As incríveis e muitas uvas viníferas da Itália

Last Updated on 19 de novembro de 2020 by Wine Fun

Em nenhuma região do mundo há tanta diversidade de uvas viníferas, como na Itália. Uma combinação de condições naturais favoráveis, aliada a uma história marcada pela fragmentação política e guerras moldaram esse quadro.

Além da imensa variedade de uvas nativas, como a Sangiovese e Nebbiolo, a Itália também abriga uma série de variedades oriundas de outras regiões, as chamadas castas internacionais, como a Merlot e Chardonnay.

Itália, uma longa história de fragmentação

A história do vinho na Itália está intimamente ligada com a história do país. Etruscos, gregos e romanos tiveram papel de destaque na introdução e disseminação da bebida na península. Em seguida, o território foi fragmentado em vários reinos que oscilaram entre a independência e ocupação externa. A unificação de toda a península como uma só nação voltou a existir apenas na segunda metade do século dezenove.

Montepulciano na Toscana

Além da fragmentação política, as condições geográficas do território, marcada por uma topografia acidentada, montanhas e colinas criaram um outro obstáculo para a circulação interna. Por fim, conflitos seculares entre vizinhos restringiram o intercambio e comercio entre áreas.

Dessa forma, na península itálica vários povos conviveram, por séculos, isolados de seus vizinhos, com línguas, hábitos e costumes distintos. Nesse contexto, vários territórios, apesar de próximos, cultivaram variedades distintas de uvas para produzir seus vinhos.

Uvas nativas da Itália

O isolamento geográfico permitiu que, ao longo dos séculos, variedades nativas se adaptassem tão bem a determinadas às condições locais que, algumas delas, como a Nebbiolo, dificilmente dão bons resultados longe de sua área de origem.

O número total de uvas viníferas nativas na península varia a depender da fonte. Até o início do século XXI, estimava-se um número entre 1.000 a 2.000. Novas pesquisas, no entanto, reduziram significativamente esse montante. De acordo com a Wine Scholar Guild, os levantamentos mais recentes consideram um número aproximado de 350 variedades nativas, comercialmente relevantes, cultivadas atualmente no país. Isso representa 25% de todas castas viníferas cultivadas no mundo e muito mais do que França e Espanha somadas.

E no meio das castas nativas há verdadeiras joias escondidas. Um bom exemplo é a DOCG Erbaluce di Caluso, que produz um vinho doce utilizando a uva branca Erbaluce, autóctone do Piemonte. Registros dão conta que o passito – vinho feito com uvas desidratadas – produzido com a essa uva nas proximidades da cidade de Caluso, na província de Carema, era considerado o vinho doce de maior prestígio no Piemonte até o século dezoito. Seguindo a tendência observada a partir da segunda metade do século dezenove, o vinho dessa área entrou em decadência e quase desapareceu do mapa.

Erbaluce di Caluso Passito

Recentemente, no início desse século, a tradição foi recuperada e a uva Erbaluce voltou a ganhar importância, a ponto de ser elevada a DOCG em 2010. Essa apelação produz vinhos brancos secos e doces. A uva Erbaluce se destaca pela elevada acidez e casca fina, características importantes para o processo de produção dos passitos. Além disso, apresenta notas florais e aromas fragrantes de cítrico e maçã.

Castas Internacionais na Itália

Não bastasse a enorme quantidade de variedades autóctones, também proliferam por lá as chamadas castas internacionais, oriundas de outras regiões.

Vinhedos do Friuli no norte da Itália, onde a Pinot Grigio é a mais plantada

As castas de origem bordalesa Merlot e Cabernet Sauvignon representam 15% de toda área cultivada na Toscana. A Chardonnay, oriunda da Borgonha, é a casta mais plantada na região de Trentino. E a Pinot Grigio (ou, na grafia francesa, Pinot Gris), oriunda do Vale do Reno, é a uva mais cultivada na região do Friuli.

Vale lembrar que desde a queda do império romano até il Risorgimento, na segunda metade do século dezenove, a região foi ocupado por outros povos, como os espanhóis, franceses e austríacos. E como herança, os ocupantes legaram novas castas que se somaram ao já vasto plantel existente.

Além disso, também no final do século dezenove, uma doença, a filoxera, devastou os vinhedos europeus. No momento do replantio, a Itália se encontrava imersa em guerras internas e o setor de vinhos encontrava-se atrasado em relação aos pares europeus.

Como atalho, e buscando uma rápida recuperação, uvas francesas ganharam importância, pois aquele país estava adiantado na técnica do “porta enxerto”, que foi a solução encontrada para combater a filoxera.

Por isso, mudas com variedades de uvas francesas já testadas estavam disponíveis no mercado. Nesse contexto, centenas de variedades italianas autóctones não foram replantadas e estão extintas. E as castas internacionais, especialmente as de origem francesa, invadiram o território italiano.

Conclusão

A disponibilidade de um plantel tão vasto de variedades nativas, bem como a presenças de castas internacionais é uma enorme vantagem para os produtores italianos. E um atrativo para os amantes do vinho, afinal torna possível a disponibilidade de vinhos únicos.

Mas, por outro lado, a diversidade assusta a maioria dos consumidores que, por desconhecimento ou comodismo, costumam buscar refúgio no porto seguro dos rótulos e denominações de origens mais conhecidas (e normalmente mais caras). Mas quem estiver disposto a pesquisar e arriscar corre o risco de se surpreender e descobrir coisas incríveis.

Num mundo cada vez mais marcado pela globalização e pasteurização, a Itália não cansa de surpreender os amantes do vinho.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal

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