“Obrigado novamente por manter seus vinhos um pouco mais malucos em casa, para aqueles que acreditam que vinhos vivos são necessariamente transgressores. Não estamos aqui para alimentar esse discurso perigoso. Há aditivos que preferimos a alguns intrusos!” Para muita gente que curte vinhos naturais e de baixa intervenção, esta frase parece ter sido formulada por algum “conservador do vinho”, daquele tipo que ainda acha que o excesso de sulfitos e outros aditivos é uma qualidade.
Porém, não foi. A autora deste agradecimento foi Sylvie Augereau, organizadora da Dive Bouteille. Com 24 anos de história e realizada em Saumur, no Loire, é uma das mais importantes, senão a mais expressiva, feira de vinhos naturais do mundo. Apesar da controvérsia gerada, confesso que fiquei feliz com sua declaração. Há mais de um ano escrevi uma coluna aqui exatamente sobre o assunto, destacando a criação de uma “terceira via”. Nela, há a busca de autenticidade, respeito ao terroir e baixa intervenção, porém com a elaboração de vinhos de ótima qualidade. E sem as alquimias e excessos de intervenção dos vinhos industriais.
Ponto de equilíbrio
Como sempre, a discussão mais acalorada é sobre o uso de sulfitos. Ainda há quem acredite que não é possível elaborar um vinho autêntico ou vivo adicionando sulfitos durante o processo de vinificação. Mesmo que isso resulte em vinhos de péssima qualidade, apresentando defeitos claros, como redução em excesso, acidez volátil elevada ou mousiness. Já vi gente afirmando que “quando mais podre, melhor”
Felizmente estes radicais, diversas vezes referidos como “talibãs” por produtores franceses (mesmo aqueles de baixa intervenção) são minoria e, ainda melhor, em número decrescente. Mas eles ainda existem, inclusive no Brasil, sempre buscando uma explicação que justifique vinhos defeituosos ou sequer potáveis. “Tem que entender a proposta do produtor” é uma frase recorrente. A maioria é composta por consumidores, mas ainda há importadores que insistem neste discurso.
Fico feliz em ver que a polarização perca espaço. De um lado, há aqueles radicais do vinho natural que evoluíram e passaram a aceitar que alguma intervenção, caso necessária, é mais que bem-vinda para garantir a qualidade do vinho. Isso vai desde consumidores até produtores. Um exemplo é o belga Frank Cornelissen, que criou enorme polêmica ao, nas suas palavras, “limpar seus vinhos”. De outro, alguns fãs incondicionais de vinhos industriais finalmente entenderam o valor de vinhos mais puros, autênticos e artesanais, onde o vinhateiro não é um mega star, mas uma espécie de maestro, regendo a orquestra do terroir.
E a reação?
Mas qual teria a reação do mundo do vinho natural à declaração de Sylvie Augereau? Em entrevista à publicação francesa Vitisphere, ela mostrou um certo alívio. “Quase nenhum vinhateiro interveio no debate, apenas consumidores. Estes, porém, não fazem ideia da nossa profissão e das condições climáticas que complicaram seriamente a nossa vinificação nos últimos anos “. Ela se refere a alguns dos impactos do aquecimento global, como aumento das concentrações de açúcar e diminuição da acidez das uvas, que reduzem as defesas do vinho contra as bactérias.
Falando especificamente sobre sulfitos, ela foi taxativa. “Alguns gramas (de SO2) nunca mataram os amantes do vinho e os jovens devem desconfiar do discurso zero”. Ela relatou algumas experiências pessoais que a levaram a mudar sua visão inicial sobre o uso de sulfitos “Eu já tive que jogar vinho fora, no gramado” se referindo à consequência de suas decisões na vinificação. “Foi de partir o coração, depois de um ano de trabalho árduo”.
Um brinde ao bom senso
Que o aprendizado e a tomada de decisões ponderadas e equilibradas seja a tônica daqui para frente. Não há dúvida que a ousadia e a criatividade são bem-vindas no mundo do vinho. Mas somente um vinhateiro talentoso e consciente pode efetivamente cumprir seu papel. O vinho autêntico á aquele que simboliza seu terroir, sem que sua expressão seja mascarada por técnicas excessivamente intervencionistas ou, por outro lado, por defeitos decorrentes do seu processo de elaboração.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
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Fonte da entrevista: Vitisphere
Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal