Last Updated on 5 de setembro de 2020 by Wine Fun
Dois termos franceses têm se tornado bastante comuns, principalmente dentre os fãs de vinhos de baixa intervenção: vin de soif e glou-glou. E, para muita gente, são sinônimos, servindo como uma forma divertida para se referir a vinhos leves, de acidez elevada, frutados, de baixo teor alcóolico e muito frescor.
O termo vin de soif retrata muito bem estes vinhos, que, em sua maioria, são consumidos rapidamente, daqueles que todo mundo fica surpreso com a rapidez que a garrafa seca. Fica a percepção que estes vinhos têm como objetivo principal saciar a sede (soif em francês).
Já a expressão glou-glou tem ligação com a facilidade na qual são consumidos, são vinhos que descem rapidamente por nossas gargantas e são retratados por esta onomatopéia. Se você pode escolher entre bater na porta (toc-toc) ou tocar a campainha (din-don), estes vinhos não te deixam alternativas, são glou-glou garganta abaixo.
Frescor em primeiro lugar
Deste modo, este é o tipo de vinho que cumpre muito bem uma função que, no fundo, todos os vinhos almejam: trazer frescor. Pouco importa aqui tentar avaliar a sua complexidade, o seu potencial de guarda, se tem ou não camadas de aromas ou sabores, se os taninos vão evoluir ou se a madeira vai integrar.
O objetivo é simples e direto. Aliás, falar em estágio em madeira para estes vinhos é quase uma heresia, enquanto potencial de guarda pouco importa, nunca sobra nada mesmo.
Sinônimos?
Para quem vê estas duas expressões como sinônimos, eles podem ser tintos, brancos ou rosés. Só não podem ter bolhas, senão estaríamos falando dos pét-nat, ou pétillant naturel. Mas todos eles têm algo em comum: são vinhos alegres, para festas, descontraídos, cool!
Mas será que glou-glou e vin de soif são sinônimos mesmo? Eu tenho a impressão que eles têm muito em comum, mas eu vejo (opinião pessoal aqui!) algumas peculiaridades. Antes de usar o termo vin de soif, glou-glou já estava no meu vocabulário, em uma relação clara com vinhos tintos frutados, de taninos leves e teor alcoólico baixo, exemplificados pelos Gamay de maceração carbônica de alguns produtores do Beaujolais.
Sim ou não?
Um exemplo é o Morgon de Marcel Lapierre. Mata a sede como um bom vin de soif? Sim. Mas, por outro lado, traz muito mais do que isso, pois é de fácil consumo, mas evolui muito bem, é complexo e te desperta vários sentidos. Não é só um vinho apenas para matar a sede, o prazer que vem dele é multidimensional. Em resumo, eu certamente o chamaria de glou-glou, mas não entraria no meu conceito de vin de soif.
E como definir vin de soif? Será um aquele rosé que seu tio servia na beira da piscina também não cumpria muito bem esta tarefa de matar a sede? Aí vem outra questão: a de como estes vinhos são elaborados. Em geral, quando pensamos em vin de soif estamos falando de vinhos de baixa intervenção, sem aditivos, geralmente de agriculturas orgânica ou biodinâmica. Então matar a sede não é única condição…
Menor peso para as definições
Isso prova um ponto. Devemos ser menos formais com estas definições. Na minha visão, é sempre interessante ter conceitos gerais e mais amplos, que ajudem o consumidor na hora de escolher. Vinhos leves, sejam eles glou-glou ou vin de soif, tem seu papel e seus momentos, assim como vinhos mais complexos e multifacetados têm os seus.
No fundo, o mais que importa é que o vinho traga prazer, seja na forma de matar a sede, descer rapidamente pela garganta ou desafiar os seus sentidos pela sua complexidade e elegância. Ou, se possível, todas as alternativas anteriores.
Post Scriptum: sugestão de artigo para quem quiser conhecer melhor a história do termo glou-glou:
A Brief History of Glou-Glou