Champagne em evidência: entrevista com Fabrice Rosset, CEO da Deutz

Last Updated on 13 de setembro de 2020 by Wine Fun

Fabrice Rosset é o CEO da Champagne Deutz desde 1996 e foi o principal arquiteto por trás de forte crescimento registrado pela empresa desde então. Na época, a produção total da Deutz era em torno de 600.000 garrafas ao ano, e este número vem crescendo rapidamente, atingindo cerca de 2,5 milhões atualmente.

Mas Rosset não está olhando para o passado. Em um ano difícil para todos no setor, por conta do impacto da COVID-19, a empresa está atenta às tendências atuais e aperfeiçoando continuamente sua forma de atuar, sobretudo dentro de uma contexto de maior sustentabilidade. Cautela com os obstáculos no caminho, mas sempre um tom otimista. Abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva de Fabrice Rosset ao WineFun:

Wine Fun (WF): A região da Champagne talvez seja uma das mais afetadas pelo impacto da COVID-19, com uma significativa redução da demanda por espumantes ao redor do mundo. Como isso está afetando a safra 2020?

Fabrice Rosset (FR): A decisão do Comité Interprofessionnel du Vin de Champagne (CIVC), que reúne os produtores e as grandes casas da região, foi uma decisão difícil para todos. Para se adequar à demanda, que caiu por conta da epidemia, foi decidido reduzir o rendimento dos vinhedos, até porque os estoques da indústria de Champagne estão altos. Com isso, teremos uma produção menor em relação ao potencial dos vinhedos e também uma queda frente ao ano passado.

WF: Esta decisão de cortar a produção através de menores rendimentos pode ter um impacto positivo sobre a qualidade? A princípio, um processo de seleção mais rigoroso por conta da decisão da CIVC não poderia resultar em vinhos de melhor qualidade?   

FR: A princípio sim, mas temos que nos lembrar que a safra 2020, de forma geral, foi muito boa, de modo que o corte não vai afetar tanto a questão da qualidade. Se fosse uma safra ruim, o impacto seria maior. Estamos vendo ótimas condições sanitárias para as uvas, especialmente para Pinot Noir e Pinot Meunier. A única dificuldade foi uma variação grande no perfil de maturação das uvas, não somente entre parcelas distintas, mas também muitas vezes até mesmo do mesmo cacho.

WF: A colheita de 2020 foi bastante prematura. O aquecimento global está realmente afetando Champagne tanto quanto algumas pessoas afirmam? Como os enólogos estão tentando compensar isso?

FR: Temos que olhar este fato de uma forma ampla. A primeira colheita que me envolvi na região foi em 1974, e o normal era que começasse na terceira semana de setembro. Este ano, por outro lado, começamos em torno de 20 de agosto, foi uma safra muito peculiar, a mais precoce desde que comecei no negócio.

No caso da Champagne, porém, esta alteração no padrão climático pode até ser vista como positiva para os vinhos. Mesmo com maiores temperaturas, o perfil de acidez ainda é muito bom, e, por outro lado, não existe qualquer necessidade de chaptalização. [NR – Chaptalização é o processo de adição de açúcares durante a fermentação, o que ocorria no passado por conta do baixo perfil de açúcares da uva, decorrentes de climas mais frios].

WF: O mundo está caminhando para práticas mais sustentáveis. Como a Deutz está se adaptando a essas novas demandas?

FR: A Champagne Deutz lançou um programa de sustentabilidade antes mesmo da própria definição atual de sustentabilidade existir. Quando assumi meu posto atual, em 1996, perguntei para o meu antecessor sobre isso e ele respondeu que nossos vinhedos sempre tiveram joaninhas. Em outras palavras, o uso de pesticidas e herbicidas sempre foi bastante moderado na Deutz.

Mas ainda assim, avançamos mais. Agora temos as certificações Viticulture Durable en Champagne e Haute Valeur Environnementale, que evidenciam nossos cuidados nos vinhedos. Como trabalhamos também com uvas de agricultores parceiros, incentivamos o cultivo sustentável, com orientação a estes agricultores e até mesmo bonificação no cumprimento de metas de sustentabilidade em seus vinhedos.

Na questão da vinificação, também estamos atentos à questão de carbon footprints (pegada de carbono) e somos certificados.

WF: Qual é o maior diferencial da Deutz, quais seriam as características que melhor descrevem os Champagnes elaborados pela empresa?

FR: Nosso objetivo é buscar uma combinação entre uma boa presença de frutas e a elegância nos vinhos, é o ponto em comum entre nossos 13 cuvées. Para chegar a isso, temos que escolher muito bem o dia da colheita, existe um ponto exato na transição entre notas vegetais e frutadas na uva, para que possamos alcançar a elegância correta. Acreditamos que o mais importante para qualquer vinho é a elegância.

WF: Em termos de técnicas de vinificação, quais seriam os grandes diferencias da Deutz? Qual a visão de vocês sobre Champanhe e envelhecimento no carvalho?

FR: Não vemos necessidade de passar nossos vinhos por madeira. Não tenho nada contra madeira, inclusive sou CEO de uma vinícola do Vale do Rhône, que tem mais de 800 barricas. Porém, o envelhecimento em madeira não encaixa no estilo dos Champagnes que elaboramos na Deutz.

Usamos somente tanques de aço inoxidável para o élevage de nossos vinhos, mesmo para manter as safras mais antigas. Por conta deste perfil mais frutado e mais fresco, não temos necessidade da complexidade que a madeira traz.

Sobre técnicas específicas, todos os nossos vinhos passam por fermentação maloláctica. Além de manter o perfil que sempre caracterizou nossos Champagnes, acreditamos que a questão da passagem por fermentação malolática não afeta, como muita gente diz, a longevidade dos vinhos. Temos muitos champagnes antigos em nossa adega, das décadas de 1970 e 80, por exemplo, que se mantém muito frescos e de extrema qualidade até hoje.

WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na Champagne? Qual é a sua resposta para isso?

FR: Tivemos anos bem tranquilos antes do COVID-19. Talvez a questão ambiental, refletida em maiores temperaturas, nos afete de três formas, o que nos leva a ter que tomar cuidados adicionais. Por conta de anos secos e da consequente falta de água, os cachos têm se mostrado menores com o tempo, até por conta do perfil de retenção de água de nossos solos de calcário.

Devemos dar mais atenção também ao ponto de equilíbrio entre os aromas vegetais e frutados, que mencionei anteriormente, por conta de colheitas mais prematuras. Por fim, há a questão da heterogeneidade das uvas, que vem aumentando nos últimos seis ou oito anos.

WF: Qual foi sua safra favorita desde que começou na Deutz?

FR: A safra 2002 foi extraordinária, os vinhos têm uma qualidade impressionante. Posso mencionar 1982 em um passado mais distante, já que também foi uma safra muito sedutora. Ambas refletem muito bem a visão pessoal que tenho deste aspecto sedutor do Champagne.

WF: Mencione algumas de suas músicas favoritas

FR: Posso mencionar duas, talvez não somente pela música em si, mas pela forma na qual foram interpretadas. A primeira seria Quand on n’a que l’Amour, do belga Jacques Brelle, uma interpretação linda e muito emocionante. Citaria também Memories, na interpretação de Barbra Streisand, por conta de sua voz fantástica.

WF: Dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto

FR: Sobre vinhos, excluindo livros de cunho mais técnico, citaria Vinho & Guerra: Os Franceses, os Nazistas e a Batalha pelo Maior Tesouro da França, de Don e Petie Kladstrup.

Já sobre temas mais amplos, citaria um livro que li na minha juventude, quando não tínhamos a consciência sobre meio ambiente que temos hoje. Apesar disso, foi um livro que me marcou muito, podia sentir a força da natureza, como se estivesse interagindo direto, somente pela leitura. O nome do livro é La Derniere Harde, de Maurice Genevoix.

WF: Fale sobre quaisquer aspectos adicionais de sua atividade que você gostaria de discutir

FR: Estamos vivendo uma situação difícil atualmente por conta da COVID-19, mas precisamos manter o otimismo, até levando em conta o que outras gerações que nos antecederam sofreram.

Nestes momentos, se o Champagne pode trazer uma modesta contribuição, ele é um vinho de celebração. Esperamos que esta visão de otimismo seja refletida, em algum momento não muito distante, em alguma forma de celebração, sempre dentro de todo o respeito pelos que estão sofrendo com esta terrível pandemia.

Imagem: Champagnes Deutz

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