Last Updated on 11 de junho de 2021 by Wine Fun
A filoxera, que devastou boa parte dos vinhedos europeus na segunda metade do século XIX, foi um marco na história da viticultura mundial. A única alternativa viável para controlar esta praga, que na verdade é um pulgão que ataca as videiras, principalmente as raízes, foi realizar o enxerto das videiras. Assim, ao redor do mundo as diversas variedades de Vitis vinifera (não resistentes ao pulgão) foram enxertadas em porta-enxertos de algumas variedades americanas, que mostram resistência à praga.
Porém, por conta desta mudança radical, algumas perguntas ainda assombram quem aprecia bons vinhos. Será que a qualidade dos vinhos mudou? Vinhos elaborados de videiras 100% Vitis vinifera são melhores do que aqueles feitos com plantas enxertadas? Ainda existem videiras de pé-franco (como são chamadas aquelas não enxertadas) para tentar esclarecer esta dúvida. E, para alguns produtores, esta resposta merece uma discussão mais profunda.
Nova associação
Com o objetivo de destacar as diferenças existentes entre as videiras em pé-franco e as enxertadas, um grupo de viticultores está lançando uma nova associação. Em uma reunião realizada no início de junho no Principado de Mônaco, nove produtores e consultores de diversas regiões europeias lançaram as bases para criar uma associação europeia de vinhos elaborados a partir de videiras em pé-franco.
Com a presença de representantes da Alemanha, França (Bordeaux, Beaujolais, Borgonha, Champagne e Vale do Rhône), Geórgia, Grécia e Itália, o grupo quer demarcar o espaço destes vinhos. Uma vez finalizados os estatutos, o que é previsto até o final do verão, a associação deve ser formalizada. Dentre os objetivos, destaque para a criação de uma diferenciação em escala europeia (presente nos rótulos) e inclusão destes vinhos no patrimônio imaterial da Unesco.
Valorização do terroir
Segundo o viticultor de Bordeaux, Loïc Pasquet, “o rótulo pé-franco tem como objetivo certificar que os vinhos vêm de videiras independentes nos terroirs que viram o nascimento dessas variedades de uvas”. Deste modo, a certificação ganha um componente regional. “A ideia não é rotular pé-franco para Merlot em Languedoc ou Pinot Noir em Bordeaux”, acrescenta Pasquet.
Pasquet defende sua visão de viticultura enraizada na história de seu terroir. “Quando você coloca uma videira de pé-franco de volta no lugar onde ela nasceu, você salva uma herança”, diz ele. Para o viticultor de Bordeaux, trata-se de “parar de fazer sopa varietal – trocando variedades europeias de uva por raízes americanas”, que ele considera responsáveis pela industrialização da viticultura e pela padronização do sabor do vinho.
Existe uma diferença perceptível?
Mas esta percepção de “superioridade” das vinhas de pé-franco faz sentido? Atualmente, o consenso é que faltam dados objetivos para apoiar esta posição. Para remediar isso, a associação pretende apontar uma comissão científica para analisar detalhadamente o assunto. Um dos objetivos é também aprofundar as observações feitas por viticultores que cultivam videiras de pé-franco.
A expectativa agora é este trabalho possa contribuir para esclarecer algumas dúvidas que existem na cabeça de muitos apreciadores de vinhos. Será que podemos dividir o mundo do vinho em duas fases (pré e pós filoxera)? Os será que o impacto do uso de enxertos é limitado, com outros fatores sendo muito mais importantes? A resposta só o tempo dirá, mas iniciativas para buscar decifrar estes enigmas são mais que bem vindas.
Fonte: Vitisphere
Image: klickblick via Pixabay