Com uma produção anual de cerca de 330 milhões de garrafa ao ano, a Hungria constantemente fica entre os 15 maiores produtores de vinho do mundo. Seus vinhedos se dividem em seis regiões espalhadas pelos quatro cantos deste país centro-europeu, com 22 distritos (que correspondem a indicações geográficas) diferentes. Destas, porém, uma ganha maior destaque por conta da qualidade dos vinhos e da longa tradição: Tokaj.
É uma região onde a vinicultura conta com mais de 800 anos de história e que dá origem a um dos grandes tesouros do vinho mundial: os Tokaji Aszú. Estes vinhos, elaborados a partir de uvas botritizadas, por séculos servem de inspiração e fonte de prazer para os verdadeiros amantes do vinho. Porém, o distrito de Tokaj é muito mais do somente vinhos doces, ganhando espaço também com vinhos de outros estilos.
Localização e terroir
Se as demais regiões vinícolas da Hungria contam com diversos distritos, em Tokaj existe apenas um, localizado a nordeste do país (em marrom na parte superior direita do mapa abaixo), próximo da fronteira com a Eslováquia. É uma região de cerca de 87 quilômetros de comprimento, por cerca de 3 a 4 quilômetros de largura, em boa parte seguindo o curso do rio Bodrog. Aliás, é a proximidade deste rio e do Tisza que contribui para gerar as condições ideais para o desenvolvimento da botrytis.

Cobrindo 27 municípios, com destaque para aquele que dá nome ao distrito, é uma região com grande diversidade de solos, aos pés das montanhas Zemplén. São diversos solos de origem vulcânica, como riolito, andesito, basalto, riodecito, dacito e zeólita, com alta concentração de potássio, magnésio e outros oligoelementos. Cerca de 5% da região tem cobertura de loess pós-vulcânico.
É uma área de clima continental, com temperaturas médias anuais de 9-10 ºC por ano, variando de 21 ºC em julho e -3 ºC em janeiro. O verão é ensolarado, com outono ensolarado e seco. Também ajudando no desenvolvimento da botrytis, há um fluxo de ar quente que vem da Grande Planície Húngara, com a região tendo proteção do frio e do vento do norte pelas montanhas. Com altitudes entre 100 a 300 metros, mostra uma precipitação média anual de cerca de 600 mm.
Uvas e vinhedos
O distrito de Tokaj conta com cerca de 5.800 hectares de vinhedos, o que corresponde a pouco menos de 10% da área de videiras da Hungria. Dentre as seis variedades brancas permitidas, o principal destaque fica com a Furmint, que, com 3.600 hectares, responde por cerca de 62% da área plantada. É uma uva de alta acidez e muita versatilidade, tendo uso desde espumantes aos famosos vinhos doces Tokaji Aszú.
A também autóctone Hárslevelű representa aproximadamente 18% da área de vinhedos (1.070 hectares) e ganha espaço por conta de suas características aromáticas. Há também vinhedos das brancas Sárgamuskotály (nome local do Moscatel Branco) e Zéta, com pequenas áreas dedicadas a Kövérszőlő e Kabar. Embora não possam incluir o nome da região nos rótulos, há produtores também trabalhando com variedades tintas, como a Pinot Noir.

Vinhos de diferentes estilos
A produção média do distrito de Tokaj entre 2012 e 2019 atingiu 187 mil hectolitros, o que corresponde a cerca de 25 milhões de garrafas. A título de comparação, isso é um pouco menos da produção média da região francesa de Chablis. É uma região, que, apesar de uma quase natural associação a vinhos doces, apresenta diversos estilos.
Chama a atenção a estatística que mostra que entre 70% e 75% dos vinhos produzidos no distrito de Tokaj sejam secos. Esta tendência vem ganhando corpo nas últimas décadas, até por conta da demanda do mercado, que mostra interesse crescente por vinhos brancos minerais e por espumantes, em detrimento dos vinhos doces.
Vinhos doces
Os vinhos doces representam entre 25% a 30% da produção total, podendo ser segmentados em quatro grupos. O mais exclusivo é o Tokaji Eszencia, elaborado a partir do suco livre de uvas Aszú sem prensagem. Devido ao seu extremo teor de açúcar, a fermentação é difícil e extremamente lenta, portanto, seu nível de álcool é de apenas 4-5% ou até menos.
O Tokaji Aszú responde pela maioria dos vinhos doces e certamente é o “cartão de visitas” da região. Sua elaboração conta com duas etapas, incluindo o uso de uvas afetadas pela botrytis, de um lado, e outras saudáveis, de outro. As uvas Aszú são embebidas no vinho-base elaborado a partir das uvas sem botrytis, para uma segunda fermentação e estágio em barris de carvalho. Dependendo do teor de açúcar, são divididos em quatro grupos (3 Puttonyos, 4 Puttonyos, 5 Puttonyos e 6 Puttonyos.
Outra especialidade local é o Tokaji Édes Szamorodni. Seu nome vem de uma expressão polonesa e significa: ‘como vem’, referindo-se ao fato de que, ao contrário do Tokaji Aszú, as uvas botritizadas não são colhidas separadamente. Os cachos contendo bagas botritizadas e saudáveis passam por fermentação e posterior envelhecimento em barris por pelo menos seis meses. Por fim, há também os vinhos doces elaborados com o processo de colheita tardia (Late Harvest).
Outras especialidades, vinhos secos e espumantes
Uma especialidade que também chama atenção é o Tokaji Száraz Szamorodni. É um vinho seco feito a uvas sobremaduras, parcialmente botritizadas. Passa por envelhecimento longo em barricas sem atestos, o que permite a formação de uma camada de flor, em um estilo que lembra Xerez Fino. Outros vinhos únicos são o Tokaji Fordítás (elaborado com o bagaço de uvas Aszú, em um estilo entre o Tokaji Aszú e o Tokaji Édes Szamorodni) e o Tokaji Máslás (usando as lias de safras anteriores para refermentação).
No entanto, as categorias que mostram maior crescimento são a de vinhos brancos tranquilos secos e os espumantes. Os brancos geralmente contam com a Furmint e a Hárslevelű como uvas principais, seja como monovarietais ou como cortes. O objetivo é evidenciar as características destas variedades autóctones, contando também com vinhos de vinhedos específicos
Por fim, a partir de 2010, um número crescente de produtores da região está produzindo vinhos espumantes, usando o método tradicional. Os vinhos espumantes de Tokaj apresentam como grande diferencial a utilização de castas locais (há permissão para Furmint, Hárslevelű, Kabar, Kövérszőlő, Sárgamuskotály e Zéta).
Fontes: Tokaj Renaissance; Wines of Hungary; Taste Hungary; A Enciclopédia do Vinho, Hugh Johnson; Enciclopedia of Wine, Larrouse; Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson, Jancis Robinson
Imagem e mapas: Wines of Hungary