Châtillonnais: os encantos da fronteira norte da Borgonha

A região de Châtillonnais, situada no extremo norte da Borgonha, é frequentemente um enigma para aqueles quem não é familiarizado com a Borgonha. A ausência de uma denominação de origem específica (AOC) pode suscitar questionamentos sobre sua relevância. No entanto, sua localização estratégica revela seu potencial distintivo. Châtillonnais está mais próxima da Côte des Bar em Aube, região produtora de Champagne, do que de qualquer outro local na Borgonha. Se situa a 65 km a leste de Chablis e 130 km a noroeste de Beaune.

Esta proximidade geográfica justifica a especialização da região na produção de espumantes, em particular do Crémant de Bourgogne. Com aproximadamente 400 hectares de vinhedos distribuídos por 23 municípios, Molesme é o principal village, respondendo por um quarto da produção total. Notavelmente, 85% das uvas cultivadas são destinadas à produção de Crémant.

imagem: www.bourgogne-wines.com

Além da viticultura, Châtillonnais é reconhecida por suas florestas de carvalho, que produzem uma madeira de alta qualidade e granularidade fina, altamente valorizada na confecção de barricas usadas no envelhecimento de vinhos de alta qualidade.

A tradição do Crémant de Bourgogne

A produção de espumantes em Châtillonnais possui raízes profundas, remontando ao século XIX, quando os vinhos espumantes locais rivalizavam em prestígio com os de Champagne, chegando até a incorporar o renomado nome em seus rótulos. Com a delimitação e proteção da região de Champagne, as áreas produtoras vizinhas adotaram a denominação Crémant como alternativa. Curiosamente, antes da oficialização da AOC, a maioria das uvas da região era vendida para produtores de Champagne.

Desafios como a infestação de filoxera no final do século XIX e a decadência econômica da região de Grand Auxerre resultaram em uma significativa redução dos vinhedos. No entanto, a região revitalizou-se no final do século passado, como por Robin Kick MW, num webinar na Wine Scholar Guild e que serviu de base para essa coluna.

Atualmente, a AOC Crémant de Bourgogne é a segunda maior produtora de Crémants na França, superada apenas pela Alsácia, e a terceira em volume de produção na Borgonha, atrás de Chablis e Mâcon. Embora 85% das uvas da região sejam destinadas ao Crémant de Bourgogne AOC, o restante é utilizado em diversas outras denominações, como Bourgogne AOC, Coteaux Bourguignon, Passe-tout-grains, Vin de France e Ratafia.

Com 55 produtores de uvas e 22 de vinho, a região é caracterizada por famílias locais com tradição vitivinícola. Contudo, observa-se recentemente a chegada de novos produtores, principalmente oriundos de Champagne, atraídos pelo custo mais acessível da terra em Châtillonnais em comparação com a Côte de Bar.

Comparação geográfica com a Côte de Bar

Robin Kick destaca algumas similaridades e diferenças entre Châtillonnais e Côte de Bar. Ambas as regiões possuem solos semelhantes, embora a presença de argila seja mais marcante na Côte de Bar. As temperaturas são comparáveis, mas Châtillonnais apresenta menor altitude e exposição solar menos favorável.

Essas características contribuem para que os vinhos de Châtillonnais sejam colhidos alguns dias antes e apresentem um perfil mais mineral e leve em comparação com os da Côte de Bar. Esta singularidade tem impulsionado a produção de espumantes de alta qualidade na região, despertando o interesse de produtores de outras áreas, especialmente de Champagne, em adquirir terras em Châtillonnais. Em resumo, Châtillonnais, com sua rica história vitivinícola e características geográficas distintas, emerge como uma região promissora na produção de espumantes e vinhos de qualidade na Borgonha.

Produtores para ficar de olho

A região é pequena. Possui 55 produtores de uva e apenas 22 produtores. Pelo menos por enquanto. Não existe uma cooperativa na área. Mas é importante ressaltar que a maioria dos produtores que não engarrafam suas uvas, as vendem para a Veuve Ambal, que possui uma boa estrutura para visitas.

Interessante observar que o rótulo mais conhecido desse produtor (foto abaixo) pode ser considerado um espumante de “combate”. Comercializado no Brasil pela importadora World Wine por R$ 165, está posicionado numa faixa de preço que compete diretamente com alguns espumantes nacionais, mas entregando uma qualidade muito superior.

Disponível no Brasil

Para além dos rótulos de entrada, alguns outros produtores de destaque, mas sem uma distribuição regular no Brasil são: Domaine Bouhélier, Domaine Bruno Dangin, Domaine Dame Jeanne, Domaine Pierre Rousseau, Domaine Vicent Couche, Domaine Gheeraert.

Em resumo, Châtillonnais, com sua rica história vitivinícola e características geográficas distintas, emerge como uma região promissora na produção de espumantes e vinhos de qualidade na Borgonha. Vale conhecer.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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