Vinho nos tempos de pandemia: conheça as janelinhas de Florença

A COVID-19 não é a primeira epidemia de nossa história. Não foram poucas as vezes que o mundo viveu momentos tensos e as pessoas viram suas vidas transformadas por doenças infecciosas. Assim, vale a pena explorar algumas das soluções adotadas no passado, com o objetivo de minimizar o impacto da pandemia.

E foi o que muita gente em Florença, cidade italiana que foi o berço da Renascença, decidiu fazer. Em maio de 2020, durante o primeiro confinamento, a sorveteria Vivoli, no centro da mais importante cidade da Toscana, teve uma ótima ideia. Optou por reabrir uma janelinha, que existia em seu prédio de origem medieval e servir café, refrigerantes e sorvetes em meio à pandemia.

Redescoberta dos tempos da peste bubônica

O uso desta buchetta, palavra que significa buraquinho em italiano, foi um sucesso imediato. Rapidamente outros estabelecimentos da cidade reabriram estas pequenas janelas, muitas delas fechadas há décadas ou mesmo séculos, para atender seus clientes. Em tempos de pandemia, o jeito foi recorrer a uma solução adotada no passado, justamente para combater outra pandemia.

E de quando vem esta tradição? Pesquisadores identificaram um documento de 1634, que descreve o uso das “janelinhas do vinho” durante o surto de peste bubônica em Florença. O objetivo era reduzir o contato direto entre as pessoas, visando minimizar a possibilidade de contágio.

Protocolos para evitar contágio

Outros documentos também confirmam este procedimento, inclusive indo mais a fundo na descrição dos detalhes. Em um documento chamado de Relazione del Contagio, Francesco Rondinelli conta que, entre 1630 e 1633, vinhos eram vendidos pelas janelinhas, com um protocolo mais restrito.

Por exemplo, para evitar serem infectados no contato com os compradores, os responsáveis pelos wine bars da época não recebiam o pagamento com as mãos. Faziam uso de uma bandeja de metal e, imediatamente, a mergulhavam em vinagre para desinfetá-la.

Além disso, evitavam, por precaução, lidar com os recipientes usados pelos clientes. Para tal, contavam com duas opções: forneciam uma espécie de embalagem take away, já fechada, que era levada pelo cliente, ou preenchiam o jarro do próprio cliente, através de um tubo de metal, que era sempre higienizado.

Quantas destas janelinhas existem?

Apesar da popularização desta forma de venda direta aos clientes em pleno lockdown de 2020, ainda não se sabe exatamente quantas destas janelinhas existem. Uma estimativa de janeiro de 2021 já contabilizava 152 delas somente na área que fica dentro da antiga área murada de Florença.

Mapa das janelinhas de Florença

Mas estas janelinhas não são exclusivas da Florença do século XVII. Segundo os dados da Associazione Buchette del Vino, somente na área que fica fora das antigas muralhas, foram contabilizadas mais 26. Já em outras cidades das redondezas já foram identificadas mais 97, isso sem contar 10 que foram permanentemente fechadas.

E estes números estão mudando constantemente, pois novas janelinhas têm sido encontradas e catalogadas nos últimos meses. Um brinde à sabedoria dos antigos florentinos, que nos deixaram um importante legado e uma mensagem de que, mesmo apesar das dificuldades, uma boa taça de vinho não pode faltar.

Fonte e imagens: Associazione Buchette del Vino

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