Filoxera: a praga que mudou o universo do vinho para sempre

Filoxera é uma palavra que até hoje tem um significado muito particular no mundo do vinho. Esta enfermidade, que atacou as videiras de praticamente todos os continentes no século XIX, trouxe consequências que ajudaram a moldar a vinicultura moderna.

A destruição trazida por um pequeno inseto mudou o mundo no século XIX. De um lado, milhares de hectares de videiras foram perdidos, com imensas perdas para economias que dependiam muito mais do vinho do que hoje. Por outro lado, iniciou a corrida para novas regiões. Rioja, Penedés e mesmo Mendoza, na Argentina, possivelmente não seriam o que são hoje se não houvesse ocorrido a filoxera.  

O que é a filoxera

O nome filoxera é usado tanto para denominar a doença que destruiu uma parte significativa dos vinhedos do mundo, mas também o seu causador. O pequeno pulgão amarelo que mudou o mundo do vinho para sempre recebeu, ainda na década de 1860, o nome de phylloxera vastatrix, ou o exterminador de vinhas.

Com um ciclo de vida bastante complexo e uma grande capacidade de sobrevivência, este pequeno inseto ataca várias partes da videira. Desde folhas até suas raízes são atacadas, com o pulgão extraindo das plantas componentes vitais. Isso abre caminho para que outras pragas, sobretudo fungos, ataquem as raízes e efetivamente matem as plantas.

Origem

A filoxera foi trazida da Costa Leste da América do Norte para a Europa, possivelmente no final da década de 1850, escondida nas raízes de mudas de uvas americanas, da espécie Vitis Riparia. Na época, eram comum as experiências com espécies de outros continentes, mas ninguém imaginaria o impacto que isso poderia trazer. Embora tenha funcionado como portadora e transmissora da filoxera, a Vitis Riparia não é afetada, pois desenvolveu defesas naturais contra o pulgão.

Na Europa, porém, o cenário era distinto. A espécie de vinha predominante, a Vitis Vinifera, por ser originária da Europa e oeste da Ásia, não tinha qualquer defesa contra este predador, originário da América do Norte. E efeito foi devastador.

Primeiros casos e destruição das vinhas

Em 1866, um produtor francês no sul de Rhône, aproximadamente a meio caminho entre Avignon e Orange, relatou a morte de um bloco de videiras. Em pouco tempo as folhas tinham ficado amarelas e secado, e, pouco depois as videiras morreram. Embora já existissem menções de casos isolados anteriores, este episódio foi decisivo. Mas isso foi somente o começo, em dois anos a praga se espalhou e o governo francês criou uma força-tarefa para investigar o que estava ocorrendo.

As videiras mortas, uma vez exumadas, não revelaram nada além de raízes doentes e apodrecidas. No entanto, as plantas diretamente adjacentes à infecção, no entanto, estavam repletas de pequenos pulgões amarelos quase microscópicos. Mas ninguém sabia como conter o problema. Após destruir os vinhedos de boa parte do Languedoc e Provença, a filoxera chegou a Bordeaux em 1869, onde infectou 100.000 dos 170.000 hectares da região.

Uma praga universal

Na mesma época já havia chegado também à região do Douro, destruindo as videiras locais e levando muitos dos tradicionais fabricantes de vinhos do Porto è falência. Em pouco tempo, chegou à Itália, Espanha, Alemanha, Suíça e Áustria, além de atingir vinhedos em outras regiões da França, chegando por fim à Champagne, em 1888.

Mas a marcha da praga não se restringiu à Europa. A filoxera foi registrada pela primeira vez na Austrália em 1875 e na África do Sul em 1886. A ameaça era de uma devastação semelhante à ocorrida na Europa. Com algumas exceções, praticamente todas as grandes regiões produtoras de vinho foram afetadas.

Solução para conter a filoxera

Uma enorme variedade de medidas foi tentada para tentar conter a filoxera. Alagar os vinhedos, pulverizar as videiras com substâncias tóxicas, até enterrar sapos nos vinhedos, foram algumas das medidas adotadas. Como nada funcionou, restou uma solução radical: combater o inimigo usando quem já tinha resistência contra ele.

Foi somente com a técnica de porta-enxertos, ou seja, usar a base a as raízes de vinhas de Vitis Riparia como base para um enxerto de variedades de Vitis Vinifera, que o problema foi controlado. A proteção já adquirida pela Vitis Riparia garantiria a defesa da raízes, evitando que o ciclo da filoxera se propagasse indefinidamente.

Mas isso implicou que uma grande proporção dos vinhedos existentes fosse removida. A Vitis Vinifera, como cultivada anteriormente, somente sobreviveu em condições muitos específicas (como solos arenosos, de ardósia ou xisto, ou em locais muito isolados). Nos demais, somente a prática do porta-enxerto permitiu o controle da filoxera, que ocorreu no final da década de 1890.

Consequências

Algumas estimativas indicam que a área de vinhedos na França tenha sido reduzida pela metade, como consequência da filoxera. Segundo o historiador Rod Phillips, a área de videiras na França atingiu seu apogeu em 1874, com 2,46 milhões de hectares, cerca de três vezes o total atual. Grande parte das regiões vinícolas encolheu após a filoxera e algumas desapareceram completamente.

Por outro lado, a busca por novas alternativas de plantio implicou na criação de novas regiões vinícolas. Por conta da devastação nos vinhedos em seu país, négociants franceses passaram a procurar alternativas de produção em outros locais, até então não atingidos pela filoxera. A Espanha foi um deles, levando à criação de muitas novas vinícolas na Rioja, entre elas a López de Heredia, fundada em 1877.

Porém, a doença também atingiu a Espanha e muitos agricultores deste país decidiram cruzar o oceano para fugir dela. A consequência foi o estabelecimento de muitas vinícolas na região de Mendoza, na Argentina, incluindo a Bodegas López, criada em 1886.  

Situação atual

Apesar de todo o avanço da ciência nestes mais de 150 anos, ainda não foi identificada uma solução eficaz para extinguir a filoxera. Algumas regiões se mantêm relativamente seguras por conta de seu isolamento geográfico, como o Chile, ou pelas características de seus solos, como o Mosel, Santorini na Grécia, Jumilla na Espanha, parte da Provence ou Colares em Portugal.

Porém, a situação ainda é de alerta no restante do mundo, até porque ocorreram diversos episódios de infestações regionais de filoxera nas últimas décadas. A expectativa é que um dia a ciência consiga resolver este desequilíbrio ecológico causado pelo homem, ao transportar espécies vegetais entre diferentes regiões do mundo sem qualquer controle. Mas o impacto da filoxera é permanente e, de uma forma ou outra, ajudou a moldar o universo vinícola que conhecemos atualmente.  

Fontes:  Phylloxera: How Wine Was Saved For the World, Christy Campbell; Guildsomm; French Wine, A History, Rod Philips; Dying on the Vine, How Phylloxera Transformed Wine, George Gale

Imagem: Jorge Fernández Salas via Unsplash

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