Bordeaux e Borgonha: ajuste nos preços dos vinhos veio para ficar?

O apreciador de bons vinhos parece ter alguns motivos para comemorar: tudo indica que a tendência de queda no preço dos vinhos está aí para ficar. Após atingir pico histórico em meados de 2022, os preços dos vinhos no mercado secundário engataram uma queda significativa desde então. Para quem não está familiarizado com o conceito, o mercado secundário de vinhos funciona através de plataformas de negociação. Através destas plataformas, investidores e apreciadores compram e vendem lotes de alguns dos vinhos mais disputados do mundo, sem a participação dos produtores.

Por exemplo, o índice Wine-100, calculado pela plataforma britânica Liv-ex, mostrou em maio de 2024 uma queda acumulada de 13,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. A queda atinge os vinhos das principais regiões produtoras do mundo, mas o impacto parece ser maior para os vinhos franceses. O índice Bordeaux-500 caiu 13,4% no mesmo período, enquanto o Burgundy-150 acumulou baixa de 17,8%.

Queda também no mercado primário

O que há de novo nos últimos meses é que também o mercado primário passou a registrar queda. Isso significa que os produtores decidiram (ou foram forçados pela dinâmica de mercado) baixar seus preços. Isso afeta diretamente quem compra vinhos através de lojas ou importadoras. Se o mercado secundário impacta uma porção menor dos apreciadores (há um certo elemento de especulação envolvido), quando falamos em preço cobrado pelos produtores, a coisa muda de figura.    

Neste caso, a loja ou importador tem acesso a vinhos com preço menor, ou seja, se mantiver as margens, o preço cobrado junto ao consumidor deve cair.  No caso do Brasil, obviamente, tem relevância também a variável câmbio. Neste sentido, a forte desvalorização do real frente ao dólar nos últimos meses acaba jogando contra, pois um preço menor em dólares ou euros não necessariamente reflete em valores menores em reais. Mas este efeito não tem a ver com o mercado de vinhos, mas sim com a incompetência das autoridades econômicas brasileiras.

Bordeaux em baixa

Um exemplo de preços em baixa é Bordeaux, onde o preço dos vinhos é determinado na Place de Bordeaux, em um mercado onde interagem produtores, agentes de negociação, cooperativas e mercadores de vinho. Atualmente estão sendo negociados os vinhos da safra 2023 e as variações de preço em relação a 2022 são bastante significativas.

Um dos grandes vinhos da região, o Château Haut-Brion 2023, vem sendo negociado a € 312 por garrafa ex-négociant, um desconto de cerca de 39% em relação a 2022. Na mesma linha, quedas significativas de preço ocorreram para o Château Cheval Blanc 2023 (€ 384, -18%) e Château Ausone 2023 (€ 432, -22%). As variações, portanto, são significativas para alguns dos vinhos símbolo de Bordeaux.

Preços menores também na Borgonha

Na Borgonha, por sua vez, não existe um mercado organizado nos moldes daquele de Bordeaux. As negociações se dão com base em tabelas de preço divulgadas pelos produtores ou négociants.  Neste contexto, chamou a atenção a nova tabela da Domaine Joseph Drouhin. Um dos maiores négociants da Borgonha anunciou que os preços dos vinhos da safra 2022 serão cerca de 15% inferiores àqueles de 2021.

Frédéric Drouhin, presidente desta empresa, justificou em entrevista coletiva: “os clientes fiéis não conseguem mais acompanhar. As taxas de juros estão altas e os apreciadores estão prestando mais atenção aos preços.” Ele completou: “Temos uma bela safra 2022, com boa quantidade. A safra 2023 também é boa, mas temos que vendê-la. Precisamos voltar a acionar o mercado”. Vale lembrar que a Domaine Drouhin aumentou os preços em mais de 30% de 2020 para 2021, justificando menores volumes de produção.

Vale lembrar que este movimento reflete sinais vistos nos últimos meses. Os preços caíram cerca de 15% no leilão dos Hospices de Beaune em novembro do ano passado, frente a 2022. Já no leilão dos Hospices de Nuits, realizado em março de 2024, a queda foi ainda maior (30%), embora a qualidade dos vinhos seja considerada muito boa. Também evidenciando a mudança nas condições de mercado, alguns importadores brasileiros confidenciaram que foram procurados por vinícolas da Borgonha para checar se ainda há interesse por vinhos das novas safras. Isso contrasta com a situação há alguns meses, onde não havia possibilidade de obter alocações.

Fontes: WineNews; Wein Plus, Liv-ex, entrevistas com importadores

Imagem: Gerada via IA com Magic Media

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *