Uma pergunta interessante: existe vinho que não seja elaborado a partir de uvas?

A resposta parece óbvia, mas talvez não seja. Se a uva é a fruta tradicionalmente associada à elaboração de vinhos, por incrível que pareça, ainda não existe em escala mundial uma definição objetiva do que seja vinho. Sabemos que o vinho é obtido pelo processo de fermentação, no qual leveduras transformam açúcares que existem na fruta em álcool, gerando gás carbônico como subproduto. Mas a fruta em questão deve ser uva ou pode ser outra? A resposta depende de onde você está…

Alguns países determinam que a palavra isolada “vinho” pode ser usada apenas no caso quando a fermentação seja de uvas. Outros porém, são ainda mais específicos, alertando que estas uvas devem ser da espécie Vitis vinifera. Por outro lado, há aqueles que aceitam o uso do termo vinho para qualquer fermentado de frutas. Isso sem considerar o uso “composto” da palavra vinho, ou seja, “vinho de ameixa”, por exemplo. Em poucas palavras, uma confusão danada.

Mais do que isso, existem duas esferas que devem ser analisadas. De um lado, há a legal, ou seja, a que consta na legislação de cada país e que determina como o termo “vinho” pode ser usado em rótulos. Já, de outro, existem os dicionários, com a definição menos formal do que a legal. E também neste caso, as definições variam.

Europa

A União Europeia, com países como Itália, França e Espanha liderando a produção mundial de vinhos, é um exemplo de uso mais estrito do termo “vinho”. Por lá, somente os fermentados de uva podem legalmente ser chamados de vinhos. E o uso do termo pode ser ainda mais estrito em alguns de seus países membros. Por exemplo, na Alemanha, somente fermentados de uvas da espécie Vitis vinifera podem ser chamados de vinho. Fermentados de uvas americanas ou híbridas, por exemplo, não podem usar o termo “vinho” em seus rótulos.

Estados Unidos

Por outro lado, nos Estados Unidos (quarto maior produtor de vinho do mundo), o termo “vinho” pode ser usado livremente para qualquer fermentado produzido a partir de frutas ou mesmo outros produtos agrícolas. Legalmente, um produtor pode elaborar um fermentado de mirtilos, por exemplo, e comercializá-lo como vinho (aliás, eles existem no mercado norte-americano, principalmente na forma de espumantes).

Obviamente, em um mercado com tantas exigências do consumidor como o norte-americano, geralmente há uma referência à fruta usada. Por exemplo, existem vinhos produzidos no Havaí a partir de abacaxi que deixam bem claro em seus rótulos a fruta de origem (pineapple wine), porém sem deixar de usar o termo “vinho” (wine).

Brasil

No Brasil, somente fermentados derivados de uva podem usar o termo “vinho”, de acordo com a Lei 7678/88. Caso sejam fermentados de outras uvas ou produtos naturais, devem adotar outro termo (hidromel é um exemplo). Porém, a legislação brasileira, certamente refletindo os interesses comerciais do setor, não coloca restrição para o uso do termo vinho no caso dos fermentados de uvas americanas ou híbridas.

Existe a distinção entre vinho finos e vinhos de mesa, porém todos podem usar o termo “vinho”. Vale lembrar que, caso o Brasil tivesse uma legislação semelhante à adotada na Alemanha para o uso do termo “vinho”, cerca de 85% dos vinhos produzidos no Rio Grande do Sul não poderiam ser chamados de vinho. Isso ocorre pois esta foi a proporção de vinhos elaborados com uvas americanas ou híbridas.

Outros países

Na Austrália, “vinho” significa o produto da fermentação completa ou parcial de uvas frescas, ou uma mistura desse produto e produtos derivados unicamente de uvas. Apesar disso, os fermentados de outras frutas podem usar o termo “vinho”, sempre acompanhados do nome da fruta. Assim, um fermentado de ameixa pode ser chamado de “vinho de ameixa”. No Canadá, a legislação é semelhante, sendo permitido ao hidromel, por exemplo, usar o termo “vinho de mel”.

Cuidado com o uso do termo

As definições acima são aquelas definidas pela legislação, e mostram que não existe um consenso em escala mundial a respeito do uso do termo “vinho”. Se olharmos nos dicionários, por sua vez, a conclusão será parecida. Na grande maioria dos idiomas, existem duas definições de vinho. Uma que considera somente o fermentado de uvas e outra que considera os fermentados também de outras frutas.

Não há como negar, porém, que, até por tradição, o termo vinho seja sempre mais ligado ao produto derivado da fermentação de uvas. Até por uma questão de transparência, o ideal é que fermentados de outras frutas (que não a uva) tragam uma indicação desta fruta no rótulo, ajudando o consumidor na hora da escolha. Porém, fica claro que ainda não existe um consenso mundial do que pode ser chamado de vinho, tanto do ponto de vista de legislação como no uso do termo.

Imagem: Christine Sponchia via Pixabay

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