Vinhos naturais: qual o limite entre defeitos e mínima intervenção?

A busca por vinhos mais puros, com menos aditivos e que sejam elaborados a partir de uvas cultivadas com agricultura orgânica ou biodinâmica é uma realidade. Cansados do excesso de manipulação e de práticas pouco convencionais que resultaram em vinhos sem personalidade, muitos consumidores resolveram migrar seu consumo para vinhos de menor intervenção.

Porém, ainda há muita discussão sobre exatamente o que estes consumidores estão buscando. Seria apenas uma preferência por vinhos elaborados com práticas menos intervencionistas ou, de outro lado, uma ruptura radical, onde a busca por pureza e maior expressão seja o único objetivo, mesmo que a qualidade do vinho seja pior?

Tentando diferenciar as coisas

Foi dentro deste contexto que surgiu o conceito de vinhos naturais. Ainda existe muita discussão sobre exatamente o que isso signifique, mas um passo importante foi tomado em 2020 com o lançamento da classificação Vin Méthode Nature. Mesmo com todas as críticas e limitações, é um critério mais ou menos objetivo.

Não há consenso também sobre os limites da intervenção humana na elaboração de vinhos. Para alguns, vale a mínima intervenção, mas desde que os vinhos não apresentem defeitos em excesso, como acidez volátil, brett, mousiness ou outros. Já para outros, muitas das falhas acima são aceitas, afinal de contas, estes vinhos devem expressar fielmente o resultado de processos naturais.

Enquete

Pensando nisso, um dos administradores do Natural Wine Forum, uma comunidade que agrega mais de 8,3 mil membros ao redor do mundo, lançou uma enquete para avaliar a percepção dos participantes sobre esta questão. Foram colocadas quatro afirmações e os participantes tiveram a opção de escolher qual a mais alinhada com sua visão.  

Opção 1:  Gosto dos meus vinhos naturais, mas estáveis. Com um paladar limpo, mas ainda sem filtragem, vinhos expressivos, sem defeitos como mousiness. Acidez volátil e brett mantidos no mínimo possível;

Opção 2: Não me importo com os defeitos citados acima, depende do meu humor;

Opção 3: Gosto de vinhos funky. Não me importo com o avinagrado da acidez volátil e algumas características mais extremas para os meus vinhos. Compraria vinhos sem sulfito se tivessem a mesma cor do leite;

Opção 4: Gosto de vinhos ferozes, aprecio vinhos azedos, com acidez volátil e mousiness. Me traga a podreira!

Resultados

Mesmo dentro de uma comunidade exclusivamente focada em vinhos naturais, parece que a maioria divide a opinião de que a menor intervenção nos vinhos é bem-vinda, mas desde que isso não afeta a qualidade. De um total de 248 participantes, cerca de dois terços escolheram a opção um.

A opção dois ficou com 19%, seguida pela três, com 13% e pela quatro, com apenas 1%. Assim, no geral, um terço aceita alguns defeitos, com uma pequena proporção realmente colocando isso como uma qualidade.

Embora a amostra seja pequena e não tão representativa, a enquete traz algumas lições interessantes. Depois de um primeiro momento quando a disposição de buscar vinhos naturais permitiu aos produtores alguns deslizes em algumas práticas, sobretudo na vinificação, o momento agora parece ser outro.

Mesmo dentro dos vinhos naturais, parece haver um limite para algumas características do vinho, descritas como defeitos. Afinal de contas, elas podem esconder o que o vinho tem de melhor, sua capacidade de expressar a fruta, o terroir, a natureza.

Fonte e gráfico: Natural Wine Forum

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