Last Updated on 27 de junho de 2022 by Wine Fun
Sem sombra de dúvida, o idioma que trouxe mais palavras para o mundo do vinho é o francês. Terroir, cru, perlage, délestage e glou glou são apenas algumas, hoje incorporadas no vocabulário do vinho ao redor do mundo. Algumas expressões ou termos, porém, seguem sendo usadas especificamente em algumas regiões da França.
E dentre as diversas regiões francesas, a Borgonha é aquela mais rica em termos, muitos deles fundamentais para entender como são classificados ou elaborados os maravilhosos vinhos desta região. E considerando a importância desta região, vamos focar em três deles: Climat, lieu-dit e clos.
Decifrando os Climats
O termo Climat é exclusivo da Borgonha e pode ser entendido como a expressão local da noção de terroir. Na Borgonha, um Climat refere-se a uma área de videiras, gradualmente e precisamente demarcada pelo homem, e que tem sido reconhecida pelo seu nome há séculos, muitas vezes desde a Idade Média. Cada Climat tem características geológicas, hidrométricas e de exposição específicas. A produção de cada Climat é vinificada separadamente, de uma única variedade de uva, e o vinho assim produzido leva o nome do Climat de onde vem suas uvas.
Esta definição evoluiu desde a Idade Média e tem muito a ver com a presença de abadias e monastérios na região, que ajudaram a moldar o cenário vinícola que conhecemos atualmente na Borgonha. Foi nesta época que os monges reconheceram que, a partir das uvas de um determinado vinhedo ou parcela dele, era possível elaborar vinhos de características diferentes, mesmo na comparação com a parcela vizinha. No contexto da Borgonha, o termo Climat é usado para descrever estas parcelas ou vinhedos.
Climats e denominações
Deste modo, não há uma definição oficial precisa para um Climat. Cada um deles tem uma história própria e reflete a evolução das parcelas ou vinhedos. Em termos gerais, foram os Climats que foram efetivamente transformados em denominações na década de 1930, sendo oficialmente adotados a partir de 1935.
Porém, nem todos os Climats são classificados como Premier Cru ou Grand Cru. De um lado, os Climats, geralmente, se referiam às melhores parcelas, e mais de 600 Climats deram origem aos Premier e Grand Crus. Porém, há mais de 1.200 Climats na Borgonha, então muitos deles representam outras classificações.
Independente de qual a classificação, os Climats são centrais para entender a Borgonha. Tanto que a partir de 4 de julho de 2015, eles foram incluídos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Talvez não haja uma forma melhor de entender a combinação entre história, povo e território na Borgonha do que isso.
E os lieux-dits?
Mesmo dentro da própria Borgonha há muita controvérsia sobre quais seriam as características que diferenciam um Climat de um lieu-dit. Até porque suas definições trazem muitos elementos em comum. Na França, um lieu-dit (lieux-dits, no plural) se refere a uma parte específica de uma parcela de terra ou região, reconhecida por suas próprias especificidades topográficas ou históricas. Parece uma definição muito próxima de Climat, não é verdade?
Embora muita gente coloque que um Climat seja composto de diferentes lieux-dits, isso não é necesariamente verdade. Por exemplo, dentro do Grand Cru de Echézeaux isso ocorre de fato, há dez liex-dits dentro de um Climat. Mas, por outro lado, o Climat de Clos des Epeneaux, em Pommard, é formado por parte dos lieux-dits de Les Grands Epenots e Les Petits Epenots.
A sutileza nas diferenças
As diferenças são sutis, mas existem. Em primeiro lugar, enquanto os Climats serviram como base para as denominações da Borgonha, os liex-dits não são registrados pelo INAO, que regula as denominaçãoes na França. Existe também uma questão geográfica envolvida, já que lieux-dits existem também na Alsácia e no Vale do Rhône, enquanto Climats são exclusivos da Borgonha.
Mas a forma mais simples de explicar a diferença talvez seja analisar a origem de cada uma das expressões. De um lado, a definição dos Climats evoluiu ao longo do tempo, sobretudo com base no trabalho dos monges. Já os lieux-dits foram criados de forma mais incisiva, por uma decisão governamental, em um momento onde os Climats já exisitiam.
De fato, os lieux-dits têm origem no registro de terras da França. Embora uma forma organizada de catalogar as terras fosse um sonho para sucessivos reis franceses (pensando, obviamente, na tributação), isso só ocorreu após a Revolução Francesa. Foi em 1807 que Napoleão Bonaparte conseguiu criar um registro unificado de terras, e daí vem a origem dos lieux-dits. Ao contrário dos Climats, desde modo, não tem uma relação direta com o vinho, é uma classificação geográfica, embora em muitos casos a relação acabe ocorrendo pela própria importância que a vinicultura tinha nesta época.
E os Clos?
Se diferenciar Climats de lieux-dits seja uma tarefa mais complicada, a definição de Clos é muito mais simples. Um Clos é uma área geográfica delimitada por muros, ou seja, que fica dentro de uma área cercada. O Clos de Vougeot é um bom exemplo, inclusive porque no passado era de propriedade de um único dono, o que não acontece mais atualmente.
Como uma parte significativa dos vinhedos era, em um certo momento histórico, propriedade quase que exclusiva do clero ou da nobreza, era natural que estas áreas fossem delimitadas de forma muito clara. E os muros de pedra eram a forma mais fácil de fazer isso. Esta tradição é muito antiga, há registro de Clos desde o século VII, como o Clos de Bézes, em Gevrey-Chambertin.
Independente do termo usado, a Borgonha é única. Os vinhos lá elaborados são o resultado da interação entre fatores geológicos, geográficos, climáticos, técnicos, culturais, históricos e humanos, cada um com suas particularidades. Não é à toa que a Borgonha seja a região francesa com maior quantidade de denominações e que seus vinhos sejam tão únicos e cheios de nuances.
Fontes: Vins de Bourgogne; The Climats and Lieux-Dits of the Great Vineyards of Burgundy: An Atlas and History of Place Names, Marie-Hélène Landrieu-Lassigny e Sylvain Pitiot; Wine Decoded; Decanter