Last Updated on 14 de agosto de 2021 by Wine Fun
Se a Borgonha talvez seja a região vinícola mais admirada do mundo, não faltam motivos para tentar analisar cada uma de suas partes individualmente. Seus vinhedos carregam uma tradição secular, com um destacado papel das ordens religiosas na definição e demarcação das áreas de plantação. Assim, a tentação para associar as diferentes denominações de origem a estilos de vinhos é enorme.
E o que dizer da denominação de origem de Gevrey-Chambertin? Ela é a maior dentre as principais da Côte D’Or especializadas exclusivamente em vinhos tintos, com cerca de 550 hectares de vinhedos de Pinot Noir. Em uma análise mais superficial, é uma denominação que produz vinhos mais tânicos e de maior estrutura, em oposição à finesse e elegância de Chambolle-Musigny, por exemplo. Porém, a realidade é que Gevrey-Chambertin é uma região muito heterogênea, e isso tem muito a ver com sua geografia e formação geológica.
Entendendo sua geologia
Para melhor entender o estilo de seus vinhos, vale a pena olhar de perto seu perfil geológico. De forma geral, podemos dividir Gevrey-Chambertin em três zonas distintas do ponto de vista geológico e isso ocorre, sobretudo, por conta da presença de falhas geológicas dentro dos limites desta denominação. Estas falhas, chamadas de Combe em francês, são vales profundos que cortam as colinas onde estão os seus principais vinhedos.
A principal falha é a Combe Lavaux, que fica na parte superior central do mapa abaixo e criou um cone aluvial de cerca de 3 quilômetros nas partes mais baixas da denominação, praticamente englobando toda a parte urbana do vilarejo de Gevrey-Chambertin (em cinza). E foi a partir de seu impacto sobre a região que Gevrey-Chambertin é dividida em três zonas: este cone aluvial, as áreas mais ao sul, e as parcelas mais a noroeste do vilarejo. E cada uma destas três parte dá origem a vinhos de características distintas.

Três áreas distintas
A área do cone aluvial é uma destas zonas, compreendendo cerca de 50% dos vinhedos da denominação. Formado há cerca de 20.000 anos, por conta do efeito da Combe Lavaux, seu solo é basicamente aluvial. São solos profundos com uma grande proporção de seixos de cascalho, chamados de galet na Borgonha, e menor proporção de calcário que as outras zonas. A grande maioria dos vinhedos nesta zona é classificada dentro da categoria Village (destacados em verde claro), tanto por conta de sua composição de solo como inclinação e orientação.
A segunda zona pode ser caracterizada como aquela onde ficam as parcelas a noroeste do vilarejo, já em maior altitude (280 a 350 metros) e orientação leste ou sudeste. São vinhedos que ficam entre a Combe Lavaux e os limites norte da denominação, no vilarejo de Brochon. A composição do solo varia de acordo com a altitude, mas é muito diferente da primeira zona, pois traz uma proporção muito mais alta de calcário A maioria dos 26 vinhedos Premier Cru de Gevrey-Chambertin (destacados em laranja) fica nesta zona, com destaque para Le Clos Saint Jacques e Les Cazetiers.
Por fim, a terceira zona começa na Combe Lavaux e segue na direção sul, em direção a Morey-Saint-Denis. São vinhedos de orientação leste, em altitudes entre 260 e 300 metros, com inclinações menos íngremes que na segunda zona. Outro diferencial é seu solo avermelhado com grande concentração de calcário, que para muitos, é o diferencial por trás dos taninos mais firmes desta zona. É nesta parte de Gevrey-Chambertin que se situam seus nove vinhedos classificados como Grand Cru (destacados em roxo). São eles: Chambertin, Chambertin-Clos de Bèze, Charmes-Chambertin, Mazoyères-Chambertin, Chapelle-Chambertin, Griotte-Chambertin, Latricières-Chambertin, Mazis-Chambertin e Ruchottes-Chambertin.
Uma denominação heterogênea
Esta divisão com base no perfil geológico pode ajudar a explicar por que Gevrey-Chambertin pode ser considerada como uma denominação de vinhos de estilo heterogêneo. Em áreas de grande proporção de calcário de alta qualidade, os vinhos mostram taninos mais firmes e intensos, em um estilo que alguns produtores descrevem como “potência com elegância”.
No entanto, é difícil generalizar, já que o estilo de vinificação varia entre os diversos produtores da denominação. Por exemplo, a Domaine Armand Rousseau, um dos mais reconhecidos produtores de Gevrey- Chambertin, se destaca pela elegância de seus vinhos, o que o colocaria fora do “padrão” de vinhos mais potentes e taninos mais firmes da denominação. Há um limite para o quanto a geologia pode influenciar as características de um vinho, porém, não há dúvidas de que traz uma contribuição muito importante.
Fontes: World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Vins de Bourgogne
Imagem: Vins de Bourgogne