Em um mundo marcado pela crescente mecanização, o vinho busca resgatar algumas tradições ancestrais. Uma cena cada dia mais comum, sobretudo no caso de produtores de vinhos biodinâmicos ou naturais, é o uso de cavalos nos vinhedos. Ao invés de usar tratores, uma proporção crescente de viticultores acaba tendo no cavalo o companheiro ideal para arar a terra de seus vinhedos.
E as vantagens para o uso dos cavalos são múltiplas. A principal delas diz respeito à compactação do solo, que é muito menor com a utilização dos cavalos do que com tratores. Embora ainda exerçam uma pressão considerável sobre o solo com suas patas, ela é muito menor ou mais bem distribuída do que aquela causada pelo uso de um trator, mesmo um de pequeno porte. Solos menos compactos, vale lembrar, geralmente trazem melhores condições para o desenvolvimento da vida microbiana. E isso, por sua vez, traz claros benefícios para a saúde das videiras.
Outras vantagens
Mas esta não é a única vantagem, sobretudo quando a agricultura segue os princípios da biodinâmica. De um lado, os cavalos ajudam também a conter o crescimento de outras culturas e ervas, que podem de alguma forma competir com as vinhas na corrida por nutrientes presentes no solo.
De outro, podem também contribuir para uma maior fertilidade dos solos, considerando que seu estrume tem utilização na preparação de adubos orgânicos. Assim, acabam se adequando perfeitamente aos conceitos de autossustentabilidade da filosofia biodinâmica, ou mesmo dentro da proposta de utilização endógena de recursos, de acordo com os conceitos da economia circular.
Além dos fatores acima, o uso de cavalos permite maior flexibilidade. As fileiras muito próximas de videiras podem ser aradas, o que é de difícil execução com uso de tratores. Cavalos também não criam vibrações intensas e movem pequenas quantidades de solo, o que limita consideravelmente a erosão. Por fim, representam uma alternativa sem uso de combustíveis fósseis, com menor emissão de poluentes, que podem também trazer aromas indesejados às videiras.
Objeto de pesquisa na França
O uso crescente dos cavalos foi alvo de um estudo conjunto entre o Instituto Francês de Vinha e Vinho (IFV), o Instituto de Reprodução (Idele) e o Instituto Francês do Cavalo e Equitação (IFCE). Este estudo, que durou três anos, evidenciou uma série das vantagens descritas acima e revelou o crescimento no uso de cavalos nos vinhedos.
Curiosamente, boa parte dos produtores terceiriza este serviço. Cerca de 63% dos produtores franceses que usam cavalos em seus vinhedos e que fizeram parte desta pesquisa o fazem através de um prestador de serviços, 30% têm seus próprios cavalos e 7% usam ambos. Naqueles que usam cavalos próprios, porém, alguns colocam os cavalos quase como parte da família.
Na Domaine de la Coulée of Serrant, do icônico produtor Nicolas Joly, o trabalho de arar os vinhedos ficou por muito tempo a cargo de Marius, um cavalo branco. Este papel cabe à égua Ophélie nos vinhedos de Sébastien Riffault e a cargo de Phénomène, na propriedade de Alexander Bain em Pouilly-Fumé. Estes são apenas alguns exemplos de uma cooperação mais próxima entre homens e cavalos na elaboração mais harmoniosa e sustentável de vinhos.
Fontes: RAW Wine; Vitisphere
Imagem: Domaine de la Coulée of Serrant