Last Updated on 10 de fevereiro de 2024 by Wine Fun
A região francesa da Alsácia é um dos exemplos de um sistema organizado e hierarquizado para classificação de seus vinhedos e vinhos. Sua classificação atualmente considera três grupos de denominações de origem distintas: Alsace Grands Crus (com 51 denominações individuais), Alsace AOC e Crémant D’Alsace AOC. Assim como na Borgonha, por exemplo, funciona como uma espécie de pirâmide, em parte premiando os vinhedos considerados de melhor qualidade.
A denominação Alsace Grands Crus representa o topo da pirâmide, com 51 denominações individuais para cada vinhedo Grand Cru da região. As outras duas, porém, não traziam, a princípio, referências em relação à qualidade, mas somente quanto aos estilos de vinificação. Alsace AOC é usada para vinhos tranquilos e Crémant D’Alsace para vinhos espumantes.
No caso da Alsace AOC, porém, houve mudanças a partir de 2011. Segue sendo apenas uma denominação, mas, desde então, pode ser subdividida em três grupos distintos. Para tal, são usados critérios mais rigorosos, de forma crescente, para a elaboração dos vinhos, e se leva em conta também a especificidade dos vinhedos. Vale a pena entender melhor como funciona esta classificação, o que facilita a leitura do rótulo de seus vinhos.
Classificação em três níveis
Os vinhos dentro da denominação Alsace AOC atualmente podem ser segmentados em três grupos distintos. Para facilitar, seria como se houvesse uma “nova” pirâmide dentro desta denominação de origem. O mais antigo e mais amplo é a denominação de origem Alsace AOC. Seu reconhecimento ocorreu em 1962 e hoje ela representa mais de 70% da produção de vinhos da Alsácia, incluindo 90% dos vinhos brancos.
A partir de 2011, uma reforma permitiu a inclusão de denominações geográficas complementares, ou DGC (Dénominations Géographiques Complémentaires). E esta inclusão de uma referência de origem mais específica (que é usada também em outros países, como por exemplo as MGA do Barolo), é feita em dois níveis distintos. Há um patamar a nível de município ou micro-regiões (communales) e outros de vinhedos específicos (lieux-dits).
Alsace AOC: classificação mais ampla
Curiosamente, foi uma das últimas regiões tradicionais francesas a ter sua denominação reconhecida. A nível nacional, foi em 1935 que um decreto colocou os AOCs franceses (Appellation d’Origine Contrôlée) no mapa. Porém, no caso da Alsácia, as negociações com um órgão certificador na época, o INAO (Institut National des Appellations d’Origine) foram mais longas. Elas foram suspensas, devido à anexação da Alsácia pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.
No final da guerra, em 1945, houve a criação da denominação local, por conta dos esforços da Associação dos Viticultores da Alsácia (Association de Viticulteurs d’Alsace). Mas sua integração dentro do sistema nacional não foi imediata. Ela ocorreu somente em 1962, com a denominação Alsace AOC sendo oficialmente instituída por um decreto.
Apesar de regional, a Alsace AOC só pode ser usada para vinhos elaborados com uvas de parcelas que têm limites precisamente estipulados, com base em áreas de cultivo histórico. Além disso, os vinhos feitos com apenas uma variedade de uva (a esmagadora maioria dos vinhos na região) devem traz menção a ela no rótulo. Caso seja um corte de duas ou mais variedades de uvas, recebe o nome Edelzwicker ou Gentil. Por fim, os vinhos da denominação Alsace AOC somente podem ser vendidos, por determinação legal, em garrafas em forma de vinho do Reno, chamada Flute D’Alsace.
Classificação suplementar communales
A partir da reforma de 2011, diversas municipalidades (ou communes, em francês), podem acrescentar seu nome ao rótulo dos vinhos produzidos dentro de seu território. Por exemplo, um vinho elaborado (e que cumpra os critérios pré-definidos mais estritos que aqueles da Alsace AOC) no município de Blienschwiller, pode ser rotulado como Alsace Blienschwiller. Em uma comparação com a Borgonha, seria equivalente aos Villages.
No total, são 13 municipalidades ou microrregiões que podem acrescentar seus nomes aos rótulos: Blienschwiller, Côtes de Barr, Côte de Rouffach, Klevener de Heiligenstein, Saint Hippolyte, Ottrott, Rodern, Vallée Noble, Val Saint Grégoire, Scherwiller, Wolxheim, Coteaux du Haut-Koenigsbourg e Bergheim.
É importante lembrar que cada uma destas municipalidades ou microrregiões mostra características distintas, como cultivo de variedades diferentes. Em Blienschwiller, por exemplo, somente os monovarietais de Silvaner podem receber a denominação geográfica complementar. Já em Wolxheim, somente os vinhos feitos a partir da Riesling.
Classificação por lieux-dits
A escala seguinte é aquela que inclui as DGCs de lieux-dits específicos. Ela identifica vinhos que destacam as características específicas do terroir. Para tal, são impostas regras de produção ainda mais rigorosas do que para as AOCs communales, notadamente rendimentos máximos mais baixos.
É a escala mais específica dentro da Alsace AOC. De uma certa forma, tem um conceito similar ao adotado no caso das denominações Alsace Grands Crus, ou seja, o de valorizar os melhores terroirs. A grande diferença, no caso, é que estes vinhedos não foram selecionados como Grand Crus.
Porém, ao contrário da DCG communales, a definição das áreas dos lieux-dits não ocorre no Cahier des Charges, conjunto de regras que regula esta denominação de origem. O produtor pode mencionar o nome específico de vinhedo no rótulo, porém somente quando cumpre regras de produção mais rigorosas.
Potencial mudança?
Há muitos anos se discute uma mudança na classificação dos vinhos da Alsácia, para uma estrutura mais próxima daquela adotada na Borgonha. Uma das ideias seria remodelar as denominações Alsace Grands Crus, Alsace AOC e Crémant D’Alsace AOC. Dentro desta nova estrutura, os vinhos Grands Crus seguiriam no topo da pirâmide, com as regras mais estritas.
Os vinhos com DGC de lieux-dits comporiam a categoria seguinte, possivelmente chamada Alsace Premier Cru. Já aqueles com DGC communales receberiam a classificação Alsace Village, incluindo o nome do município ou microrregião. Por fim, viriam as categorias mais genéricas e de menores exigências, como Alsace AOC e Crémant D’Alsace AOC.
Fonte: Vins D’Alsace, Decanter
Imagem: ©ZVARDON – Conseil Vins Alsace