Auxey-Duresses: vinhos de custo atrativo na Borgonha

O aquecimento global está afetando profundamente muitas regiões produtoras de vinho no mundo. Se as temperaturas mais altas e os climas mais secos são encarados como prejudiciais para muitas áreas, a Borgonha, por outro lado, acabou se beneficiando desta tendência. E, dentre as diversas denominações de origem desta parte da França, talvez Auxey-Duresses tenha sido uma das mais favorecidas.

Isso tem a ver com sua posição geográfica. A maioria dos vilarejos da Côte d’Or está situada no eixo norte-sul, que vai de Dijon a Les Maranges, ao longo do vale do rio Saône. Já Auxey-Duresses está localizada no vale criado pelo Ruisseaux des Cloux, estendendo-se no eixo oeste-leste, de Saint-Romain a Volnay e Meursault. Por conta disso, é uma região de temperaturas mais baixas, pois recebe diretamente os ventos mais frios provenientes das Hautes-Côtes de Beaune.

No passado, isso era uma desvantagem, pois historicamente era uma área onde as uvas tinham dificuldade para atingir a maturidade ideal. Nas últimas décadas, porém, isso mudou. Atualmente, Auxey-Duresses é encarada como uma denominação de ótimas condições e potencial, tanto para vinhos brancos quanto para tintos. E o melhor: ainda a preços muito mais acessíveis do que a maioria das regiões vizinhas.

Uma longa história

O vilarejo de Auxey-Duresses teve origem na época da ocupação romana da Gália, quando era conhecido como Aulaciacum. Até hoje existem resquícios de uma estrada romana que ligava Beaune a Autun e seguia o Ruisseaux des Cloux. Embora não existam registros exatos sobre os princípios da vinicultura na região, sabe-se que os monges cistercienses chegaram à região no século XI.

Os registros no século XIX, porém mostram que a região já era conhecida pela sua produção de vinhos, sobretudo antes da filoxera. Na época, parte de seus vinhos era comercializada como Volnay, Pommard ou Meursault. Até por conta da qualidade de seus vinhedos, o nome original do vilarejo, Auxey-le-Grand, passou a incluir o nome de seu principal vinhedo, Les Duresses, em 1928. A denominação de origem Auxey-Duresses foi criada em 1937.

Uvas e vinhos

Atualmente, a denominação de origem Auxey-Duresses tem uma área demarcada de 169,63 hectares, dos quais 31,76 hectares (19%) são classificados como Premier Cru. Cerca de 83% da área demarcada está atualmente em produção (140,9 hectares), com quase dois terços plantados com Pinot Noir, que concentra 65% dos vinhedos em atividade. Os demais 35% são cultivados com Chardonnay.

A produção média entre 2014 e 2018 foi de 5.650 hectolitros, que correspondeu a apenas 2,4% do total da Côte de Beaune no mesmo período. Desta produção, cerca de 21% foram classificados como Premier Cru.

Em termos de estilo, refletindo as temperaturas mais frescas, os vinhos brancos mostram alta acidez e menor estrutura e presença de frutas mais discreta tanto no olfativo como no gustativo do que seu vizinho Meursault. Diversos críticos os colocam em um patamar acima dos tintos, que são considerados um pouco mais rústicos e intensos, em um estilo que lembra mais Pommard do que Volnay.

Peculiaridade

Além de sua posição geográfica, outro fator diferencia Auxey-Duresses de outras denominações de origem da Côte d’Or. Se os sistemas de condução e poda de videiras Guyot e Cordon Royat dominam a região, cerca de 20% a 25% dos vinhedos de Auxey-Duresses são cultivados com sistema de lira.

É o único vilarejo da Côte d’Or com autorização para este sistema de condução (mais comum em regiões frias, como as Hautes-Côtes). Porém, vale lembrar que as videiras conduzidas desta forma podem permanecer assim enquanto as plantas atuais forem produtivas, já que, em caso de replantio usando lira, isso levaria os vinhos a serem desclassificados para a categoria Vin de France. Isso ajuda a compor o mosaico de classificações na região, já que atualmente muitos produtores preferem comercializar seus vinhos tintos como Côtes de Beaune Villages     

Geologia e vinhedos

A posição geográfica de Auxey-Duresses é praticamente única entre os diversos vilarejos da Côte d’Or. É uma denominação com características bastante heterogêneas dependendo da localização de seus vinhedos, que podem ser divididos em três grupos bem distintos. Os mais distantes do vilarejo ficam a oeste, logo acima da aldeia de Mélin. Nesta área, mais fria que as demais, a Chardonnay predomina, e a maioria dos vinhedos apresenta exposição leste.

Também no grupo de vinhedos que fica ao sul do vilarejo, nas encostas no Mont Melian, a Chardonnay é majoritária, até por conta de sua proximidade com os vinhedos de Meursault. Ao contrário destes, porém, a exposição predominante é norte-leste, o que ajuda a explicar a diferença no estilo dos vinhos.

O principal bloco de vinhedos, porém, fica ao norte do vilarejo, sobretudo nas encostas da Montagne du Borbon e da Montagne du Tillet. Este conjunto, com vinhedos de exposição sul-sudeste, começa na divisa com Monthélie e se estende na parte norte do vale, passando pela aldeia de Petit-Auxey, que fica na direção de Saint-Romain.

Principais destaques

Auxey-Duresses atualmente possui nove climats classificados como Premier Cru (em laranja no mapa acima), todos eles no bloco de vinhedos ao norte do vilarejo, próximos a Monthélie. Dentre eles, o de melhor reputação é Les Durresses, com quase oito hectares de extensão. Além de dar nome ao vilarejo, é compartilhado com Monthélie (onde ficam 6,7 hectares adicionais).  

Além de Bas de Duresse, Reugne e Les Bréterins, chama a atenção também o vinhedo Climat du Val, que, com 8,4 hectares, é o maior Premier Cru de Auxey-Duresses. Nesta fração da colina, porém, o maior destaque fica com o climat Clos du Val, considerado o melhor vinhedo e atualmente um monopole de posse das duas vinícolas da família Prunier. Dentre os vinhedos village, Les Boutonniers e Les Hautés, ambos na divisa com Meursault, são ótimas opções.

Produtores em evidência

Embora haja um pequeno número de produtores de maior destaque em Auxey-Duresses, uma vinícola chama a atenção. É o vilarejo de origem da Domaine Leroy e, até hoje, sede da Maison Leroy, a divisão de négoce da família. Às margens do Ruisseaux des Cloux, a imponente construção é o local de elaboração de vários dos mais caros e exclusivos vinhos da Borgonha.

A Maison Leroy, às margens do Ruisseaux des Cloux

Embora o principal foco da Leroy fique nos vinhedos Grand Cru de outras denominações, ela também elabora uma cuvée a partir de seus vinhedos no vilarejo: o Auxey-Duresses Les Lavières. É, de longe, o mais caro vinho desta denominação de origem. Outros produtores que, embora longe da pompa da Domaine Leroy, também chamam a atenção são Domaine Jean & Gilles Lafouge, Michel Prunier e Domaine des Terres de Velles. 

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; Burgundy Report

Mapa: Vins de Bourgogne

Imagens: Arquivo pessoal

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