Bordeaux, a região vinícola mais influente do mundo

Imagine pegar a Rodovia dos Bandeirante, na saída da Marginal Tietê no município de São Paulo, e dirigir ininterruptamente por 107 Km. Nesse trajeto, as cidades de Campinas e Sumaré ficariam para trás e a cidade de Americana estaria bem próxima.

Agora imagine que durante todo o caminho, a única paisagem existente, a esquerda e direita, fosse composta por vinhedos. E vinhedos especiais, cujas uvas tivessem o potencial de produzir vinhos de alta qualidade. Assim é Bordeaux. A região impressiona pela capacidade de produzir vinhos em quantidades enormes e com alta qualidade.

O volume de vinhos produzidos em Bordeaux representa aproximadamente 25% de todo vinho com Denominação de Origem na França. Numa região tão grande assim, é comum algumas generalizações não funcionarem adequadamente. Nessa coluna iremos passear, despretensiosamente, sobre algumas delas.

Fonte: Bordeaux

Cabernet Sauvignon é a uva dominante em Bordeaux, certo?

Mito. O volume plantado de Merlot representa cerca de três vezes o da Cabernet Sauvignon. Enquanto a área de Merlot cobre 66% da área dos vinhedos de uvas tintas, Cabernet Sauvignon representa apenas 22,5%.

Talvez essa confusão se deva ao fato dos vinhos mais icônicos de Bordeaux serem, majoritariamente, oriundos da região do Medoc, onde a Cabernet Sauvignon é dominante. Além disso, como a Cabernet Sauvignon é a variedade tinta mais plantada no mundo, e os vinhos de Bordeaux a referência para outras regiões, essa percepção equivocada se estabeleceu.

O fato é que os vinhos com preços mais acessíveis de Bordeaux contam com a Merlot como protagonista (sem esquecer que os vinhos oriundos das áreas nobres da margem direita, Pomerol e Saint-Émilion). Dessa forma, cuidado com as generalizações. Não tente comparar um Bordeaux genérico com um varietal de Cabernet Sauvignon de outra região do mundo. O risco de comparar coisas distintas é enorme.

Bordeaux produz majoritariamente vinhos tintos, certo?

Verdade. Sim, a produção atual de tintos representa 88% do total produzido na região. Porém, em 1969, os brancos representavam 51%. Portanto, há 50 anos atrás Bordeaux produzia mais brancos do que tintos. Por trás da mudança no mix de estilo de vinho há uma inegável capacidade de identificar as demandas do mercado e ser capaz de se adaptar a ela. Os consumidores queriam mais tintos e Bordeaux entregou.

O interessante disso é que, em Bordeaux, há uma enorme tradição e terroirs especializados em brancos. Portanto, há uma inequívoca vocação para a região produzir bons brancos, apesar de não serem tão badalados quanto os tintos. Bordeaux oferece boas oportunidades para os enófilos explorarem vinhos brancos com boa relação de preço e qualidade.

Bordeaux é uma região tradicional e pouco muda, certo?

Mito: É comum ouvirmos que a classificação dos vinhos do Medoc foi introduzida em 1855 e só sofreu duas alterações até hoje. Isso seria uma evidência de que a região é avessa a grandes mudanças.

Ledo engano. Poucas regiões do mundo foram capazes de se adaptar às mudanças como Bordeaux. Já citamos a relativa brusca alteração do mix de brancos e tintos ocorridas nas décadas de 1960 e 1970. Além dela, duas outras mudanças importantes merecem ser mencionadas aqui: Green Bordeaux e a forma de abordar o mercado chinês, a partir do início desse século.

1 – Controle de pragas

Um dos maiores desafios enfrentados pelos produtores de Bordeaux, em função do clima, é a umidade e a consequente proliferação de doenças relacionadas a fungos nas videiras. A viticultura na região é, nesse contexto, muito mais desafiadora do que em outras de clima mais seco, como a Alsácia e Roussillon.

Foi nesse contexto que Bordeaux desenvolveu, no início do século passado, a calda bordalesa, um fungicida natural. Mas ainda assim, até bem pouco atrás, em Bordeaux era comum a utilização de produtos químicos em larga escala. Mas o mercado mudou e passou a exigir vinhos produzidos com uvas cultivadas da forma mais natural possível. E foi impressionante como Bordeaux se adaptou a isso.

Em 2008, o CIVB (o conselho regulador da apelação) fez um diagnóstico da região e elaborou um conjunto de metas para 2020. O tema merece uma coluna a parte, mas foi impressionante como a região foi capaz de se transformar em pouco tempo, ocupando hoje um lugar de destaque no cultivo de uvas com baixo uso de produtos químicos.

2 – Conquistando o mercado chinês

Por fim, outro bom exemplo da capacidade de Bordeaux se adaptar aos novos tempos é sua relação com o mercado chinês. O tema merece um capítulo a parte mas, em resumo, vale dizer que até o início do século, o mercado chinês representava quase nada e em 2017 representou 2% do volume e 10% do valor!

Nenhuma outra região foi capaz de entender tão bem a emergência do mercado chinês. Bordeaux não se limitou, como a Borgonha, a simplesmente vender para o mercado chinês como se fosse mais um cliente competindo com os demais. Bordeaux fez parcerias estratégicas com players chineses, promoveu sua marca no mercado local e alguns produtores fizeram investimentos diretos no país, produzindo localmente com o nome de alguns produtores, ou Château.

Por fim, vale dizer que é um lugar comum exaltar a região de Bordeaux como a mais influente no mundo do vinho. Apesar de nos últimos anos, a emergência de novas regiões produtoras fazerem sombra é lá que os big dogs estão. Bordeaux ainda é o benchmarking a ser seguido.

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

Imagems: Pixhere

3 Replies to “Bordeaux, a região vinícola mais influente do mundo”

  1. Escrevendo cada vez melhor Renato. Parabéns. Sabe prender a atenção do leitor e interessado em vinhos como ninguém, com conteúdo e boa prosa.

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