinhos. Como sei que você é do mercado financeiro, usarei uma analogia. Bordeaux é um investidor conservador. Já Borgonha é arrojada, do tipo “all in”.

    Bordeaux tem um clima com forte influência marítima e sofre muito com a incidência de chuva na hora indesejada. Lembrando, o clima mediterrâneo tem verões quentes e secos. Nas boas safras de Bordeaux, na margem esquerda onde a Cabernet Sauvignon reina, os vinhos são excepcionais. Isso porque, a Cabernet Sauvignon tem uma longa maturação, sendo uma das últimas a serem colhidas. Se chover, entre a perda total e “issues” de qualidade, o produtor opta pela segunda alternativa. E quando não matura bem, a CS não tem a estrutura ideal, sem contar os indesejáveis toques herbáceos. Mas como disse, Bordeaux é um investidor conservador e, por isso, faz hedge. Isso é feito através dos blends. Como é sabido, os vinhos bordalêses são elaborados através de um blend de diferentes uvas, sendo que a Merlot e CS costumam serem as protagonistas. Como a Merlot tem maturação precoce, pode ser colhida antes e, assim minimiza os efeitos indesejados da chuva.

    Já a Borgonha é um investidor arrojado. O mindset é “all in”. A maioria dos vinhos, e o melhores, são varietais. E o clima é extremamente hostil. Granizo e geada são frequentes. E com um detalhe perverso: o granizo é cirúrgico Quando cai, não atinge toda a região, às vezes nem sempre todo o vinhedo. Mas aonde cai é destrutivo. Em 2015, um ótimo ano – na média – da Borgonha, uma chuva de granizo caiu sobre Irancy, Chitry e parte de Chablis. Em Chablis, a famosa colina de Grand Cru foi atingida parcialmente. O resultado foi uma dramática redução no volume produzido. Mas o pouco que foi produzido foi de boa qualidade (e caro).

    Esse tipo de detalhe está por trás das nuances que as tabelas de safra não conseguem capturar.

    1. Excelentes pontos. Realmente tabelas de safras não conseguem captar os impactos a nível micro (e muitas vezes até macro). É um indicador meio desfocado, mas ao menos joga alguma luz. Sem contar que a própria definição de “boa safra” é subjetiva. Veja 2020 no Brasil, uma safra quente e sem intercorrências, provavelmente resultará em vinhos super extraídos e alcoólicos se os enólogos não tiverem cuidado. Para quem gosta deste estilo de vinhos uma festa, para quem não…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *