Vinhos de baixa intervenção e sustentáveis: Slow Food lança manifesto

Last Updated on 24 de outubro de 2020 by Wine Fun

Existe uma grande controvérsia sobre quais critérios definem os vinhos de baixa intervenção ou os vinhos naturais. De um lado, ficam aqueles que exigem o mínimo possível de intervenção, dentro do lema “nada mais do que uvas”. De outro, aqueles que também buscam vinhos puros e artesanais, porém abrindo algumas concessões em nome de maior regularidade e qualidade para os vinhos.

Neste contexto, a Slow Food, organização italiana que preza pela autenticidade e pureza tanto de alimentos como bebidas, resolveu trazer sua visão sobre este tema. Foi lançado nesta semana o Manifesto Slow Food per il vino buono, pulito e giusto, que pode ser interpretado como os 10 mandamentos para vinhos bons, limpos e justos.

Postura sem extremos

O próprio nome do manifesto parece endereçar alguns pontos relevantes na quase eterna discussão de quais seriam os pré-requisitos para estes vinhos. A expressão “limpo”, por exemplo, pode ser encarada por dois pontos de vista distintos.

Vinhos limpos não incluem aditivos e não passam por processos de alta intervenção. Porém, limpo também significa que não apresentam os excessos e defeitos tão aceitos por alguns fãs de vinhos naturais, que aceitariam vinho “sujos”, por conta dos ideais de mínima intervenção.

Independente das polêmicas, o manifesto traz uma série de propostas factíveis e de bom senso. Abaixo os 10 pontos básicos:

1) Uvas próprias

As vinícolas devem cultivar pelo menos 70% das uvas utilizadas para a produção de seus vinhos (com exceções para determinadas áreas que tradicionalmente têm um comércio intenso de uvas, como Madeira, Vale do Napa, Sul da Espanha, etc).

2) Práticas agrícolas

Os produtores não devem utilizar fertilizantes, herbicidas e antifúngicos sintéticos.

3) Consciência ambiental

O uso de recursos ambientais para a produção de vinho deve ser consciente e sustentável. Sistemas de irrigação, por exemplo, devem ser limitados o máximo possível, para evitar casos de estresse hídrico severo.

4) Arquitetura integrada

A estruturação de edifícios, caso novas construções sejam necessárias, deve respeitar a paisagem. Além disso, quaisquer construções já existentes, tanto em possíveis reformas como na sua operação, devem levar em conta a sustentabilidade ambiental.

5) Veto a processos de alta intervenção

As vinícolas não devem utilizar osmose reversa ou métodos físicos para alterar a concentração de mostos ou teor de álcool. Além disso, à exceção de espumantes ou vinhos tradicionais, os concentrados ou açúcares não devem ser usados. Também não podem ser utilizados chips para aromatizar vinhos.

6) Uso moderado de sulfitos

A quantidade de sulfitos no vinho não deve exceder os limites indicados na certificação de vinho orgânico da União Europeia.

7) Leveduras indígenas

Os vinhos devem ser um espelho dos terroirs de origem, razão pela qual se incentiva o uso de leveduras indígenas. Além disso, são encorajadas pesquisas científicas destinadas a isolar leveduras nativas que podem, então, serem replicadas e usadas por outros enólogos na mesma área e designação.

8) Vinhos de qualidade

Os vinhos devem estar livres dos principais defeitos enológicos, pois estes tornam os vinhos homogêneos e podem mascarar as diferenças territoriais.

9)  Inserção na comunidade

É desejável que a vinícola coopere efetivamente com toda a comunidade, a fim de melhorar o manejo das terras onde atua. Nesse sentido, é necessário que a vinícola mantenha uma relação virtuosa com seus colaboradores, incentivando seu crescimento pessoal e profissional. Também é desejável que a vinícola colabore e compartilhe conhecimento com outros viticultores da área, evitando ações de concorrência desleal.

10) Apoio à biodiversidade

Viticultores sustentáveis incentivam a biodiversidade por meio de diversas práticas como vinhedos alternados, com cercas e áreas arborizadas, ou manejo da terra que evite herbicidas e que exclua o uso de solos sem cobertura vegetal (a não ser por curtos períodos sazonais).

Também são desejáveis a proteção de insetos e a criação de animais, tanto para aumentar o bem estar quanto para a produção de estrume. De modo geral, a vinícola deve também produzir adubos a partir de resíduos de poda e outros materiais orgânicos.

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