Last Updated on 19 de novembro de 2021 by Wine Fun
Em um certo sentido, o trabalho e os conceitos lançados por alguns monges do século XII ajudaram a moldar o mundo do vinho. E isso é relacionado a um dos conceitos mais valorizados atualmente: terroir. É fundamental entender quais fatores (solo, clima, altitude, processos etc.) podem influenciar a qualidade das uvas cultivadas e dos vinhos elaborados a partir delas.
A ideia de que características específicas de cada região definem o vinho deu origem também ao conceito de denominações de origem, vastamente difundido ao redor do mundo hoje em dia. Este conceito é baseado no trabalho desenvolvido na França, onde se concentraram os primeiros esforços nas definições geográficas.
O que pouca gente sabe é que a base de todo o sistema francês de denominações de origem reflete, por sua vez, os conceitos adotados na Borgonha desde a Idade Média. E os monges cistercienses estão na origem disso.
Os cistercienses
A relação entre ordens monásticas e vinho possivelmente não surgiu na França, pois há evidências que a Abadia de Trier, na Alemanha, já elaborava vinhos no século IV. Foi na Borgonha, porém, que esta relação atingiu um nível jamais visto. Os responsáveis por isso foram os monges cistercienses, sobretudo após sua bem sucedida experiência em Clos de Vougeot.
Os cistercienses são uma cisão da ordem beneditina, que na Borgonha tinha a Abadia de Cluny como sede. Em 1098, um abade beneditino, Robert de Molesme, deixou a Abadia de Molesme com cerca de 20 seguidores. Eles acreditavam que os beneditinos haviam abandonado os rigores e a simplicidade previstos pela Regra de São Bento. No mesmo ano, criaram a Abadia de Cîteaux (Cistercium, em latim, daí o nome da ordem).
A maior expansão da ordem veio através de um jovem nobre da Borgonha chamado Bernard. Ele chegou a Cîteaux em 1112 (ano no qual a ordem cisterciense foi oficialmente fundada), com 35 parentes e amigos para se juntar ao monastério. Rapidamente, se tornou o principal nome desta ordem monástica, fundando em 1115 a Abadia de Clairvaux, a partir de terras doadas pelo Conde de Champagne. Adotou o nome de Bernard de Clairvaux e, posteriormente, após sua beatificação, passou a ser conhecido como São Bernardo.
Vinhedos e vinhos
Mesmo antes da chegada de Bernard, porém, a abadia de Cîteaux já havia recebido doações e adquirido terras no que hoje é o Clos de Vougeot. Como regra, os cistercienses focavam em terras ainda não cultivadas, pois um dos princípios da ordem era a volta à simplicidade. O trabalho braçal no campo, deste modo, aparecia como prioridade. Mas os cistercienses rapidamente aprenderam a explorar as terras de forma eficiente.
Na Idade Média, pequenas unidades agrícolas predominavam, muitas vezes com muitos donos. Simplesmente por serem capazes de combinar essas unidades em áreas maiores, os cistercienses poderiam tirar proveito de economias de escala e maior produtividade. Além disso, a dedicação destes monges no cultivo da terra permitiu que eles identificassem quais culturas se adaptavam melhor às condições locais. Assim, desenvolveram o conceito de climats, essencial para a qualidade dos vinhos.
Expansão e qualidade
A experiência dos monges em Clos de Vougeot foi muito bem sucedida, e a área de vinhedos cresceu continuamente até 1336, quando se construiu a muralha circundado a área. Por conta disso, passaram a expandir suas áreas de vinhedos. Após a aquisição de áreas em Petit Musigny e do insucesso na expansão para Grand Musigny (ambas próximas a Clos de Vougeot), decidiram buscar novas áreas.
Foi quando voltaram suas atenções para o vilarejo de Vosne-Romanée e os climats de Grands Echézeaux e Richebourg. Adquiriram uma área de cerca de 10 hectares em Richebourg, que passaram a cultivar, embora transportassem as uvas para Clos de Vougeot, para vinificação e maturação dos vinhos.
Criando conceitos usados até hoje
Mas estes incansáveis monges não pararam por aí. Os cistercienses adquiriram ou receberam doações de vários vinhedos ao longo de toda a Côte d’Or da Borgonha. Em paralelo, trabalharam para entender minuciosamente e definir cada pequena parcela de terra ou vinhedo. Estes monges identificaram os pontos bons e ruins de geologia e microclima de cada parcela, e então comparavam com os vinhos elaborados, buscando a relação entre terroir e seus diferentes sabores.
Os monges mapearam e delinearam cada parcela, criando o conceito de cru, pelo qual cada lote de vinho é segregado e nomeado de forma distinta. E este sistema foi copiado e adotado por muitos outros, sendo até hoje uma parte fundamental de como a Borgonha é julgada e apreciada.
Os monges cistercienses, portanto, trouxeram inestimáveis contribuições para a vinicultura. E isso não é limitado à Borgonha ou à França, mas também para todo o mundo do vinho, onde seus conceitos são até hoje postos em prática.
Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; The History of Wine in 100 Bottles; Oz Clarke; Medium.com
Imagem: Cistercian Studies Collections