Escolhendo seu vinho: conheça as safras do Etna desde 2010

Como em praticamente todas as regiões produtoras de vinhos de alta gama do mundo, o Etna começou a sofrer de forma mais intensa os impactos do aquecimento global desde o início dos anos 2000. Até então, existia uma regularidade maior de safras, com invernos muito mais frios e verões secos, com picos de temperaturas nas duas estações. Isso, porém, mudou, com invernos mais amenos e primaveras e verões muito mais instáveis, onde calor extremo e chuvas recorrentes se tornaram realidade, dependendo do ano.

Por conta disso, antes de escolher qual vinho do Etna comprar, vale a pena conhecer melhor as condições de cada safra, até para entender melhor as características dos vinhos e se elas se adequam ao seu gosto pessoal.

2023

Inverno ameno e seco, com um poco de neve em fevereiro. Se a primavera foi bastante seca e, em maio e junho, choveu muito acima da média, com explosão de míldio no período de floração. O verão foi mais seco, mas a recuperação do ataque de míldio foi lenta, além de eventos de granizo. A maturação variou bastante de acordo com a localização das vinhas e intensidade do míldio e/ou granizo. Uma das menores safras da história em termos de quantidade (perdas cima de 70%), com vinhos sem grande destaque.

2022

Inverno chuvoso e primavera seca. Clima quente e muito seco até agosto, com sintomas de estresse hídrico em muitos vinhedos. Chegada de chuvas em meados de agosto permitiu bom desenvolvimento fenólico, com setembro e outubro mais secos. Boa safra para a Nerello Mascalese, com longo ciclo vegetativo.

2021

Safra quente e muito seca, eventos de granizo em julho, derrubando a produção. Chegada de um volume mediano de chuvas no outono evitou maior estresse hídrico e equilibrou a maturação fenólica, dando origem a vinhos com muito volume e intensidade, porém de acidez mais baixa. Qualidade varia de acordo com a cuvée e o momento escolhido para colheita.

2020

Inverno regular, seguido por primavera e verão regulares, embora com alguns picos de calor. Safra excelente para os vinhos tintos, possivelmente superando 2019, com vinhos combinando profundidade, elegância e potência. Para os brancos, também muita intensidade, porém menos tensão.

2019

Inverno frio e chuvoso, segundo até a primeira parte da primavera. Clima seco durante o período de junho a agosto, sem excesso de calor. Safra que gerou vinhos clássicos, que lembram aqueles de 2016, com destaque para os tintos, embora os brancos também tenham mostrado ótima qualidade. Porém, não foi uma safra unânime. Para a maioria, uma safra para ficar na memória, para outros uma colheita com vinhos com tensão e equilíbrio, porém sem grande poder de evolução. O tempo dirá quem está certo.

2018

Salvo Foti descreveu 2018 com uma só palavra: horrível, enquanto Frank Cornelissen a considerou difícil, com vinhos de qualidade “média”. Muita chuva durante o verão e o outono geraram problemas com maturação das uvas e maior incidência de doenças fúngicas nos vinhedos. Vinhos tintos mais ralos e sem grande expressão. Safra melhor para brancos e rosados, que conseguiram obter mais frescor e acidez mais marcante.

2017

Safra muito quente e seca desde o início, levando muitas videiras ao estresse hídrico. Por conta disso, muitos vinhos não têm notas tão maduras ou álcool tão elevado, mas são mais curtos e menos complexos. Não é uma safra com grande potencial de guarda, na qual as vinhas velhas tiveram um resultado muito melhor que as demais.

2016

Inverno ameno e primavera relativamente quente até maio, quando temperaturas caíram. Verão sem excessos, com muitas chuvas isoladas. Safra de alta qualidade, vinhos equilibrados e elegantes. Considerada uma das melhores da década, juntamente com 2014.

2015

Inverno e primavera frios, mas verão teve temperaturas mais altas, com diversos eventos de chuvas extremas. Vinhos mais clássicos e que necessitam de mais tempo para atingir janela ideal. Não teve o mesmo destaque que 2014 e 2016, mas ainda assim gerou vinhos de alta gama.

2014

Clima ameno no inverno e primavera chuvosa. Tempo se estabilizou com verão quente, porém com noites frias, criando uma significativa amplitude térmica e maturação perfeita das uvas. Os vinhos, sobretudo os tintos, oferecem muita estrutura, alta acidez e excelente riqueza no paladar. Ótima safra, uma das melhores da década.

2013

A partir de agosto as chuvas dominaram o clima, com temperaturas abaixo da média. Isso criou problemas para a maturação das uvas e deterioração das condições sanitárias dos vinhedos. Safra difícil para os produtores, vinhos mais austeros e de qualidade bastante variável.  Os vinhedos do norte do Etna tiveram um desempenho melhor do que os da face leste. Embora os rendimentos tenham sido menores do que o normal, a acidez foi pronunciada, gerando tintos austeros, porém com bom caráter varietal.

2012

Inverno foi morno e seco, assim como a primavera. Verão foi muito quente, com redução da produção e vinhos com alto teor alcóolico para os produtores que colheram cedo. O tempo foi chuvoso a partir de outubro, com temperaturas abaixo da média. Quem colheu mais tarde foi recompensado com uvas com melhor equilíbrio entre açúcar e acidez. Porém, não foram poucos que tiveram problemas com a maturação das uvas e a deterioração das condições sanitárias dos vinhedos.

2011

Inverno mais seco, com primavera curta, mas chuvosa. Tempo se firmou com verão longo e quente e outono de tempo muito bom. Safra muito boa, com vinhos mostrando alta acidez e estrutura, juntamente com bom caráter varietal e excelente harmonia. Para Frank Cornelissen, foi uma safra excepcional, com alguns vinhos únicos.

2010

Inverno amenos e chuvoso permitiu acumulação de água no solo. Condições agradavam até setembro, quando o tempo se tornou chuvoso e comprometeu a qualidade das uvas. Safra mediana, com vinhos de corpo médio e boa acidez.

Fontes: Consorzio Etna DOC; Etna: I Vini del Vulcano, Salvo Foti; The New Wines of Mount Etna: An Insider’s Guide to the History and Rebirth of a Wine Region, Benjamin Spencer; Entrevistas com diversos produtores; Guida ai vini dell’Etna; Frank Cornelissen; Tenuta di Felsina; Wine Scholar Guild; Wine in Sicily

Imagem: Arquivo pessoal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *