Arinto: uma uva branca entre as pérolas da viticultura portuguesa

Last Updated on 27 de dezembro de 2024 by Wine Fun

A Arinto é uma das variedades brancas mais plantadas em Portugal, embora tenha ainda pouca presença internacional. É considerada bastante versátil e mostra boa capacidade de adaptação a diferentes terrenos e climas, estando presente na maioria das regiões vitícolas portuguesas. Destaque para o Minho, onde é segunda uva mais plantada, somente atrás da Loureiro.

Por conta de suas características principais, que inclui alta acidez e aromas cítricos e de frutas brancas, por muito tempo se colocou em dúvida se a Arinto não teria um parentesco genético com a Riesling. A narrativa era que a uva teria chegado a Portugal pelas mãos de ordens religiosas, levando em conta a longa tradição monástica de cultivo da Riesling na Alemanha. Porém, testes genéticos realizados nas últimas décadas descartaram completamente esta narrativa.

Origem e parentesco genético

Afastada a hipótese de relação genética com a Riesling, as evidências atuais mostram que ela é, na verdade, autóctone de Portugal. Sua origem, porém, não seria no norte de Portugal (que atualmente concentra a maior área de vinhedos), mas sim na área de Bucelas, a poucos quilômetros de Lisboa. É nesta pequena região que ela apresenta maior diversidade genética, indicando presença de longo prazo. De lá, a Arinto teria chegado à Bairrada e, posteriormente, à região do Minho, onde se adaptou muito bem.

Quanto à sua relação genética com outras variedades portuguesas, existe uma enorme controvérsia. De um lado, há uma posição das principais referências internacionais e de Portugal no que diz respeito ao mapa genético das variedades portuguesas. Tanto o Vitis International Variety Catalogue como o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária não identificam um parentesco definido para a Arinto.

Porém, pesquisas recentes constataram uma relação genética com as variedades Branco Escola e Castelão, que seriam as progenitoras da Arinto. Curiosamente, estas mesmas pesquisas teriam identificado que outra variedade portuguesa branca de alta acidez, a Loureiro, seria também descendente direta da Branco Escola.    

Longa história e muito prestígio

Apesar da controvérsia em relação a sua origem e parentesco genético, a Arinto tem longa história e excelente reputação em Portugal. Em 1712, Vicêncio Alarte, no primeiro tratado de viticultura escrito em Portugal, a descreveu de forma positiva. “As uvas arintas são de excelente qualidade, porque são boas para comer, fazem o melhor vinho, e são tão fortes que resistem a todo o tempo…”.

Falando especificamente sobre a Arinto na região de Bucelas, António Augusto de Aguiar (1838-1887), um dos principais responsáveis para a melhoria do vinho português no século XIX, também traçou elogios. Ele descreveu o vinho de Bucelas como “aristocrático que enche de orgulho o vinhateiro, e constitue a glória dos seus torrões”. No mesmo sentido, Bernardino Camilo Cincinato da Costa (1866-1930), professor e agrónomo de referência e autor da obra O Portugal Vinícola: Estudos sobre a Ampelografia e o Valor Enológico das Principais Castas de Videiras de Portugal (1900) – escrevia “a Arinto é uma das castas mais notáveis de Portugal”.

Características e vinhos

A Arinto é uma casta muito vigorosa, porém de baixa fertilidade. Apresenta cachos grandes, compactos e pesados, com grãos pequenos, arredondados de casca de espessura média e coloração amarelada. Se mostra bastante sensível a pragas como míldio, oídio e também à podridão. É uma variedade de brotamento tardio, floração regular e veraison e maturação tardias.

Em termos aromáticos, é uma variedade relativamente discreta, trazendo notas minerais, de maçã verde, lima e limão. No gustativo, se caracteriza por produzir vinhos vibrantes e de acidez intensa, refrescantes, com boa estrutura e textura, forte presença mineral e elevado potencial de guarda. A acidez é sua principal característica, sendo usada também na elaboração de espumantes e de vinhos de corte, sendo particularmente demandada em regiões como Alentejo e Ribatejo, exatamente pela acidez que aporta. Há quem trace comparações entre seu estilo e aquele mostrado pela Chardonnay em Chablis.

Área plantada e nomes alternativos

De acordo com os dados da OIV, em 2015 eram apenas 6.063 hectares de Arinto plantados ao redor do mundo, todos eles em Portugal. Segundo informações mais recentes (2023) do Instituto da Vinha e do Vinho de Portugal, a área plantada seria de 6.654 hectares. Isso colocaria a Arinto como a segunda variedade branca mais plantada no país, somente atrás da Maria Gomes a imediatamente à frente da Loureiro e da Roupeiro.

O Minho, com 3.588 hectares plantados, responde por cerca de 54% dos vinhedos de Arinto de Portugal. Apesar disso, ela é a segunda variedade em termos de plantio nesta área, atrás da Loureiro, porém à frente da Albarinho. Outras regiões com presença significativa são Alentejo (1.031 hectares e em franco crescimento) e Lisboa (que inclui Bucelas, com 589 hectares).

Apesar da reduzida área plantada, a variedade também recebe outros nomes, mantendo a boa tradição portuguesa de regionalização dos nomes. Alguns exemplos são Pedernã (na região dos Vinhos Verdes), Pé de Perdiz Branco, Chapeludo, Cerceal, Azal Espanhol, Azal Galego e Branco Espanhol.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Instituto da Vinha e do Vinho; Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes; Infovini; Wines of Portugal; Vitis International Variety Catalogue; Público – As castas são filhas da mãe — e do pai; Enofragments; Vine to Wine Circle; Diario do Alentejo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *