Last Updated on 24 de junho de 2021 by Wine Fun
Transparência ainda é algo que falta no mundo do vinho, e não estamos falando aqui de vinhos turvos ou não perfeitamente brilhantes. O que realmente incomoda é a falta de informações relevantes sobre os vinhos em seus rótulos e contrarótulos. Sim, sabemos a uva, a safra, o produtor, o teor alcóolico a mais algumas informações que o produtor se disponha a divulgar. Mas falta muita coisa.
E muitas destas informações dizem respeito ao seu processo de produção. Não vamos esquecer que vinhos, da mesma forma que outras bebidas e alimentos, são ingeridos. Assim, se os rótulos de alimentos ou sucos contêm tanta informação, por que não os rótulos dos vinhos? E esta demanda se torna ainda mais importante dentro do contexto do vinho ser produzido cada dia mais em escala industrial.
Métodos e procedimentos
Mas o que seria um vinho industrial? Na essência, um vinho é o resultado da fermentação das uvas, onde leveduras transformam açúcares em álcool, tendo gás carbônico como subproduto. Obviamente, o processo não é tão simples assim, e diversos cuidados são necessários. Mas isso não significa que o enólogo pode fazer o que bem entender.
Aí entra o que chamamos de vinho industrial. Faltou acidez? O enólogo pode adicionar. Sobrou álcool? Dá para corrigir, basta adotar procedimentos, entre outros, como osmose reversa ou spinning cones. Faltou sabor? Basta adicionar uma levedura extra, que garanta uma pitadinha daquele sabor que o consumidor gosta. São centenas de aditivos enológicos disponíveis. Deste modo, hoje em dia é muito fácil “construir” um vinho, a tecnologia para tal existe.
E o que isso tem a ver com transparência? A resposta é simples: tudo. Ao consumir um produto, temos o direito de saber quais são os ingredientes e processos usados. Cabe a cada um escolher o que mais faz sentido. Um processo que seja aceitável para mim talvez não seja para você, e vice-versa. O direito de escolha, porém, só faz sentido se existir transparência de informações.
Vinhos de baixa intervenção
O crescimento da procura e produção de vinhos mais puros e com menor intervenção foi uma resposta à crescente industrialização do vinho. Para muita gente, é importante beber um vinho mais autêntico, que melhor represente o terroir de onde foi produzido, sem que ele sofra excessiva intervenção no seu processo de produção. Assim, a busca por vinhos de menor intervenção e maior transparência me parece perfeitamente alinhada. Ao saber como foi feito o vinho, posso, por exemplo, optar por produtores mais autênticos e menos intervencionistas.
Daí meu espanto com a atitude de alguns produtores de vinho de menor intervenção no Brasil. Outro dia comprei algumas garrafas de vinhos da safra 2020 de um produtor de baixa intervenção do Rio Grande do Sul e, ao solicitar uma descrição dos processos usados nos vinhos, recebi uma resposta desconcertante. O representante em São Paulo, que me vendeu os vinhos, disse que o produtor não anota ou divulga estas informações.
Pelo direito de informação
Dentro da justificativa de que o produtor seria um “espírito livre”, quase um artista, tive que engolir isso a seco. Minha visão é muito clara, isso não tem a nada a ver com liberdade, mas sim com responsabilidade e profissionalismo. Sendo vinho algo que consumimos, o mínimo que podemos esperar de um produtor que se preocupa em sair do lugar comum dos vinhos industriais é transparência.
Felizmente, isso não é a regra. Há produtores deste segmento que fazem questão em descrever detalhadamente os processos usados, quando e o que foi adicionado. E isso vale mesmo em situações até complicadas. Um exemplo é de uma produtora gaúcha que, diante de uma safra difícil, não teve problemas em divulgar que teve que chaptalizar alguns de seus vinhos. Nota 10 pela transparência.
Produtores e consumidores conscientes
Embora acredite que o produtor que “esconde o jogo” precise, no mínimo, trabalhar de forma mais profissional, a culpa também cabe ao consumidor. Não são poucos aqueles que aceitam consumir qualquer coisa por modismos. Virou moda beber e postar vinhos de baixa intervenção, de forma que, para algumas pessoas, isso implica em dar ao produtor uma carta branca para fazer o que quiser em nome da “causa”.
Se não faltam vinhos de péssima qualidade neste segmento no Brasil, isso ocorre também porque muitos consumidores não exigem um padrão melhor de qualidade. Há um longo caminho a percorrer para vinhos de baixa intervenção no Brasil. Mas isso só terá bases mais firmes a partir do momento quando consciência se juntar a profissionalismo e maior transparência. É o mínimo exigido.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.
Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal
Impecável este artigo escrito pelo Alessandro Tommasi. Apesar de não expor dados, referências para o texto, pois é um tema muito recente e ainda existe muito estudo para ser realizado, existe já ano que foi escrito o artigo, 2021 uma percepção de que falta transparência, essa não sendo uma preocupação do mundo do vinho, mas de outras cadeias do agronegócio. Tecnologias como o blockchain são apenas o meio para “tentar” nortear os bons produtores, os corretos, pois neste mundo existem todos os tipos de produtores, desde os que fazem disso um propósito de vida e querem levar essa experiência para o consumidor, quanto os que contratam, ou sub-contratam mão de obra análoga a escravidão, que nas suas cabeças está tudo certo, sempre funcionou assim, e a dificuldade de mão de obra justifica tal prática. Temos que repudiar, e nós como consumidores entender que isso não é certo, e essa transparência, seja no contexto ético ou técnica na produção do produto tem que transparecer para o consumidor final. Neste sentido que empresas como a B4CH, block4connect da Serra Gaúcha estão focadas para trabalharem em soluções nessa linha especificamente para a cadeia vitivinícola http://www.b4ch.com.br. Mais informações no site.