A cor da garrafa pode afetar a qualidade do vinho?

Last Updated on 10 de abril de 2021 by Wine Fun

A garrafa de vidro tem sido uma companheira importante do vinho nos últimos séculos. Porém, você já deve ter notado que elas variam bastante de coloração, embora a maioria delas seja verde ou marrom. Porém, não faltam também garrafas mais claras, como aquelas de uma coloração âmbar amarelada ou mesmo as transparentes.

Mas você sabe por que a coloração das garrafas varia? Os motivos são vários, desde proteção contra os efeitos dos raios ultravioletas (UV) sobre os vinhos dentro das garrafas, questões comerciais ou relacionadas ao marketing dos vinhos, ou tradição regional. Ou mesmo uma combinação de todas as alternativas acima.

Proteção do vinho

A integridade do vinho é provavelmente a consideração mais importante ao escolher entre as diversas cores da garrafa de vidro. O vinho é muito sensível à luz. Não é à toa que entre as principais recomendações para armazenamento, está a escolha de ambientes escuros, sobretudo aqueles sem exposição direta à luz solar.

Por exemplo, basta uma hora de luz exposição à luz solar para que o sabor do vinho possa mudar, com a geração de alguns sabores distintos, muitas vezes comparados àquele de um fósforo recém aceso. Uma reação fotoquímica ocorre no vinho após a exposição a comprimentos de onda de luz entre 350-500 nanômetros (nm), e a maioria dos danos acontece quando exposto a 370-440 nm.

Comprimentos de onda leves podem passar pela garrafa e estimular a riboflavina, que está naturalmente presente no vinho. Uma vez estimulada, a riboflavina reage com outras substâncias para formar sulfeto de hidrogênio e mercaptanos. E são estes mercaptanos que têm os sabores desagradáveis de folhas podres, repolho cozido, alho-poró, cebola, gambá, lã molhada, soja etc. Como os seres humanos são sensíveis ao sabor e aroma aos mercaptanos, a recomendação é a de escolher cores de vidro que oferecem maiores níveis de proteção UV.

Quais vinhos são mais suscetíveis?

Certas variedades de uva, alguns estilos de vinho e aqueles que têm mais aminoácidos ou dissulfeto de hidrogênio estão mais em risco de desenvolver estes sabores estranhos. Um exemplo fica com os vinhos que passam por muito tempo em contato com suas lias, como os espumantes elaborados através do método tradicional.

Por conta disso, você não vai encontrar um Champagne engarrafado em garrafas brancas transparentes, até porque a capacidade de evoluir bem é uma característica essencial destes espumantes. Outra situação na qual garrafas sem proteção não deveriam ser usadas é no engarrafamento de vinhos brancos aromáticos ou mais delicados, até porque qualquer substância criada pelo contato com a luz poderia ser detectada mais facilmente.

Já os vinhos tintos têm um uma equação mais complicada. De um lado, seus taninos se ligam a riboflavina fornecendo alguma proteção. Porém, a ação da luz danifica os próprios taninos e outros componentes fenólicos de propriedades antioxidantes.  E isso pode causar uma oxidação mais precoce. Além disso, em geral, eles são elaborados para ficar mais tempo em garrafa, de forma que proteção adicional é necessária.

Quais cores protegem mais?

Se o impacto sobre o vinho pode ser grande, quais as garrafas mais adequadas? Obviamente, a pior escolha fica com as brancas transparentes, que conseguem filtrar apenas 10% da exposição aos raios UV. Curiosamente, é exatamente neste tipo de garrafa que encontramos muitos vinhos brancos, o que, sem dúvida representa um paradoxo.

E as garrafas verdes? Para começar, não existe apenas um tipo de verde usado em garrafas, ele pode ser dividido em três grupos. E a proteção varia de acordo com o grau de transparência da garrafa. Por exemplo, o que se convencionou chamar de verde Champagne (por conta do seu uso nas garrafas deste espumante), pode filtrar entre 50% e 80% das ondas de luz. No caso daquele verde mais claro (chamado de verde Borgonha), a proteção é menor, o que aumenta para o verde mais escuro, chamado verde antique.

Resta analisar as garrafas marrons. E são elas que oferecem a melhor proteção. O vidro marrom filtra entre 97% a 98% dos comprimentos de onda de luz e, portanto, seria o mais recomendado para as garrafas de vinho. Curiosamente, porém, acaba ficando dentro das menos usadas.

Tradição e marketing

Mas por que as vinícolas não usam garrafas com as tonalidades de vidro que melhor protegem seus vinhos? Duas razões podem ser ressaltadas: tradição e marketing. Por tradição, entende-se o uso de uma determinada coloração de forma extensiva em uma região, como os já mencionados exemplos da Champagne e da Borgonha. E a tradição não fica somente em garrafas verdes, por exemplo, na região alemã do Reno o uso de garrafas marrons é muito difundido por motivos históricos.

Mas e o marketing? O produtor passa sempre por um dilema: escolher entre uma garrafa clara que exibe a cor do vinho ou uma cor de garrafa escura que forneça proteção UV? E, muitas vezes, o marketing ganha esta batalha, é só pensar em vinhos brancos delicados ou aromáticos, como Pinot Grigio ou Sauvignon Blanc, em garrafas totalmente transparentes.

O mesmo acontece com os vinhos rosé, onde a coloração é (erroneamente) muitas vezes apontada como um sinal de qualidade. E esta tendência de a cor do vinho na garrafa ganhar mais importância cresceu nos últimos anos, até por conta da maior exposição que os vinhos mais coloridos ou chamativos ganharam nas mídias sociais.

Fechando a conta

Portanto, a questão da cor da garrafa pode fazer a diferença. Garrafas totalmente transparentes devem ser evitadas, ou aceitas apenas no caso de vinhos de consumo rápido. Mas o impacto da luz, principalmente a solar (que tem mais de 4.200 vezes a quantidade de radiação UV-A do que lâmpadas fluorescentes) deve ser evitado quando possível. Pense só naquelas garrafas que ficam na vitrine das lojas…

Pessoalmente, prefiro acreditar mais naqueles produtores que colocam a integridade de seus vinhos em primeiro lugar, deixando o marketing em segundo plano. E isso vale, principalmente, para aqueles vinhos que foram feitos para durar, que evoluem e melhoram com o passar do tempo. Afinal de contas, o que realmente conta é a qualidade do que está dentro da garrafa, não sua cor, seu rótulo ou etc.   

Fontes: Gravity Wine House; Research Gate; Brain Stuff

Diagrama: www.seoulviosys.com

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