Gregos ou etruscos? Quem teria começado a produção de vinhos na França?

A França talvez seja o país mais associado à cultura do vinho, por conta da qualidade e diversidade de sua produção local. Regiões como Borgonha, Bordeaux, Champagne ou Loire estão sempre representadas nas adegas dos apreciadores desta bebida mais do que especial. Além disso, o que seria do vinho hoje em dia sem as uvas autóctones da França, como Pinot Noir, Chardonnay, Cabernet Sauvignon e tantas outras?

Porém, o vinho foi criado muito longe da França. Estudos arqueológicos mostram que já havia produção de vinho na região da Geórgia, entre 6.000 e 5.800 anos antes de Cristo (A.C.). Ânforas, que foram analisadas com diversos procedimentos químicos, eram usadas tanto na elaboração como na conservação dos primeiros vinhos da humanidade. Porém, como estas técnicas de elaboração teriam chegado à França?

O papel dos gregos

A teoria de que o vinho teria chegado e se popularizado na França por conta da influência dos gregos é a mais aceita. Mas as uvas já existiam lá antes disso. Embora um grande volume de sementes de uva, datadas de cerca de 10.000 a.C., tenha sido encontrado nas proximidades do Lago Genebra, não há qualquer evidência de produção de vinho com estas uvas silvestres nesta época.

Assim, a fundação de Massalia (atual Marselha) pelos fócios (gregos da Ásia Menor), em torno de 600 a.C., seria o ponto de partida da vinicultura na França. Grandes quantidades de sementes de uva, presumivelmente domesticadas e datadas do século VI a.C., foram encontradas em Massalia. Além disso, no final do mesmo século, a produção de ânforas na região, provavelmente destinada ao transporte de vinho local, cresceu rapidamente. São evidências que apontam para a produção de vinhos.

As evidências etruscas

Porém, nos últimos anos, surgiu uma teoria alternativa. E ela passa pelos etruscos, povo que controlava a região central da Itália antes da ascensão de Roma. Já em 800 a.C., os etruscos teriam contato com os fenícios, um povo que habitava a atual região do Líbano e que, além de hábeis comerciantes, produzia vinho pelo menos desde 700 a.C.

Uma evidência-chave deste contato, sobretudo no que diz respeito ao vinho, é que a ânfora etrusca é muito semelhante à fenícia. E ambas eram usadas para transportar este líquido tão desejado. Em paralelo, há diversas evidências de que os etruscos teriam adquirido conhecimentos sobre metais, cerâmica, vidro, marfim e vinho a partir dos fenícios.

Os etruscos, assim como os fenícios, mantinham rotas ativas de comércio com a costa mediterrânea do que hoje são a França e a Espanha. Na época, estas regiões eram habitadas por povos de origem mediterrânea, não pelos celtas, como ocorria em outras regiões da França. E este comércio incluía também as exportações de vinhos etruscos. Naufrágios datados entre 625 e 600 a.C. mostraram que navios etruscos carregavam grande quantidade de ânforas com vinho, em direção à França mediterrânea.

Massalia ou Lattara?

Uma evidência significativa da produção de vinhos no sul da França foi a descoberta do sítio arqueológico de Lattara, perto da moderna cidade de Lattes, ao sul de Montpellier. Os arqueólogos, liderados pelo professor Patrick McGovern, descobriram ânforas etruscas no local e, também, que vinho era produzido e estocado desde ao menos 425–400 a.C. na região. Estas são, até agora, as primeiras evidências inequívocas de produção de vinho na França.

A busca agora é por evidências semelhantes na região de Massalia, o que poderia indicar que o vinho era produzido na França mesmo antes da contribuição dos etruscos. Para os arqueólogos, porém, a verdadeira questão não é saber se Lattara, Massalia ou outro site francês trará as primeiras evidências sobre a produção local de vinho.

As evidências de Lattara permitem afirmar que a vinificação local ocorria na França mediterrânea pelo menos no século V a.C. Além disso, as bases para este desenvolvimento crucial foram precedidas por um comércio de ânforas de vinho provenientes da Etrúria, onde a produção local já se desenvolvia havia séculos.

Fontes: Beginning of viniculture in France, McGovern et al; A História do Vinho, Hugh Johnson

Imagem: Dejan Dodic via Pixabay

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