A confusão nos espumantes de alta qualidade na Espanha

Com o perdão do trocadilho, o mundo dos vinhos espumantes na Espanha está “borbulhando”, com produtores e regiões se rebelando contra a denominação de origem Cava e partindo para outros caminhos. E criando uma enorme confusão na cabeça do consumidor.

O termo Cava é, há anos, um sinônimo de espumante produzido na Espanha. Mas por algum motivo que iremos explorar adiante, nem todas as regiões estão mais satisfeitas de fazerem parte dessa denominação de origem.

De um lado há o esforço de fugir do mainstream e buscar valorizar a tradição e qualidade de áreas específicas, assim como os aspectos inovadores e diferenciais de outras. Mas, também, há um evidente incômodo da imagem que o Cava goza no mercado internacional, onde é comumente associado a espumantes de baixo preço.

O Cava

Na década de 1860, o catalão Josep Raventós i Fatjó visitou a região de Champagne e teve a oportunidade de conhecer em detalhe várias Maisons, o nome que as vinícolas produtoras são conhecidas naquela região. Voltou encantado e resolveu replicar um processo similar de fabricação em sua terra natal.

Raventós i Fatjo era oriundo de Penedès, na Catalunha, onde em 1872 iniciou a produção de espumantes, replicando o método de produção de Champagne, que implicava na segunda fermentação em garrafa. Além das variedades tradicionais de Champagne, Chardonnay e Pinot Noir, lentamente variedades espanholas, notadamente a Macabeo, Xarel.lo e Parellada, passaram a dominar o blend, aportando uma assinatura espanhola ao vinho.

Nascia assim o Cava. Mas o termo Cava só passou a nomear os vinhos cem anos depois, quando o direito ao uso do termo Champagne foi limitado a sua região de origem.

Uma forte presença no mercado internacional em volume

O relatório OIV Focus The Global Sparkling Wine Market, publicado em 2020, apresenta a participação de mercado das exportações de espumantes em 2018.

Os dados falam por si. Enquanto a participação no volume da Espanha é 21% das exportações globais de espumantes, em valor o cenário é outro e a Espanha abocanha apenas 7% do bolo.

A estatística confirma a percepção do Cava como um espumante de preço abaixo da média, sem entrar no mérito da discussão de qualidade. E esse é o pano de fundo do descontentamento.  Alguns produtores espanhóis julgam produzir um espumante capaz de competir no mercado premium internacional, mas são atrapalhados por essa imagem do Cava.

Penedès, o berço do Cava e o primeiro a buscar se diferenciar

Foi em Penedès que o espumante espanhol surgiu. É lá que são produzidos os melhores espumantes do país. Porém, o limite geográfico da Denominação de Origem Cava não se limita a essa região.

A DO é formada por áreas que não são contiguas e está espalhada em mais de 150 municípios.  Sete regiões autônomas da Espanha são autorizadas a produzir o Cava. Por exemplo, Extremadura, uma região completamente diferente de Penedès, em termos de clima, solo e topografia, produz espumantes que são rotulados com o mesmo nome da região mais nobre. O Cava, portanto, apesar de compartilhar um único processo de produção, o tradicional, e passar no mínimo nove meses em contato com as leveduras é bastante heterogêneo.

Isso levou a região de Penedès, em 2014, a incorporar em sua DO a designação Clássic Penedès. O objetivo era criar uma categoria para abrigar espumantes de alta qualidade, mas, principalmente para poder se afastar da imagem de espumante de baixo preço.

O Classic Penedès tem critérios mais exigentes de produção. 100% das uvas utilizadas devem ser cultivadas de forma orgânica. O prazo mínimo de envelhecimento é de 15 meses, apesar da maioria dos produtores superar largamente esse período.

Exemplo de um rótulo de um Clássic Penedès

Um novo estilo também em Rioja

Em 2017, o Consejo Regulador de Rioja autorizou a designação de Espumosos de Calidad de Rioja para abrigar os produtores interessados em se diferenciar do Cava.

O método tradicional de produção é obrigatório e há três categorias, que variam de acordo com o tempo de envelhecimento em garrafa e em contato com as leveduras:

  • Espumoso: Mínimo de 15 meses
  • Reserva: Mínimo de 24 meses
  • Gran Añada: Mínimo de 36 meses

A DO Cava também mudou

Naturalmente a DO Cava não poderia assistir a todo esse movimento sem esboçar reação. Em 2015 foi criada uma nova categoria, o Cava de Paraje Calificado, numa busca de ressaltar alguns terroirs específicos. Além de envelhecer pelo menos 36 meses em contato com as leveduras, todas as uvas devem ser cultivadas em vinhedos únicos, além de outros critérios restritos de produção.

E para aumentar a confusão, surgiu o Corpinat

E para aumentar a confusão, sete empresas, representando nove vinícolas e dez rótulos, resolveram criar o Corpinat. Os dez rótulos que faziam parte do Corpinat em 2020 estão representados na figura abaixo:

Importante mencionar que Corpinat, apesar de possuir regras específicas (uvas 100% orgânicas, mínimo 18 meses de envelhecimento, dentre outras) não é uma DO e nem faz parte de nenhuma DO específica. Em resumo é uma associação de produtores.

Por ora, diz respeito a produtores que abandonaram a DO Cava, insatisfeitos com os rumos, mas que ainda mantém conversas com o Consejo Regulador dessa denominação.  Pode parecer confuso. E é mesmo!

E para complicar, Copernat e Clássic Penedès coexistem. Um mesmo vinho pode adotar duas terminologias. Achou bagunçado? Bem vindo a Espanha!

Conclusão

É evidente a falta de coordenação entre os produtores e regiões de espumantes na Espanha. Mas por outro lado, é salutar o esforço de separar o joio do trigo.

A DO Cava abriga produtores de alta qualidade capaz de competir com os melhores espumantes produzidos no mundo. Mas também produz vinhos de boa qualidade e que são comercializados num preço ao varejo inferior a US$ 10 no mercado internacional. Parece fazer sentido existirem duas assinaturas distintas (dentro ou fora da DO) para diferenciar uma coisa da outra.

Mas infelizmente, da forma como está colocada, o pobre consumidor se perde no meio de tantas novas definições e terminologia.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

Imagems: Pixhere

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