A indústria nacional de vinhos no Brasil é relativamente recente. Aliás, essa afirmação merece uma ressalva: embora a produção de vinhos de mesa seja antiga — há registros desde a chegada dos primeiros portugueses —, os vinhos finos só começaram a ganhar destaque a partir da década de 1990, inicialmente na Serra Gaúcha e, posteriormente, na Serra Catarinense. Essas duas regiões ainda concentram cerca de 90% da produção de vinhos finos no país.
A distinção entre vinho fino e vinho de mesa vai além de uma classificação comercial: é regulamentada por decreto-lei, que define como vinhos finos aqueles elaborados exclusivamente com uvas do gênero Vitis vinifera, oficialmente chamadas de “uvas do tipo nobre”. Popularmente conhecidas como “uvas europeias”, essas variedades são valorizadas por suas características superiores na produção de vinhos de qualidade.

O vinho fino, feito a partir da Vitis vinifera, apresenta coloração mais clara e límpida. Já o vinho de mesa costuma ter cor violácea e ser completamente opaco. No nariz, o vinho fino revela aromas mais complexos e com várias camadas, enquanto o de mesa exibe, basicamente, o aroma da própria uva. No paladar, os vinhos finos tendem a ser mais delicados, elegantes e variados em sabores.
Até 2020, os vinhos de mesa representavam cerca de 75% do total de vinhos consumidos no Brasil. Embora esse número venha diminuindo, o país ainda produz mais vinhos de mesa do que vinhos finos. Contudo, é inegável que a tendência aponta para o crescimento do mercado de vinhos finos — mais complexos, exigentes e, por isso, capazes de atrair consumidores interessados em aprofundar seus conhecimentos.
A expansão dos cursos de vinhos e o crescente espaço na mídia dedicado ao tema refletem esse movimento. Soma-se a isso o fenômeno das redes sociais, que, embora tenham propagado certa banalização nas análises (com a popularização dos chamados influencers), também revelam alguns “oásis no meio do deserto”, com conteúdos relevantes e bem fundamentados.
A crítica especializada em vinhos brasileiros
É natural que um setor tão recente e ainda em consolidação, como o de vinhos finos brasileiros, não conte, por enquanto, com uma crítica especializada sólida e respeitada. Embora haja avanços notáveis, o segmento ainda se encontra em estágio inicial.
E aqui cabe um importante destaque: estamos falando de crítica séria e independente — e a independência é um atributo absolutamente essencial. O avaliador de vinhos não pode, sob risco de comprometer sua credibilidade, vender, promover ou prestar serviços aos mesmos produtores que avalia. O motivo é simples e óbvio: conflito de interesses.
Na ausência de uma crítica confiável e consolidada, é comum observarmos vinícolas recorrendo a concursos internacionais de reputação duvidosa, nos quais praticamente todos os participantes recebem alguma medalha. Nesse contexto, é animador ouvir rumores de que uma instituição séria, como o Guia Michelin, estaria interessada em lançar uma publicação dedicada aos vinhos brasileiros. Embora a informação ainda se baseie apenas em postagens nas redes sociais, a possibilidade é promissora.
Por que esses rumores são animadores?
Segundo os rumores, o Michelin pretende expandir seu escopo — hoje centrado em restaurantes — para incluir um guia exclusivo de vinhos brasileiros. A proposta envolveria avaliações técnicas e recomendações baseadas em uma amostragem ampla, contemplando as principais regiões produtoras do país.
A promessa seria de um trabalho abrangente: centenas de rótulos de diferentes vinícolas seriam degustados, avaliados e classificados. Além disso, o guia incluiria dicas de viagem e sugestões gastronômicas, oferecendo uma visão estruturada e criteriosa do panorama vinícola nacional. Já se fala, inclusive, em um número recorde de amostras sendo avaliadas, o que demonstra a seriedade com que o projeto estaria sendo conduzido.
Embora tudo ainda esteja no campo dos rumores, o simples fato de haver conversas sobre um guia desse porte é sinal do dinamismo e da evolução do setor de vinhos no Brasil. Resta agora acompanhar os próximos capítulos — com uma taça na mão, de preferência.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora aprofundar-se no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal