Last Updated on 28 de dezembro de 2020 by Wine Fun
O Império Romano foi capaz de deixar um legado impressionante na história humana. Para quem gosta de engenharia e arquitetura, obras como o Panteão em Roma ou o aqueduto do qual a Pont du Gard, no sul da França, faz parte, foram marcos incríveis. Algo que a humanidade somente conseguiu reproduzir nos últimos 200 anos, tamanha a tecnologia envolvida na época e que ficou perdida por muitos séculos.
Em diversos outros aspectos, os romanos contribuíram para a evolução da ciência e da humanidade e, quando falamos do vinho, não poderia ser diferente. Nesta área, porém, a contribuição do Império Romano foi muito mais no sentido de disseminar a cultura do vinho do que necessariamente trazer novas contribuições.
Aprendendo com civilizações mais antigas
O Império Romano desempenhou um importante papel na distribuição e popularização do vinho. Porém, os romanos aprenderam sobre vinho e viticultura com os gregos, etruscos, e também com egípcios e cartagineses, assim como com os fenícios. Do período da monarquia até a primeira parte da República há pouca ou nenhuma evidência que forneça apoio à hipótese de os romanos produzirem vinhos em grande escala.
A viticultura romana da época parecia apenas mais um ramo da horticultura. Concentrando-se apenas na conquista de estados vizinhos, tribos, e ainda na subordinação de toda a Península Itálica, os romanos dependiam principalmente do vinho grego, com sua própria viticultura e vinicultura longe de serem prioridades. Vale lembrar que, nessa época, o vinho já tinha mais de cinco mil anos de história, desde as primeiras evidências de elaboração de vinhos na região do Cáucaso.
Crescente importância
Este quadro, porém, mudou a partir do século II a.C., quando a maioria dos poderes de Roma ainda estava focada no crescimento e na expansão. A partir de então, o vinho passou, gradualmente, a ser um dos fundamentos da economia. Assim, o século II a.C. marca um marco na história do vinho romano e da viticultura.
Foi a partir desta época que a relação de Roma com o vinho mudou. Se, antes disso, os romanos contavam com os vinhos feitos pelos gregos ou etruscos, gradualmente aprenderam com eles e os superaram, construindo uma poderosa indústria vinícola. E isso deixou uma marca não somente na Península Itálica (como em Pompéia, por exemplo), mas em todos os cantos do grande império que construíram.
O vinho chegando à fronteiras da Europa
Através da expansão do Império Romano, as uvas atingiram as províncias mais distantes e, depois, expandiram-se para além destes limites. Um exemplo foi a Panônia (que atualmente corresponde à Hungria, leste da Áustria, norte da Croácia, Eslovênia e noroeste da Sérvia). Plantas como ameixas, pêssegos e uvas foram trazidas junto com colonos romanos. A abundância de plantas introduzidas pelos romanos sugere que horticultura e viticultura tenham desempenhado um papel importante nesta região.
Na França (ou Gália, como era conhecida na época) a viticultura já existia desde a instalação das colônias gregas no Mediterrâneo (como Massalia, atual Marselha, fundada em 600 a.C.). Mas foram os romanos os grandes responsáveis por sua popularização. Foi por conta do conhecimento científico dos romanos, de que o ar frio flui por encostas e se acumula em vales, que a geografia de produção mudou na antiga Gália. Os primeiros registros de vinhos em áreas como Bordeaux e Borgonha, por exemplo, são da época romana.
Vinho fora das fronteiras do Império
Este é o caso também em regiões da atual Alemanha (como o Mosel) e na Grã Bretanha. A própria palavra vinho em boa parte das línguas européias tem origem no latim vinum. Isso evidencia que a influência do vinho romano muitas vezes cruzava até as próprias fronteiras do Império.
Tribos germânicas fora do Império, como os alamanos e os francos, consumiam grandes quantidades de vinho produzido na Germania romana. Isso mudou quando um edital do século V proibiu a venda de vinho fora dos assentamentos romanos. Para Hugh Johnson, isso poderia ter sido um dos motivos responsáveis pela invasão destes povos, funcionando como um incentivo adicional para as invasões bárbaras e ataque aos assentamentos romanos, como Trier, por exemplo.
Legado para gerações futuras
Deste modo, apesar de consumirem um vinho muito diferente daquele que estamos acostumados hoje, os romanos talvez tenham sido a civilização responsável por levar a cultura da uva e do vinho para praticamente toda a Europa. E esta tendência persistiu após a queda do Império, já que a adoção do Cristianismo como religião oficial acabou intensificando o processo.
O uso do vinho na celebração litúrgica, porém, não foi o único caminho adotado pelo vinho para se popularizar desde a época romana. Para os romanos, além de ser um importante aliado na busca do prazer (os cultos de Baco que sirvam como testemunha), o vinho também era usado como medicamento. Assim, seja para curar o corpo como a alma, o ganho ganhou cada vez mais adeptos. E boa parte deste movimento certamente se deve ao Império Romano.
Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Roman Wine in Barbaricum. Preliminary Studies on Ancient Wine Recreation, Feier et al; Ancient History and Archeology; United Nations of Roman Victrix
Imagem: Gavin Banns via Pixabay
One Reply to “O Império Romano e seu papel central na popularização do vinho”