Vinhos caros a partir dos melhores vinhedos do mundo: a conta fecha?

Um dos fatores que determina o preço dos vinhos é o preço dos vinhedos. Embora esteja longe de ser o único e talvez nem o mais importante (possivelmente marketing, hype e escassez pesem mais hoje em dia), é um fator muito relevante. Mas existe também uma espécie de mecanismo que se autoalimenta, principalmente em regiões que produzem alguns dos vinhos mais disputados do mundo.

Um exemplo é Barolo. Os preços de alguns vinhedos nesta denominação de origem localizada no Piemonte parecem ter assumido um caráter quase que totalmente especulativo. Sim, vinhos mais caros criem a possibilidade de o preço da terra valorizar, mas existe um limite onde não mais sentido adquirir vinhedos para um produtor de vinho. Uma conversa recente com Silvia Altare, que comanda a vinícola criada por seu pai, deixa isso evidente.

Preços nas alturas

Boa parte dos seus vinhedos próprios está em La Morra, vilarejo que sedia a vinícola. Porém, a Azienda Elio Altare explora também uma parcela em Cannubi, vinhedo na comuna de Barolo que figura entre os mais (se não o mais) tradicionais vinhedos da região. Silvia aluga uma parcela no vinhedo e sondou o proprietário para saber qual seria um potencial preço de compra. A resposta: € 2 milhões (o equivalente a R$ 12,5 milhões).

Mais do que o valor, o problema é a área da parcela. Lançado pela primeira vez em 2011, o Barolo Cannubi de Elio Alare provém de uma parcela de apenas 0,25 hectare, pouco mais do que 1,2% dos 19,53 hectares de Cannubi. Portanto, considerando o preço por hectare (a unidade mais usada nas negociações de vinhedos), a “pedida” para Silvia Altare foi de nada menos de € 8 milhões por hectare.

Obviamente, cada um pode pedir o preço que quiser pelo seu vinhedo. Mas algumas evidências mostram que este valor não está tão fora da realidade. Segundo um levantamento feito pelo grupo imobiliário britânico Knight Frank, o preço médio por hectare de vinhedos na área de Barolo fechou 2024 em torno de US$ 2,08 milhões, um aumento de 5% frente ao ano anterior. E não é só em Barolo. Em 2017, a Clos de Tart, com 7,5 hectares de vinhedos no Grand Cru de mesmo nome, foi vendida por cerca de € 250 milhões. Este número envolveu as instalações e a marca, mas há quem acredite que somente a terra foi avaliada acima de € 15 milhões por hectare.

As contas fecham?

Silvia Altare gargalhou quando perguntamos qual foi sua resposta à proposta. Em primeiro lugar, não faz qualquer sentido comprar o vinhedo se ela ainda consegue alugar, embora a custos cada dia mais altos. Se no passado os contratos de arrendamento de vinhedos no Piemonte eram de longo prazo, ela deixa claro que hoje é muito difícil conseguir fechar um contrato acima de dois anos. O motivo? Por conta dos valores crescentes, interessa aos donos de vinhedos realizarem uma espécie de “leilão” e alugar suas terras para quem pagar mais.

Porém, a falta de disposição dos produtores de vinho (ao contrário de especuladores imobiliários) para comprar novos vinhedos (além da falta de capital) é motivada sobretudo pela taxa de retorno prevista. Silvia fez a conta do que consegue obter a partir deste vinhedo. No total, são entre três a quatro barris de vinho por ano, com uma média de cerca de 900 garrafas. Embora o Barolo deste vinhedo chegue ao varejo em uma faixa de preço em torno de € 180, não faz qualquer sentido econômico comprar a terra. Pelas contas de Silvia, seriam necessários cerca de 150 anos para recuperar o investimento.

Isso explica por que a aquisição de vinhedos em regiões vinícolas de muito prestígio tem os produtores de vinho como coadjuvantes. Os atores principais na ponta de compra hoje em dia são grandes grupos econômicos e especuladores financeiros  ou imobiliários. Curiosamente, players importantes também no consumo de alguns dos vinhos mais caros do mundo.

Fontes: Entrevista com produtor; Decanter; The Wealth Report 2025. Knght Frank

Imagem: Arquivo pessoal

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