Cameron Diaz lança vinho “limpo” e desperta polêmica

A combinação entre famosos e vinhos não chega a ser uma novidade. Desde jogadores de futebol, como Iniesta e Buffon, gente do cinema como Francis Ford Coppola, Antonio Banderas e Angelina Jolie, até músicos como Sting, Dave Matthews e Madonna, não faltam exemplos de celebridades que decidiram investir na produção ou comercialização de vinhos.

A mais recente integrante desta lista é Cameron Diaz, que se juntou à empresária Katherine Power para lançar Avaline, um linha de dois vinhos (um branco e um rosé), disponíveis nos Estados Unidos por US$ 24. Até aí, nada de novo, e confesso que sempre tenho um pé atrás com estas iniciativas de celebridades, mas não podemos julgar sem provar.

Porém, a dupla resolveu investir em um conceito que não para de crescer, o de vinhos de menor intervenção, chamado seu novo lançamento de “vinhos limpos” (clean wines). Na divulgação, deixaram claro que os vinhos atendem a três critérios: são elaborados a partir de uvas de agricultura orgânica, tem menor adição de aditivos e não utilizam substâncias de origem animal na elaboração, o que atende aos critérios da classificação de vinhos veganos.

As uvas são provenientes da França e da Espanha e, segundo informações da Avaline, são originárias de pequenos produtores. Escolheram um estilo de vinho mais leve, um rosé no estilo da Provence e um branco seco e mineral.

Porém, isso não foi suficiente para convencer algumas pessoas que defendem a causa dos vinhos naturais. O blog Vinography classificou o lançamento como uma “fraude comercial”, citando dois argumentos básicos que levaram a esta conclusão:

  •  “Os vinhos Avaline são, na verdade, apenas vinhos orgânicos produzidos comercialmente que têm vários aditivos que muitos enólogos de pequena produção não considerariam usar”. A argumentação é que estes vinhos passam por filtragem e colagem, usam leveduras comerciais e também substâncias para evitar a formação de cristais de tartarato.
  • “O marketing da Avaline perpetua o mesmo tipo de desinformação repudiada pelos mais dogmáticos dos enólogos naturais, servindo para enganar e assustar os consumidores de vinho desavisados”.

Em algum ponto da minha vida, aprendi que o copo quase nunca está totalmente cheio ou inteiramente vazio. Este é um caso típico. Da minha parte, acredito que qualquer iniciativa no sentido de redução da intervenção no vinho deve ser encarada como positiva. Usar agricultura orgânica implica em não usar pesticidas e herbicidas, algo que deve ser evitado não só na viticultura, mas em toda a agricultura.

Em relação às técnicas de vinificação, também vejo progressos. Aliás, sou do princípio que quem deve definir as técnicas é o enólogo, que certamente tem muito mais condições de avaliar o que é necessário ou não do que um consumidor normal. Talvez este vinho não atenda aos padrões de vinificação de muitos consumidores, mas já é um passo no caminho de menor intervenção e mais transparência. Cabe ao consumidor fazer o seu papel e escolher o que quiser, o que, porém, exige muito mais transparência sobre o que acontece no processo de vinificação do que temos hoje.

Por fim, a questão comercial é sempre relevante. Não são poucas as técnicas de marketing usadas para vender gato por lebre, e isso está longe de ser verdade somente no mercado de vinhos. Cada vez que vejo propaganda de alimentos e outros produtos voltados para o público infantil tenho uma irresistível vontade de reportar os abusos e mentiras.

Tentar vender um vinho como “limpo” é um conceito muito vago, até porque limpo é um conceito relativo: o que é limpo para um, pode não ser tão limpo para outro. De novo, voltamos à questão da transparência, que deveria, na minha opinião, ser muito maior, deixando que o consumidor escolha com base em informações detalhadas.

Se este vinho atende ou não às condições impostas ou crenças pessoais, cabe ao consumidor responder. Pessoalmente falando, possivelmente até compraria para provar, mas tenho a percepção que não atenderia aos meus critérios. Porém, no final das contas, o copo está meio cheio, mas também meio vazio, a percepção está nos olhos de cada um.

Imagem: Avaline, foto por Justin Coit

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *