“Agro é pop” virou um bordão, após uma emissora de televisão usar a expressão para exaltar o setor mais dinâmico da economia brasileira atualmente. O termo “pop“ é uma abreviação de “popular”. “Cultura pop”, por exemplo, todo conteúdo que se torna popular, graças principalmente ao setor de entretenimento.
Alcançando um grande público, a cultura pop é capaz de promover uma conexão entre diferentes culturas e gerações. Mas o que isso tem a ver com vinho?
A “pré-história” do vinho no Brasil
Até a década de 1990 o mercado brasileiro era fechado às importações. Prevalecia o consumo de vinhos produzidos com as uvas de mesa e produção familiar. É interessante assistir um filme brasileiro, da década de 1970-80, em que nas cenas de jantares sofisticados, a refeição costumava ser acompanhada por bebidas como whisky e cerveja.
Era muito difícil encontrar material para quem se dispusesse a estudar o tema. Raros eram artigos na imprensa abordando o tema, assim como livros em português. Uma das mais importantes publicações sobre vinho, que conseguiu sobreviver até hoje, a Revista Adega, surgir em 2005. Cursos eram raríssimos. A ABS-SP foi fundada em 1989 e operou de forma limitada até a década de 2010, quando finalmente ganhou impulso e ganhou concorrentes de peso, como por exemplo a Enocultura. Surgiram os “formadores de opinião”, gente com conhecimento profundo sobre o tema. E com abordagens, por vezes, excessivamente acadêmicas e pedantes.
A abertura do mercado, no início da década de 1990, levou o setor para um outro patamar. Além dos importados, grandes investimentos, especialmente na Serra Gaúcha, criaram uma indústria relevante de vinhos finos no país.
Pandemia do Covid abriu uma nova etapa
Na década de 2010, a indústria do vinho ganhou “momentum” no Brasil. Mas em 2020, os “astros se alinharam”. As redes sociais, que já estavam consolidadas, viraram parte essencial na vida de grande parte das pessoas. Junto com a mudança no hábito de consumo vieram as mudanças no comércio, com o online ganhando projeção. Conhecer o básico de variedade de uvas, regiões produtoras e estilos de vinho deixou de ser um privilégio de poucos.
Os formadores de opinião, já citados anteriormente, foram massacrados por um novo fenômeno oriundo do avanço das redes sociais, os “influenciadores digitais”, uma categoria em que o número de seguidores vem antes de conhecimento. Importadoras que não souberam se adaptar ao novo cenário perderam espaço. O vinho produzido no Brasil ganhou destaque, apesar de nem sempre oferecer uma relação de “preço versus qualidade” atraente.
Num primeiro momento o consumo subiu, especialmente em 2020 e 2021. Mas perdeu fôlego em 2022 e 2023 no Brasil, segundo a OIV.
O cenário do vinho no Brasil em 2024
Dados da OIV mostram após uma queda importante em 2022, o consumo do vinho se recuperou em 2023, mas ainda assim ligeiramente inferior ao patamar de 2020 e 2021.

Vale aqui a ressalva da mudança de mix entre vinho fino e vinho de mesa. Como os dados da OIV não estratificam essa informação, assumiremos a premissa de um crescimento da participação dos vinhos finos no mix. Mas ainda assim, os números não indicam um boom de crescimento no consumo no Brasil, apenas um ligeiro crescimento.
Sendo assim, o vinho vem se tornando “pop” no Brasil por outros motivos que vão além do crescimento do volume.
Estilo de vida
A edição do Caderno Eu&, no jornal Valor Econômico do dia 21/06/2024, uma publicação voltada a cultura e “estilo de vida” de grande prestígio, e qualidade, fornece pistas para entender o uso do termo “pop”. Das 16 páginas da edição, abordando temas como cinema, literatura, arquitetura, sociologia, dentre outros assuntos, quatro foram dedicadas ao vinho, em três artigos.
Com o sugestivo nome de “Vinho sem gravata”, a capa do caderno, portanto a principal, trata da inserção de profissionais mulheres num setor tradicionalmente dominado por homens. Explorando o tema da diversidade, tão em voga atualmente (e ainda bem!), a matéria aborda, além da questão do gênero, aspectos relacionados ao vinho e a questão racial. Com um pouco de exagero em alguns aspectos, mas tendo o mérito de trazer a discussão para territórios pouco explorados. Nos tempos atuais, quem diria, vinho serve até para ancorar uma discussão sobre equidade !
O “colunista raiz” Jorge Lucki, um pioneiro e típico exemplar de formador de opinião, surgidos a partir de 1990, aborda um tema tradicional, como “a arte de compor grandes vinhos”, com foco no líquido, seus sabores e sensações. Por fim, com o tema de “Vinho cult” a terceira matéria aborda mais um caso de alguém com renda oriunda de outras atividades, investe na criação de mais uma vinícola na Serra da Mantiqueira, no melhor estilo “Enófilo Faria Lima com um vinho de chamar de seu”.
O que vemos, nessa pequena amostra fornecida nessa edição do Caderno Eu& é o vinho deixando de ser apenas “um líquido dentro de uma garrafa que pode ter um sabor muito bom” para se transformar num elemento importante da sociedade brasileira. Com todas as coisas boas, ruins e “mais ou menos” que isso implica.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal