Ainda faz sentido falar de Superstoscanos?

A definição do que é um Supertoscano ainda cria confusão na cabeça de muita gente. E isso não ocorre à toa. Há quem acredite que esta definição se refere somente a vinhos elaborados na Toscana, contando, no corte, com uvas francesas, sobretudo aquelas típicas de Bordeaux. Porém, há também Supertoscanos que tem somente a Sangiovese na sua composição. Confuso, não?

E tudo tem a ver com origem destes vinhos. Já a partir do final da década de 1960, produtores da Toscana decidiram elaborar vinhos que não respeitavam as regras das denominações de origem locais, sobretudo Chianti Classico. O primeiro foi o Vigorello, um corte de uvas francesas e italianas criado em 1969 pela Agricola San Felice, seguido pelo Tignanello, lançado pela Marchesi Antinori em 1971.

Rebeldia era a palavra de ordem. Os produtores buscavam espaço para criar diferentes expressões dos vinhedos locais, indo contra as rígidas regras da região. Inicialmente rotulados como Vino di Tavola, estes vinhos ganharam mais espaço, com o termo Supertoscano sendo usado a partir do início da década de 1980. Obtiveram enorme projeção internacional e um lugar cativo na categoria de vinhos premium. Nada mal para uma proposta alternativa.

Flexibilização das regras e novas denominações  

Nos mais de 50 anos desde o lançamento do Vigorello, muita coisa mudou. Diversas denominações de origem, entre elas Chianti Classico, flexibilizaram suas regras. Hoje, por exemplo, um vinho elaborado 100% a partir das Sangiovese pode estampar o Gallo Nero em sua garrafa, o que não era permitido. Além disso, o próprio conceito de denominação de origem sofreu diversos abalos, com muitos produtores optando por engarrafar seus vinhos de outra forma, mesmo que vinificando dentro das regras.

Em paralelo, foram criadas denominações de origem próprias para abrigar, por exemplo, vinhos elaborados exclusivamente ou majoritariamente com uvas francesas. As mais conhecidas são Bolgheri e Bolgheri Superiore, onde variedades como Cabernet Sauvignon, MerlotCabernet Franc ganharam o status de uvas primárias, deixando a Sangiovese (além da Syrah e Petit Verdot) em segundo plano. Não há qualquer dúvida que hoje a Toscana tem regras muito mais flexíveis, abrindo espaço para um amplo universo de vinhos.

Como definir um Supertoscano?

Se antes parecia difícil, agora é ainda pior. No passado, Superstoscano era um vinho fora das regras. Hoje, até por conta das novas denominações de origem, muitos deles cumprem 100% dos regulamentos. Além disso, houve uma explosão na quantidade de vinhos que, teoricamente, poderiam ser classificados como Supertoscanos. Toscanos todos são, mas o que realmente pega é o Super, dada a associação imediata com vinhos caros, como Sassicaia, Masseto e Ornellaia, por exemplo.

Seria faixa de preço uma alternativa? Por exemplo, um vinho acima de € 100 qualifica como Superstoscano? Ou seria € 150? Ou € 250? Pessoalmente, não acredito que definir categorias de vinho por preço faça qualquer sentido. É só pensar no caso da América do Sul, onde diversos (mas não todos) vinhos badalados e caros se mostram desequilibrados e difíceis de beber, em um estilo já abandonado há anos em boa parte do mundo. Preço, portanto, não faz sentido.

Sendo assim, estamos falando de tradição? De quais uvas são usadas? Qual vinícola adota uma estratégia de marketing mais agressivo?  De fato, levando em conta que “qualidade” é um conceito extremamente subjetivo, não há um critério adequado, aceito universalmente para o que seria um Supertoscano. A solução? Colocar este termo no passado, da mesma forma que já foram para o fundo do baú as discussões sobre Barolos tradicionalistas ou modernistas. O mundo do vinho mudou e, também, os termos usados devem refletir os novos tempos. Mas só não me pergunte como chamar estes vinhos daqui em diante…  

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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