Desaceleração de preços na Borgonha: podemos ficar animados?

Na coluna de janeiro de 2023, discutimos se haveria um limite para o aumento dos preços dos vinhos. Dois anos depois, voltamos ao tema, desta vez analisando a evolução dos preços dos rótulos considerados blue chip da Borgonha, com base em dados coletados pelo Bordeaux Index.

Qual a elasticidade de preço do vinho?

Tenho em casa um catálogo da antiga e saudosa importadora Expand, datado de 2006. Naquela época, os preços dos vinhos eram registrados em dólar, uma prática comum em um país que ainda guardava a memória inflacionária dos anos anteriores ao Plano Real.

Folhear esse catálogo é um verdadeiro ato de masoquismo. A pergunta que sempre me ocorre é: “Como deixei escapar tantos vinhos excepcionais a esses preços?” Haut-Brion, Château Latour e Domaine Dujac por menos de US$ 100 são apenas alguns exemplos.

A segunda década do século XXI foi marcada por uma forte valorização dos vinhos, mas o consumo não acompanhou essa alta na mesma proporção. O que ocorreu foi um processo de “gourmetização”, que impulsionou os preços, mesmo com uma queda no volume de vendas.

Ao investigar as razões para a desaceleração do consumo de Champagne nos EUA em 2022, um mercado que havia registrado forte alta de preços no período pós-pandemia, importadores notaram uma migração dos consumidores para o espumante italiano Prosecco. Esse fenômeno foi abordado na edição de 29 de dezembro de 2022 do Wall Street Journal, em um artigo assinado por Jennifer Maloney, intitulado Economy Has Drinkers Choosing Prosecco. O fator determinante para essa troca? O preço.

O caso dos “vinhos blue chip” da Borgonha

A Bordeaux Index é uma organização que comercializa, analisa e fornece dados sobre o mercado de bebidas finas, com foco especial em uísques e vinhos. Suas análises são frequentemente utilizadas pela Decanter Magazine.

Segundo essa organização, os preços dos vinhos da Borgonha começaram a desacelerar a partir do final de 2022. A série histórica ainda é limitada para se tirar conclusões definitivas, mas vale lembrar que essa categoria engloba alguns dos vinhos mais nobres do mundo, onde a oferta é estruturalmente inferior à demanda. Isso se reflete na forma de comercialização, tradicionalmente realizada por cotas ou, como é comum no mercado de vinhos, por alocação. Nesse contexto, o preço é uma das poucas variáveis que podem se ajustar.

Onde há fumaça, há fogo?

Recorro ao velho ditado popular para sugerir que a recente desaceleração dos preços dos grandes vinhos da Borgonha pode ser um indicativo de uma tendência maior. No entanto, seria precipitado afirmar que essa mudança já se consolidou.

Nem todos compartilham essa visão. O próprio relatório da Bordeaux Index, elaborado pela Fine Wine & Spirit, indica que alguns colecionadores tradicionais, com visão de longo prazo, estão adotando uma postura oportunista e aproveitando o momento para reforçar suas adegas. O documento destaca, por exemplo, uma recuperação significativa nos volumes comercializados de produtores como o Domaine de la Romanée-Conti (DRC) e Domaine Armand Rousseau nos primeiros nove meses de 2024.

Entretanto, há visões divergentes dentro desse sofisticado mercado. A Liv-ex, um dos principais marketplaces de vinhos finos, apontou uma queda no bid-to-offer ratio (taxa de lances em leilão) desde 2023. Um dos vinhos particularmente afetados foi o Echezeaux do DRC. Além disso, os dados recentes sugerem que o La Tâche do DRC pode ter atingido seu teto de preço. Tudo isso deve ser analisado à luz do dramático aumento de preços registrado nos últimos 20 anos.

Mas afinal, podemos ficar animados?

Diante de tudo isso, a resposta mais honesta seria: depende – e ainda não. Apesar da falta de dados definitivos, arrisco dizer que finalmente estamos nos aproximando de um teto de preços. Mas isso não significa, necessariamente, uma boa notícia. Afinal, os valores já atingiram patamares absurdamente elevados.

Especulando um pouco mais, acredito que o mercado de vinhos de luxo está caminhando para um estágio de maturidade semelhante ao de outros segmentos consolidados. Resta saber se essa estabilização será apenas um respiro temporário ou o início de uma nova era para os vinhos blue chip.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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