Last Updated on 8 de fevereiro de 2021 by Wine Fun
É difícil achar quem não fica fascinado com naufrágios. Se, de um lado, representam eventos tristes onde vidas humanas foram perdidas, de outro despertam cobiça e curiosidade. Desde as histórias de tesouros de piratas de nossa infância até a fascinante descoberta dos restos do Titanic, naufrágios fazem parte do nosso imaginário.
De uma certa forma, os naufrágios são como uma espécie de túnel de tempo. Com eles, podemos “voltar ao passado” e descobrir hábitos, costumes e técnicas dos nossos antepassados. E isso vale também para o mundo do vinho, sobretudo quando exemplares de vinhos antigos são encontrados em condições quase perfeitas de conservação.
Os “vinhos do Báltico”
Em 2010, uma descoberta chamou a atenção. Mergulhadores identificaram o naufrágio de um navio do século XIX no Mar Báltico, próximo da costa da Finlândia. Além da estrutura do navio e vários outros objetos, uma descoberta chamou a atenção: garrafas intactas de Champagne. Um total de 168 garrafas foram recuperadas do naufrágio e identificadas como da safra 1839, com engarrafamento em torno de 1841.
Embora os rótulos tenham desaparecido, as garrafas foram mais tarde definidas como Champagnes dos produtores Veuve Clicquot Ponsardin, Heidsieck e Juglar (atualmente conhecida como Jacquesson). A identificação se deu por conta de marcas nas partes internas das rolhas.
Algumas das garrafas estavam em condições perfeitas para envelhecimento (escuridão total a uma temperatura quase constante, entre 2 e 4°C). Além disso, foram mantidas em condições de baixa salinidade, típica da profundidade de cerca de 50 metros onde foram encontradas.

Comparação com Champagnes atuais
Logo após a descoberta, um grupo de cientistas analisou algumas das amostras, com o objetivo de comparar os Champagnes encontrados com exemplares atuais. O principal objetivo foi entender melhor a evolução dos métodos de elaboração. E uma bateria de testes e a análise química dos Champagnes encontrados podem dizer muito sobre o passado.
A primeira preocupação foi tentar identificar potenciais mudanças nas condições sanitárias de vinificação. E um dos indicadores importantes é a presença de ácido acético (pense em vinagre). Muitas vezes acreditamos que a higiene é um conceito moderno (é só entender como eram os vinhos da Roma antiga), mas as amostras de Champagne apresentavam concentrações muito baixas de ácido acético, semelhantes às encontradas em amostras modernas.
Por outro lado, os vinhos analisados mostravam concentrações muito maiores de cloro, potássio e bromo, do que Champagnes atuais. De início, os cientistas acreditaram que isso poderia ser decorrência da contaminação por água do mar. Após descartar esta hipótese, porém, a possibilidade maior é que sejam decorrentes do processo de colagem e estabilização dos vinhos usado na época.
Qual era o destino das garrafas?
Por conta da localização do naufrágio, a primeira hipótese é que os Champagnes teriam como destino o mercado russo, na época um dos maiores importadores deste vinho no mundo. A análise dos vinhos, porém, mostra que talvez fossem destinados a alguma das cidades alemãs nas margens do Báltico. E como chegaram a esta conclusão?
A resposta é simples: pelo grau de açúcar. Os Champagnes resgatados do fundo do mar mostraram um teor de açúcar entre 140 e 150g/L. Isso fica em linha, segundo documentação da Veuve Cliquot, aos níveis usados para os mercados francês e alemão na época. Os russos, por sua vez, preferiam Champagnes mais doces, na faixa de 300 g/L. Para se ter uma ideia, o nível de açúcar atual para um Champagne Brut fica na faixa abaixo de 12g/L. Vinhos mais doces estavam na moda em 1840!
Vale a pena provar?
Porém, os Champagnes não foram somente submetidos a análises químicas. Eles foram provados por degustadores, que relataram sua percepção aos pesquisadores. Se, logo após servidos, os vinhos mostravam notas de redução, com aromas animais, de pelo molhado e queijo, eles melhoraram muito, após algum tempo em contato com oxigênio. De fato, os degustadores passaram a identificar notas picantes, tostadas e de couro, juntamente com toques frutados e florais.
Em resumo, a degustação mostrou que os vinhos conseguiram se manter com boa qualidade, próximos do que se espera para Champagnes modernos mais evoluídos, ou seja, de safras mais antigas. Inclusive as notas de redução fizeram sentido. Redução é um fenômeno que resulta da falta de contato do vinho com oxigênio – o que é esperado para um vinho que passou 170 anos dentro de uma garrafa.
O naufrágio, deste modo, serviu para conservar estes Champagnes e proporcionar, em pleno século XXI, uma espécie de “fotografia” de como os vinhos eram produzidos e dos gostos dos consumidores na década de 1840. Se em outras ”fotografias do passado”, como Pompéia, por exemplo, podemos entender melhor os nossos antepassados, os “vinhos do Báltico” também cumpriram este papel.
Fontes: Chemical messages in 170-year-old champagne bottles from the Baltic Sea: Revealing tastes from the past, Jeandet et al; Smithsonian Magazine
Imagem: Nott Peera via Unsplash