O tema tem ganhado destaque e está presente em qualquer discussão séria sobre tendências de consumo de vinho e outras bebidas alcoólicas. No entanto, confesso que nunca havia levado essa questão muito a sério. Recentemente, no entanto, me deparei com duas notícias que chamaram minha atenção. Na primeira delas, a Bodega Família Torres anunciou, em um evento para a imprensa e investidores no final de 2024, um investimento de € 6 milhões em uma nova linha de produção em sua vinícola localizada em Pacs del Penedès.
Além disso, uma loja especializada em vinhos sem álcool foi recentemente inaugurada em Bordeaux, a “meca” do vinho. A Belles Grappes dedica-se exclusivamente à comercialização dessa categoria. Em seu perfil no Instagram, o varejista se apresenta com o slogan: “Zero álcool, 100% de prazer”. Não há como negar que o slogan é muito bom.

O método de produção do vinho sem álcool
Há muitas pesquisas em andamento, mas, de forma geral, podemos identificar três principais métodos de produção:
- Destilação a vácuo: o vinho é aquecido a uma temperatura baixa (cerca de 30°C), permitindo a evaporação do álcool sem comprometer significativamente os compostos aromáticos, o que ajuda a preservar minimamente o sabor original. Esse é o método mais utilizado.
- Osmose reversa: nesse processo, o vinho passa por filtros de membrana que separam a água, o álcool e os compostos aromáticos. Inicialmente, os compostos aromáticos são removidos e armazenados. Em seguida, o álcool é separado, e os compostos aromáticos são reintroduzidos ao vinho.
- Evaporação por girocongelamento: o vinho é rapidamente resfriado e girado em alta velocidade, separando o álcool dos demais componentes. Esse método também minimiza a perda de aromas. Após a remoção do álcool, o vinho pode ser ajustado com ácidos naturais ou suco de uva para manter o equilíbrio do sabor. O resultado final é um vinho com menos de 0,5% de álcool, patamar que permite a classificação como “sem álcool”.
Não é preciso ser um especialista para concluir que a remoção do álcool provoca alterações significativas nas características da bebida.
O impacto do álcool na degustação do vinho
Émile Peynaud, enólogo francês considerado um dos maiores especialistas na elaboração e degustação de vinhos, definiu, em sua obra Le Goût du Vin, que o equilíbrio de um vinho tinto se baseia em três pilares: álcool, acidez e taninos. Na construção de uma casa, se um dos pilares for removido, ela desaba. No vinho, aconteceria o mesmo?
Na complexa equação do equilíbrio do vinho, o papel do álcool é proporcionar maciez para contrastar com a “dureza” da acidez e dos taninos. Para corrigir essa ausência, a enologia oferece uma ampla variedade de produtos que tentam preencher essa lacuna. Dessa forma, não faz sentido falar em vinho sem álcool de baixa intervenção ou natural. Mas quem duvida que, em algum momento, surgiram vinícolas alegando produzir algo do gênero? Nunca subestime o poder dos “marketeiros”.
Confesso que minha experiência em degustar esse tipo de vinho é muito reduzida. Tentei buscar resenhas e críticas e constatei que não estou só. Afora profissionais diretamente envolvidos com a produção e comercialização há pouco material disponível. No Brasil é uma raridade.
Mas o consumidor está pedindo esse tipo de vinho
É inegável o forte apelo das bebidas menos calóricas. Em outra categoria alcoólica importante, como a cerveja, os dois maiores players do mercado relatam um crescimento muito acima da média no segmento sem álcool. Coincidentemente, ambas as empresas estabeleceram como meta atingir 5% do volume total de cervejas vendidas com versões sem álcool. No entanto, na categoria de vinhos, não há um indicador semelhante — ou, pelo menos, o autor desta coluna não foi capaz de encontrá-lo.
Porém, uma pesquisa recente realizada na Grã-Bretanha pelo Portman Group, publicada na edição de fevereiro de 2025 da Decanter Magazine, revelou que 38% dos consumidores adultos de bebidas alcoólicas declararam ter consumido versões sem ou com baixo teor alcoólico de alguma categoria de bebida. Em linha com esse dado, quando a Bodega Torres anunciou seu investimento na nova linha de produção, também projetou um crescimento de 20% nas receitas desse tipo de vinho já em 2025.
Resta saber se essa tendência ganhará força ou se será apenas uma moda passageira. O mercado e os consumidores darão a resposta em breve.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal